Baseado em fatos reais

22 de março de 2011

Depois de enrolar por um tempo, senti o gosto.
Lembrava pizza, de certa forma, mas era bom.
Meus lábios se contraíram e em seguida relaxaram, assim como todo o meu corpo.
Prendi a respiração - reação involuntária - e aos poucos fui soltando o ar que segundos antes parecia ter desaparecido de dentro de mim.
Me senti anestesiada, meus braços pesaram, minha cabeça girava e nada mais importava nem fazia sentido.
As pessoas ainda falavam em volta, mas nada prendia minha atenção.
De olhos fechados, ouvia o barulho do mundo, mas nenhum era mais alto que o das batidas do meu coração.
De certo minha pressão caiu, porque foi difícil me manter em pé. Tudo rodava, mas nada existia. Então o que rodava, na verdade, era o nada.
Pensamentos malucos surgiram no meu cérebro e me sentia completa com eles.
Completa e estúpida.
Perdi totalmente a noção de realidade. Até mesmo a palavra "realidade" já não significava mais nada. Aliás, engraçadinha essa palavra. Eu riria dela se não estivesse ocupada sentindo tanto e nada ao mesmo tempo.
Parecia que horas haviam se passado. Anos. Séculos.
Talvez por isso tenha sentido tanta fome, uma fome cada vez mais intensa.

Fome de você.

Mas aí você se afastou.

Demorei pra abrir os olhos, com medo de que aquela sensação tivesse fim.

E então apressado, junto com você, saiu pela porta o primeiro beijo da minha vida.

Metamorforse

14 de março de 2011

Morar sozinha não é fácil. Morar com três homens também não.
Ainda mais quando você passa a depender da própria comida, ou da deles, pra sobreviver.
Eu não cozinho mal. Minha Pasta Carbonara é de comer de joelhos (tá bom que pouca coisa não fica boa com bacon e creme de leite, né?).
Mas como os meninos da Rep Jaraguá não costumam comer em casa, fico com preguiça de cozinhar só pra mim.
Foi por causa da preguiça que descobri as sopas Vono.
Uma beleza, você adiciona água quente a um pozinho e, de repente, vê surgirem pedaços de carne, frango desfiado e croutons, milagrosamente crocantes e provavelmente cancerígenos. Tudo tem o mesmo gosto, é óbvio, de maneira que minha felicidade pela maravilhosa descoberta não durou mais que uma semana.
Minha mãe, famosa na  família Cury Reis pelo humilde título de Melhor Cozinheira do Mundo, vendo que a pobre filhinha estava emagrecendo e chegando ao cúmulo de agradecer pelo chuchu refogado do qual nunca havia gostado, decidiu que iria salvar a pátria, pelo menos naquela semana.
Ela fez quibe, carneiro recheado, frango com laranja, pão recheado... Com a desculpa de não deixar meu pai comer muito e ficar barrigudo, distribuiu essas gostosuras entre os filhos queridos, que moram longe da asa dela.
A minha parte da herança do final de semana resumia-se a 16 quibes grandes, um pão recheado inteiro, 5 sobrecoxas de frango com laranja e metade de um carneiro de 50Kg. Tá, talvez não tivesse tanto carneiro assim, mas foi difícil de carregar, de qualquer maneira.
Ela realmente estava me achando magra demais.
Coloquei tudo na geladeira e fui consumindo aos poucos, pedindo encarecidamente que os meninos - 3 homens de quase 30 anos, solteiros e famintos - me ajudassem com tudo aquilo.
Mas é impressionante como tinha comida!
Depois de 2 semanas, comecei a ficar com receio de comer os restos do carneiro e do frango. Em 3 semanas, matei os quibes e o pão recheado, e comecei a empurrar os Tupperware (vulgo "tapauér") com carne para o fundo da geladeira, inconscientemente.

Me esqueci deles.

Mentira, a cada dia eles me incomodavam mais, e eu forçava mais o meu inconsciente a empurrá-los para o fundo da geladeira.
Voltei a comprar sopas Vono, pra não pensar no que poderia ter se transformado aquela comida preciosa da mamãe.
A cada dia crescia o medo de jogar tudo no lixo. No mínimo, estaria fedendo muito. No máximo, uma subespécie formada pela união de cerca de 15 tipos de fungos diferentes me atacaria, assim que eu retirasse aquela tampa hermética azul.
Hoje, no entanto, quando abri a geladeira, tive a impressão de ver a tampa do frango se abrindo lentamente. Pensei comigo: "Estão ganhando vida, antes que aprendam a construir armas, vou me livrar deles".
Tive que me segurar muito pra não jogar a comida com Tuppeware e tudo na lixeira.
Só de pensar em lavar aquilo depois, meu Deus!
Mas se tem uma coisa que enfurece a Senhora Cury Reis é que os filhinhos sumam com os Tuppeware(s) dela. Ela fica doida. Então achei melhor enfrentar meus medos, colocar um prendedor no nariz e me direcionar até a lixeira do prédio.
Coloquei a cabeça pra fora da porta. Não queria ser acusada pelos vizinhos de ter criado um monstro na geladeira. Mesmo sendo a mais pura verdade.
Foram os 2 minutos mais demorados da minha vida.
Abri as cumbuquinhas, joguei o conteúdo na lixeira, tampei as cumbuquinhas rapidamente, entrei em casa rapidamente, tranquei a porta mais rapidamente ainda e lavei tudo.
Ouvia os fungos se contorcendo e empurrando a tampa da lixeira pra cima. Os do Carneiro peleando com os do frango, que, a essa altura, já haviam desenvolvido bazucas com os ossinhos e a cartilagem.
Foram momentos de tensão, meu coração batia forte e comecei a ficar preocupada com a possibilidade de algum vizinho ser pego de surpresa no corredor enquanto esperava pelo elevador, que demora uma vida pra chegar ao terceiro andar.

Quando terminei de lavar os Tuppeware minha respiração foi diminuindo. Apurei os ouvidos e não escutei nada, nem na casa, nem no corredor. Fui até a porta, olhei pelo olho mágico, a lixeira estava ali. Parada. Inocente. Não havia sangue no corredor.
Foi quando tomei consciência de que estava apreensiva, atrás de uma porta trancada, esperando que minha comida atacasse alguém.

Que cena ridícula.

Comecei a rir sozinha feito uma idiota, destranquei a porta e deitei no sofá.
Estava quase pegando no sono quando a vizinha deu um grito estridente no corredor.

Tranquei a porta e me escondi embaixo da cama.

TNT

11 de março de 2011

Ingredientes:

- 1 peça grande de lagarto
- 2 Cenouras
- Bacon (a gosto)
- Brócolis
- Óleo de girassol
- Um dente de alho
- Uma cebola grande
- Caldo de carne (de preferência, natural)
- 5 Tomates pelados
- Cheiro verde
- Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo:

Com uma faca grande e bem afiada, abra a peça de lagarto em manta.

Tempere com sal e pimenta a gosto.

Corte as cenouras em tirinhas, faça o mesmo com o bacon.

Coloque o bacon, a cenoura e o brócolis sobre toda a manta e vá, cuidadosamente, enrolando a carne, como um rocambole.

Usando uma linha de pesca ou um barbante, amarre a carne para evitar que ela se abra durante o cozimento.

Numa panela de pressão grande, coloque óleo, alho e cebola picados e refogue.

Quando a cebola estiver dourada, coloque o rolo de carne na panela.

Vire o rocambole a cada 10 minutos. Todos os lados precisam ficar bem corados.

Adicione o caldo de carne. Se necessário, complete com água até cobrir toda a peça.

Pique os tomates, o cheiro verde e reserve.

Depois de 15 minutos, tire a pressão da panela, adicione os tomates e coloque novamente na pressão.

Espere mais meia hora, tire novamente a pressão, adicione o cheiro verde e coloque novamente na pressão.

Após 5 minutos, tire a pressão, adicione um filé de merluza e um chili vermelho com as sementes.

Você também pode colocar fatias de pão de fôrma.

Mais dois minutos de pressão.

Coloque a panela na água para que a pressão saia rapidamente.

Adicione coentro (a gosto), alecrim, três folhinhas de hortelã, um rolo de barbante, a faca com a qual cortou a carne, um computar com Windows, de preferência o Vista, um celular, mais cebola, mais alho e coloque novamente na pressão.

Chame alguém de quem você gosta muito pra saborear o prato, mas não apague o fogo.

Com a indicação de que o fogo não deve ser apagado e de que você volta num segundo, deixe a pessoa cuidando da panela de pressão enquanto você sai e vai passear no shopping.

Volte 2 horas depois e, SE possível, limpe toda a sujeira.


Agora, me diga. Se ingredientes inesperados entrassem aos poucos no meio da pressão do dia-a-dia e você precisasse fazer algo parecido para se sentir melhor, sinceramente, faria?

À Mostra

1 de março de 2011

Já se sentiu nu?

Você obviamente já ficou nu, mas já se sentiu assim?

Experimente tirar a roupa num local atingido por uma corrente de vento.

Não faça isso em público, pode gerar problemas.

Procure algum canto da sua casa por onde passe uma corrente de ar, tire a roupa, feche os olhos.

A primeira coisa que se sente é o corpo arrepiado, os pêlos levantando. Independentemente de estar calor ou frio, você vai se arrepiar (Tá, se você estiver em Rio Preto talvez não se arrepie, escolha um dia quente, não um dia extremamente quente, como todos entre agosto e abril).

Em seguida, vai sentir o vento nas partes úmidas do corpo. Cada um tem suas umidades particulares, já não cabe a mim definir nada nesse sentido.

E então você se sente indefeso.

O ser humano dificilmente para pra pensar nisso, porque praticamente já nasce vestido, mas a roupa, ao proteger do frio, da chuva, dos olhos tarados, cria a sensação de ser uma armadura que, via de regra, protege de tudo.

É nesse sentido que pergunto. Já se sentiu nu, mesmo vestido?

Alguém já te olhou e, só com os olhos, conseguiu te arrepiar, te fazer sentir as partes úmidas?

Alguém já te deixou indefeso?

Cuidado.

Despir-se do peso da armadura pode deixar o corpo tão leve que se torne difícil manter os pés no chão. E aí você flutuará nu, onde todos poderão te ver por inteiro.

Se você estiver se sentindo assim, no entanto, acredite: vai querer ser visto por apenas uma pessoa.

Um punhado de ar

25 de fevereiro de 2011

Triiiiim, acorda, pulAdaCama. Vai, desperta, o dia começou. A n d a - n o - m e i o - d o - p o v o, corre, pega o metrô. Chegaatrasadaesenta.  Ufa!  Levanta, pega café, senta de volta, trabalha, trabalha,trblaha, trlabaha.
- Oi.
- Oi(trabalha,trblaha, trlabaha)
- Como você é?

- Ah... Eu?
- É.
- Que pergunta estranha... Ah...sou assim, assado. Nada demais.
- Defina "Nada demais".
- Nada interessante.
- Defina "interessante".
- Nada que chame a atenção.
- Chamou a minha.
- Por que? Eu só trabalho, você mal me conhece.
- O seu sorriso.
- É frouxo.
- Seu papo.
- É velho.
- Seus olhos.
- Tá, os olhos... Talvez dos olhos você tenha razão. Esses olhos já viram coisa demais, muitas vezes diferentes do que o cérebro podia processar. Muitas vezes coisas feias, más. Mas também coisas boas. Muitas coisas boas. Meus olhos são de uma mulher de 80 anos, não só pela miopia. Pela vivência. Mais ativos que meus olhos, só meus braços. Que tentam sempre abraçar o mundo e pouco conseguem além de um punhado de ar.
- Do que você precisa?
- De tanta coisa.
- Mas o que é imprescindível?
- Posso ser sincera?
- Claro.
- Ocupa o lugar desse punhado de ar entre os meus braços. Não preciso de mais nada.

Foi DEZ!

24 de dezembro de 2010

2010 começou com um fardo bastante grande: ser um ano ao menos comparável com o de 2009. Em 2009 fiz o intercâmbio, morei em Santiago de Compostela, conheci milhares de pessoas que vou levar para sempre no coração. Foi, no mínimo, um ano brilhante. Confesso que não esperava muito desse ano que agora está terminando, apesar de ele ter começado de forma maravilhosa


Já contei como ele começou?

Estava em Compostela com um grupo de uns 10 brasileiros. Tínhamos duas garrafas de champanha, 12 uvas pra cada um, uma calcinha roxa (que eu estava usando por baixo de muita roupa, no caso), o bucho cheio de escondidinho da ceia e muita pressa pra chegar na frente da catedral onde aconteceria a festa...bom, eu, pelo menos, estava com bastante pressa. No final das contas uma parte do grupo ficou esperando outra, outra parte se perdeu, alguns correram porque estava chovendo e, quando deu meia noite, estávamos só eu, o Tyler e uma das duas garrafas de champanha, na frente da catedral, emocionados com os fogos e ensopados por causa da chuva. Foi lindo! Eu falei isso pro Tyler na hora e repito agora. Melhor impossível!

 Fogos sobre a catedral de Santiago de Compostela

Eu gorda, o Tyler magro e os dois ensopados na virada de ano 2009/2010

 

Depois da virada do ano comecei a contar os dias para voltar pra casa. Adorei a Europa, mas tava morrendo de saudade da minha família, do Brasil, dos morros de Itatiba e dos travestis de Rio Preto. Foi nesse momento de contagem regressiva que, simplesmente, me apaixonei. Assim, do nada, por alguém que havia acabado de chegar lá no estrangeiro. Eu, Marina, o coração de pedra que gosta de todo mundo mas não se apaixona por ninguém. Eu me apaixonei de verdade. Como diria o Zagallo: “Aí sim...”

É ÓBVIO que eu voltei pra casa e tive que esperar seis meses pra investir nesse sentimento. Afinal, sou eu. O que realmente importa nesse caso é que voltei a acreditar no amor e, garanto, isso já seria o suficiente pra tornar o ano de 2010 um dos mais importantes da minha vida.

Aí vem a pergunta, essa pessoa foi a mais importante da minha vida nesse ano? Não. Mesmo que eu ainda estivesse namorando, não seria. É claro que foi muito importante, mas a mais importante, sem dúvida, foi o meu pai.

Quando eu tinha 9 anos participei de um concurso de poesia na escola e acabei ganhando o terceiro prêmio. O tema era “O Heroi dos meus Sonhos”. Não lembro de toda a poesia, mas lembro da estrofe final:


“Meu pai, o herói dos meus sonhos

Que dos meus sonhos risonhos vem

Protegendo toda a família

E as outras pessoas também”

Tá, não é lá muito complexo, mas posso dizer que “Heroi dos meus Sonhos” é o título perfeito para o meu pai, porque num dia muito especial desse ano ele olhou nos meus olhos e disse que eu teria o apoio dele para tudo o que eu decidisse fazer da minha vida, independentemente do que o resto do mundo pensasse. Uma atitude que me fez chorar feito louca, de alívio e felicidade. Resumindo bem: o bigodão é foda!

O heroi dos meus sonhos


Tendo o apoio dele, uma aceitação em andamento da minha mãe e a certeza de que não estava fazendo mal pra ninguém, ergui a cabeça, arregacei as mangas e fui a luta para concluir o último ano de faculdade com a consciência tranquila e 100% de aproveitamento.

Estou falando, é claro, do que realmente importa na faculdade. Os amigos, as bebedeiras, as festas. Pra ter 100% de aproveitamento nas disciplinas eu teria que começar tudo de novo e, não, brigada, eu prefiro qualidade de vida.

Se os outros anos tinham sido repletos de farra, esse último, sem dúvida, entrou pra história! Os treinos de futsal viraram reuniões de família: sempre repletos de xingamentos carinhosos e concluídos com uma boa e gelada cerveja no Chalé. Aliás, se fosse pra dizer qual foi meu lugar preferido de 2010 ficaria em dúvida entre o Chalé, o Portuga e o Vila Dionísio. Não pelos lugares em si...pelas companhias, sempre! Poderia citar vários nomes que fizeram a diferença nesse ano, mas como minha memória é uma merda e sempre esqueço alguém extremamente importante, prefiro apenas agradecer a todos vocês que, em maior ou menor proporção, transformaram esse ano num período tão especial!

TRADUTORES 2010

 Churrasco dos Formandos

Time de Futsal feminino - IBILCE 2010
 No final das contas, o ano que prometia ser a ressaca de 2009 está acabando de forma espetacular! Ganhei uma amiga-companheira-irmã que vai passar o natal comigo, concluí a faculdade com uma boa média, fiz amigos pra vida toda, estou com o emprego garantido para o ano que vem, já tenho onde morar em São Paulo e, quando achei que o ano já não reservava mais nenhuma surpresa, descobri o quão prazeroso pode ser limpar o ouvido com um cotonete...isso soou meio estranho, mas tentem, é ótimo!

Obrigada a todos que caminharam comigo e boa sorte a quem, como eu, começa agora a enfrentar o mundo de outra forma. Feliz Natal desde Clementina. Feliz Ano Novo desde Santa Fé do Sul! Que essa virada de ano seja tão maravilhosa quanto a do ano anterior! O guarda-chuva já está a postos, a champanha já está na mão e a calcinha nova já está comprada...mas, dessa vez, ela é amarela.



Ao vivo

16 de novembro de 2010

- E quando eu disser "três" pode abrir os olhos, não abra antes.
(Música tensa ao fundo, tambores rufando em sintonia com o descompassado coração)
- Um, dois eeee... TRÊS! ABRA OS OLHOS
(Música alegre ao fundo, cheia de acordes maiores, sons de sininhos, close na cara de tacho do dono da casa)
- [...]
- E aí, o que achou?
- Eu...
- Não diga agora! Repare bem em cada detalhe, olhe com atenção! O que achou?
- Ah...eu...
- NÃO DIGA AGORA! Olhe para a nova textura da parede, para o novo piso, os novos moveis, a sua nova casa. E então, o que achou?
- [...]
- Está sem palavras?
- Não, só estava me perguntando se você ia me deixar falar.
- Ah, claro, sinta-se em casa. Hahaha. Pegou? Pegou? Sinta-se em casa na SUA casa! Hahaha! Olhe para aquela câmera e diga com toda a sinceridade, o que achou da reforma maravilhosa que fizemos?
- Eu... eu acho que vou vomitar.
- Que Maravilha!! Ele disse que...peraí, o que você disse?
- Eu disse que vou vomitar. Isso está horrível!
- Como assim, horrível?
- Olha a cor da parede!
- Não gostou da cor da parede?
- É verde-catarro! Quem diabos pintaria uma parede de verde-catarro e teria a cara de pau de me perguntar se gostei?
- Bom, mas olha o sofá que luxo!
- Ele é laranja.
- Sim, moderno, bonito...
- Se tem uma cor que detesto mais que verde-catarro é laranja. As duas cores combinadas então...e, meu Deus, o que é isso?
- É uma poltrona. Ela é superconfortável e...
- Florida.
- Sim, florida, sua noiva vai adorar.
- Terminei meu noivado ontem.
- Ah, sinto muito.
- Ela não gostava nem de ganhar flores, imagina se ia gostar de uma poltrona florida!
- Bem, ótima oportunidade para procurar uma nova noiva, não? Uma que goste de flores...
- (choro)
- Querido, por que está chorando?
- Minha casa, vocês destruiram a minha casa! Cadê a minha TV?
- Ela está ali, sobre aquele móvel lindíssi...
- Eu gosto da minha TV do lado da lareira! Gosto de olhar pra TV e ver o reflexo do fogo, não quero minha TV sobre aquela mesa horrorosa que vocês colocaram ali, quero MINHA TV do lado do MEU fogo! (choro desesperado)
- Calma, você não gostou das mudanças que fizemos?
- (Choro) Nãããooo...
- Se trocarmos a cor da parede você vai ficar feliz?
- (Soluços) ...nãããooo...
- Ok, existe alguma outra mudança que a gente possa fazer que vai te deixar feliz?
- Além de sumir com o verde-catarro?
- Isso.
- E com esse sofá laranja?
- Isso.
- Quero minha casa como era antes!!!
- Isso é impossível, meu querido, sinto muito.
- Sente muito? SENTE MUITO? Não consigo nem olhar pra essa coisa horrorosa que vocês fizeram, pelamordedeus, como alguém pode se formar em Design e destruir a casa de um cidadão honesto que não faz mal a uma mosca?
- É a universidade brasileira, o MEC aprovando tudo que é curso em qualquer faculdade, aliás, uma faculdade mais vagabunda do que a outra, sabe como é...Não que esse seja o caso do nosso designer, imagina, ele é ótimo, aqui só tivemos um...choque de gostos.
- Choque de gostos? Você tem a pachorra de dizer que o problema aqui é só de mau gosto? Eu vou pegar esse microfone e enfiar no seu...
- Tive uma ideia!
- Ideia?
- Sim! Infelizmente não temos como alterar a reforma da casa, mas nossa emissora tem um outro programa que será perfeito pra você que agora está solteiro. Você será trancafiado em uma casa cheia de câmeras com 10 mulheres e um anão. Ficarão lá dentro se conhecendo, fazendo amizade, curtindo festinhas, nadando, se divertindo e sendo vigiados por todo o país. O que acha? No final das contas pode dar casamento...com uma das 10 mulheres ou com o anão, as opções são variadas!
- Bom...
- Oportunidade única, rapaz, outros matariam para ter essa chance.
- Acho que pode ser uma boa ideia...
- Boa? É ótima! Você ficará famoso...talvez não por muito tempo, mas tempo o suficiente pra ganhar um dinheirinho posando para a G Magazine...
- Só tenho uma pergunta a fazer.
- Pois não?
- Essa casa, cheia de câmeras...
- Sim?
- Tem paredes verde-catarro?

Fim

27 de outubro de 2010

Nada.
Foi o que senti ao te olhar entrando pela porta.
De Nada.
Era a minha vontade diante de suas perguntas sobre o meu dia.
Absolutamente Nada.
Foi o que vi nos seus olhos quando disse que não queria mais esperar nada de você.
Assim como nada senti quando você me abraçou, nem vontade de sorrir, nem de chorar, nem mesmo de abraçar, nem nada.
Com os olhos mareados te vi ir embora e cruzar a rua. Microminimalíssima prova de que havia um coração aqui dentro. Rascunho de lágrimas que desapareceu com você na esquina e deu lugar a...nada.
Nadessíssima de nada.
Nada além do vazio deixado pelo Tudo que você tinha sido.

Inspirado num sentimento que vem Do fundo do mar e da alma

Adulta

18 de outubro de 2010

   Foi assim, de repente, esperando bagunça, uma casa destruída, cerveja saindo pelas torneiras, churrasco só com o cheiro da carne, música brega, pessoas bêbadas correndo por todos os lados, beijos e abraços em desconhecidos, que percebi como as coisas estavam diferentes.

   Foi quando entrei naquela casa linda e me ofereceram carne, cerveja, vinho – seco – ou suco, vinagrete e mandioca cozida, quando vi crianças correndo pelo quintal e pessoas mais velhas conversando e rindo moderadamente, foi quando te vi com um chapeuzinho de festa na frente do bolo de aniversário que percebi, minha amiga, que algo havia mudado.

   Você estava mais linda do que nunca, com o sorriso incrível de todos os dias, o carinho absurdo de anos e a amizade que sempre tivemos...mas estava diferente.

Foi assim, num momento de surpresa, em uma noite de festa, que percebi que você havia crescido.

   Era como se tivesse perdido uma pessoa que amava muito e estivesse conhecendo outra, que amava também antes mesmo de conhecer.

Adulta, como dizem...adulta.

   E eu me senti pequena vendo sua felicidade. E me senti grande por ter sido convidada pra estar ali. E me senti criança perto de você. E senti orgulho de estar ao seu lado.

   E me lembrei dos nossos planos “Peter Pan”, das nossas preocupações com prova, da dificuldade de juntar dinheiro pra viajar com os amigos, dos sonhos tão bonitos, tão distantes, tão infantis, e percebi que ainda sonhava os mesmos sonhos enquanto você já realizava os seus.

   Olhando pra você com uma criança no colo e a família do lado só me restou sorrir, e enquanto todos a parabenizavam pelo aniversário, eu a parabenizava pelo crescimento.

Que "Littlemarininha" que nada! Que moleca que nada!
Quando crescer quero ser como você.

Uma história de ficção

7 de outubro de 2010

Vou contar uma história totalmente fictícia e improvável que não sai da minha cabeça.
Um dia, a Moça vai se despedir do amigo que está indo embora e acaba conhecendo um outro cara que vai ocupar o quarto vago. Um cara que não fala português, que veio de algum país frio...vamos chamar esse país fictício de Alemanha.
Ela tenta ser legal, diz que ele pode chamar caso precise, numa boa, sem rodeios.
Ele chama...às duas horas daquela madrugada.
Ela atende e, pacientemente, aguenta as cantadas, as tentativas de abraço, mesmo se sentindo ridícula. Tenta colocá-lo pra fora milhares de vezes, milhares, até que, simplesmente, abre a porta e diz algo educado como: "Get out now, I really need to sleep".
No dia seguinte, a mesma coisa.
Ela, de saco cheio, avisa as meninas que moram com ela sobre o cara, porque, nessa situação hipotética, a Moça mora com mais duas meninas.
As duas também são cantadas pelo alemão, até que decidem parar de atender a porta. Ninguém atende a porta, ninguém sai na sacada, ninguém deixa as janelas abertas para que ele não perceba que tem gente em casa, saem para a rua torcendo para não encontrá-lo nas escadas.
Até que um dia, esse alemão manda uma mensagem para a Moça num site de relacionamentos que aqui, por falta de nome mais apropriado, chamarei de facebook.
Nessa mensagem, ele diz ouvir uma "conversa" íntima da Moça com a respectiva namorada, e oferece ajuda, caso as duas precisem.
Ele sabe da namorada porque, tentando evitar uma aproximação, a Moça disse a ele no primeiro encontro que era comprometida com uma outra moça, enfim. Tudo ficção.
Após ler essa mensagem, a Moça perde o controle, manda o cara a merda em 15 idiomas e acredita que, dali para frente, ele vai entender como as coisas funcionam.

Tudo segue na santa paz por um mês, até que, numa noite, uma das meninas que mora com a Moça abre a porta sem ver quem batia e dá de cara com o alemão:
"Oi...a Moça...estar?"
"Não, a Moça não está."
"Eu precisar lavar minha roupa, se lavar à mão, não secar until sábado. Possow lavar aqui?"
A amiga, embasbacada, diz que não, que a Moça não estar, que ela estar para sair e que ele estar para dar o fora.
Cinco minutos depois essa amiga sai de casa. A Moça, lembrando-se de algo importante, sai na janela e grita esse algo importante para a amiga, que a essas horas, nessa situação hipotética, já estava na garagem.
Ela responde com uma voz estranha.
O que a Moça não sabia é que, quando gritou, sua amiga estava de frente para o alemão, que, na garagem, esperava por ela.
"A Moça não estar, right? Mentirosa!"
Dali em diante a porta voltou a ficar trancada, as janelas voltaram a ficar fechadas e ninguém mais saiu na varanda. Surgiu um medo estranho de aquele cara, de repente, aparecer com uma arma dando tiros a torto e a direita...pessoas estranhas sempre fazem coisas estranhas
É óbvio que tudo isso que contei não aconteceu, que pessoas que vêm de países frios não são tão intrusivas, jamais, mas, imagina se tivesse acontecido...
Acho que ninguém acreditaria.