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Reforma

24 de abril de 2016

Eu me lembro até hoje do dia em que fui conhecer o meu apartamento.
Procurava por ele havia meses. Tinha visto muquifos custando fortunas, apartamentos que comportavam três quartos, sala de estar, sala de jantar, escritório, hall, varanda gourmet, dois banheiros e uma areazinha externa em 50m², casas ideais localizadas no fiofó do Judas, enfim, foi um alívio entrar naquele apartamento e perceber que tinha encontrado o meu cantinho.
Tudo era lindo, pintadinho, bem arrumado... Menos o banheiro. O banheiro era um horror. Enorme, mofado, com um piso chapiscado de cinza, azulejos floridos nas paredes, o armário tinha um ninho de baratas aladas e, pra fechar com chave de ouro, a privada e a pia eram roxas. Sério, roxo-beterraba. 
Desde o primeiro dia, eu queria reformar aquele banheiro. Meu sofrimento em relação a ele era físico. Dava até dor de barriga. Ainda bem que a privada, apesar de roxa, funcionava.
Mas como na vida nada é tão fácil, só quase quatro anos após a mudança eu finalmente consegui começar a tão sonhada reforma.
Meu pai foi até o apê pra fazer um projetinho e acabou por perceber que o banheiro era grande o suficiente pra virar dois. Era bom demais. Eu ganharia, além de um banheiro decente, uma suíte.
Que chique!
E de quebra ainda me livraria do lavabo do fundo, que eu não citei aqui antes, mas era bem mequetréfe.
Começaram as obras. Tiraram o armário das baratas e, com ele, a pia beterraba. Que alegria! Dali pra frente, tudo seguiu exatamente como planejado.

Por aproximadamente dois dias.

Aí, quebraram o chão de taco pra abrir a porta da suíte e descobriram que ele estava podre. Não acharia ruim trocar o taco se a casa inteira não fosse de taco. Mas tá podre, né? Fazer o quê? Troca o taco.
Poxa, mas por que ele tá podre? Ah, é por causa da umidade que vem do chão? Ah, é essa umidade que mofa as paredes? Então arruma as paredes, né? Lixa até o tijolo, passa mil produtos anti-mofo, passa impermeabilizante, passa massa e pinta todas as paredes. Todas. E aí troca o gesso, né? Porque essa moldura rococó é do tempo do onça. E essas janelas com persiana de madeira que já foram lar de 5 gerações de cupins? Aproveita e já troca. Já que tá no inferno, abraça o Bolsonaro. Então, aproveita e já transforma o lavabo mequetréfe numa lavanderia. Aí, o que era lavanderia vira cozinha e a cozinha vira copa (Quem disse que não ia ter copa?). E troca os batentes... E as portas... E as soleiras.

Enfim, a reforma ia durar só o mês de dezembro. Mas aí, especificamente em dezembro de 2015, teve aquele lance de natal, ano novo... Não deu. Ia ser entregue antes do carnaval, mas nada funciona antes do carnaval nesse país, né? Esquece. Antes da Páscoa saía com certeza. Só que a Páscoa foi cedo esse ano... Em março, é mole? Bom, o Lu faz aniversário em abril, pelo menos a festinha dele ia ser no apê e... Não, não foi. A próxima previsão é eu poder comemorar o meu aniversário em casa, no fim de maio.
Enquanto isso, vou sonhando com a minha caminha, meu sofazinho, meu Game of Thronezinho, e com a grana que preciso ganhar pra, terminado tudo isso, poder finalmente partir pra decoração, que é a parte massa.

E com os open houses, claro.

Na pior das hipóteses, a gente faz um open house junto com o natal.

Do ano que vem.

Quem sabe?

Vivência

30 de março de 2014

Eu vivo pelos shows que ainda não vi. Pelos beijos que não dei. Pelo sexo que não fiz. Pelas músicas que ainda não cantei repetidas e desafinadas vezes no chuveiro.
Eu vivo pela alegria que ainda não senti e pelas conquistas que ainda não tive, pelas pessoas que ainda não conheci e pelos textos que ainda são papéis em branco.
Eu acordo pelas surpresas que o dia pode ter e vou à cozinha pelas comidas que ainda não sei preparar. Saio pra trabalhar pelo futuro que ainda não chegou e estudo pra ensinar os filhos que não tive.
Sorrio porque tenho tempo. Porque, apesar da correria, tenho só 25 anos e dezenas (ou centenas, quem sabe?) de outros anos pela frente.
E choro pelo tempo que não volta, pelo amor que não volta, pelo amigo que não volta, sabendo, sempre, que choraria mais se nada daquilo tivesse existido.
Acordo para subir no palco. Para construir personagens. Para comover o público - mesmo que fora do teatro.
E caminho, sempre, com a ciência de que faz pouco tempo que aprendi a caminhar.
Levanto a cabeça e ando, corro, danço e vivo. Vomito sentimentos e engulo verdades exatas.
Corro.
Eu corro em busca de algo que ainda não tive e que não é exato.
Eu corro atrás da face louca e estúpida da plenitude sabendo que nunca, jamais, a alcançarei.
E que é melhor assim.
Mas fecho os olhos e descanso sobre a confortável cama do que já vivi.
E a cada dia me sinto 10 anos mais velha diante de tudo que já enfrentei.
Repouso a cabeça no ombro do amor que já encontrei e, mesmo assim, meu coração não sossega como o meu cérebro.
Eu estou aqui. Amanhã, quem sabe?

Eu sou aqui.

Amanhã?

Quem sabe?

A textura dos sonhos

3 de abril de 2013

Trabalho em equipe.
Acho que se fosse definir minha vida, seria desse jeito.
Um bom e belo trabalho em equipe.
Digo isso porque, desde que nasci, me acostumei a não fazer nada sozinha.

Só ir ao banheiro. Ao banheiro eu vou sozinha.

Mas tirando isso, seja nos momentos mais banais, seja nos mais importantes, estou sempre muito bem acompanhada e consciente de que posso contar com quem está ao meu redor.
Desta vez, não foi diferente.
É com muito orgulho, prazer e um sorriso na cara daqueles que fazem cócegas nas orelhas, que apresento a vocês o resultado do trabalho de uma grande equipe...

O PERIPÉCIAS NAS ENTRELINHAS VIROU LIVRO!

Sim, é isso mesmo.

LIVRO. Desses de papel. Desses que lemos com atenção e que nos fazem rir e chorar. Desses que damos de presente, que têm cheirinho de novo e uma capa bonita e simples que já antecipa o que será encontrado em cada página.

O Peripécias saiu do mundo virtual. Agora é real. Concreto.

É um sonho que acaba de ganhar textura de livro.

E, como já disse antes, a materialização desse sonho só foi possível com a ajuda de pessoas extremamente importantes.
Capa, contracapa, diagramação, revisão e prefácio foram feitos pelos meus irmãos. De sangue ou não. Gente de quem me orgulho muito e que vou levar sempre comigo.
Obrigada, André, Heitor e Tyler.
Acho que nunca vou ser grata o suficiente a vocês.

Agora você, leitor, já pode conferir o resultado desse belo trabalho em equipe.
Lá, você poderá conferir a capa, as primeiras páginas, as características da obra e compra-la pela internet. Para agradar a todos, o livro está disponível também na versão e-book.

Os textos foram selecionados com muito cuidado e carinho. Eles traduzem o que vejo em mim e no mundo à minha volta.
São páginas repletas.
Assim, repletas "ponto final".
Do que elas são repletas, cabe ao leitor descobrir.
Acesse, confira, comente, deixe seu pitaco aqui ou na página da editora, afinal, esse é um momento feliz demais para não ser compartilhado com os amigos.
Ainda mais com amigos tão especiais.
A todos vocês, muito, muitíssimo obrigada!

Titica na cabeça

20 de março de 2013

- Você pegou pão de alho?
- Peguei.
- Picanha?
- Que picanha o quê?! Cada um deu dez reais pro churrasco. Se a gente comprar picanha não sobra dinheiro pra cerveja.
- Tá, quanto a gente pegou de cerveja?
- Noventa reais.
- Ah... Então sobram dez reais pra carne, é isso?
- É... Não, pera aí... Ah, é, é isso mesmo.
- Bom, o jeito vai ser comprar coração de frango.
- Eca! De jeito nenhum!
- Não gosta?
- Olha, eu gostava bastante quando era criança, mas quando descobri que o "coração de frango" era coração mesmo, não consegui mais comer.
- Como assim?
- Ué, pra mim era só uma carne com um nome engraçado.
- Cara, isso não faz o menor sentido!
- Claro que faz! Pensa comigo, "patinho", por exemplo, não é carne de pato, "lagarto" não é lagarto, "cupim" graças a Deus não é cupim mesmo, por que diabos o "coração" tinha que ser coração?
- ...
- Tive uma ideia melhor, vamos pegar asinha.
- ... Você sabe o que é a asinha, não sabe?
- Claro que sei, né?!
- O problema é o mesmo do coração!
- Não é não!
- Qual é a diferença? Vai me dizer que asa do frango não bate mais forte quando ele se apaixona?
- Bom... Asa ele tem duas, coração tem um só...
- E?
- E que se a gente tirar uma asa, ele não vai morrer, só vai deixar de voar. Não é óbvio?
- É... Claro... Óbvio.

Só no sapatinho

22 de janeiro de 2013

Leonel era um cara honesto, trabalhador, casado e respeitoso. Professor, sempre deu duro para sustentar a família que tanto amava.
Um de seus melhores amigos era Lúcio, que além de grande professor era também um grande galinha.
Cada dia da semana, um dos dois ia de carro e dava carona ao outro.
Era uma boa forma de economizar na gasolina.
Na sexta, foram com o carro do Leonel.
Ao chegar na escola, Lúcio foi informado de que seus alunos não iriam porque era sexta, era noite, o céu estava estrelado e a cerveja do bar da frente era gelada demais para ficarem dentro de uma sala de aula.
Lúcio até gostou. Tinha combinado de se encontrar com uma "delicinha" depois da aula. Não teve dúvida, pediu o carro de Leonel emprestado e foi curtir a noite.
Voltou no fim do expediente pra buscar o amigo e devolver o carro.
No dia seguinte, Leonel colocou a mulher, a sogra e as duas filhas pequenas no carro para curtir o sabadão em família. Todas entraram, Leo ajudou a colocar a filha menor na cadeirinha e se sentou no banco do motorista. Quando foi pegar o freio de mão para soltá-lo, pegou, para sua surpresa, um sapato de salto.
Gelou e tentou disfarçar o susto. Jogou o sapato para baixo do seu banco torcendo pra que a esposa não tivesse notado nada.
Como ele explicaria aquilo?
Algo lhe dizia que o velho "Eu não sei como isso veio parar aqui" não funcionaria. Ele precisava agir, precisava ser rápido e ninguém podia notar. Foi dirigindo em direção ao shopping enquanto esperava pela oportunidade perfeita.
Estava parado no semáforo quando a oportunidade surgiu. Um carro de papai noel atravessou a avenida da frente fazendo a maior farra. Ele esperou que todas olhassem para o outro lado e não teve dúvida, arremessou o sapato pela janela.
Ufa!
Assunto resolvido. Depois ele pegaria o Lúcio pelo pescoço, mas pelo menos do problema maior ele já havia se livrado.
Chegando ao shopping ele estacionou, pegou a filha e já estava se afastando do carro quando teve de segurar o riso, manter a compostura e voltar para ajudar a sogra, que, desesperada e confusa, procurava pelo pé direito de seu sapato novinho.

O Tablet

22 de novembro de 2012


Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco
Até o Angry Birds.
E todos os arquivos
que baixar, eu vou salvar.
A casa, a montanha,
Pode pintar, sem medo.
Tudo isso com um toque do dedo...

Sou eu que vou ser seu colega
Seus problemas ajudar a resolver
Usar a Wikipédia nas provas bimestrais,
Sem ninguém ver
Serei, de você, confidente discreto
É só pôr uma senha de acesso...

Sou eu que vou ser seu amigo
Vou mostrar matérias da Capricho
Se você quiser
Quando surgirem
Seus primeiros raios de mulher
A vida, sem dúvida terá
Reviravoltas fenomenais,
E você vai postar isso nas redes sociais...

O que está escrito em mim
Ficará sempre guardado
Se lhe dá prazer
É só salvar tudo na nuvem
Você vai ver...

Só peço, à você
O favor de não ser cruel
E não me esquecer
Como se eu fosse de papel

Palavrão

28 de agosto de 2012

Era o primeiro dia das férias escolares e levava os três filhos para a casa da irmã, onde poderiam brincar com as primas de idade próxima. Pensava nas compras que tinha que fazer naquele dia, na correria pra chegar a tempo no trabalho, na alegria de ter três filhos inteligentes que eram elogiados pelas professoras, no marido que voltaria do Rio de Janeiro naquele dia.
A filha mais velha estava aprendendo a ler, o filho do meio estava na fase dos "porquês" e o pequeno repetia tudo que ouvia.
Virando na rua da casa da irmã havia uma escola com paredes pichadas. A filha olhou para o muro e perguntou:
- Mãe, o que é buceta?
Brecou de susto.
- O que é isso, menina?
- Não sei, ué, tava escrito no muro.
- Buceta, buceta, buceta.
- Não repete essa palavra não, menino! Ah... Ah, bom... É... Então, isso é palavrão, é um nome feio para o que as meninas têm no meio das pernas.
- O joelho?
- Não, a... A periquita.
- Periquita, periquita, periquita!
- Deixa de ser bobo, menino, para com isso.
- Mãe, por que chamam a periquita de nome feio?
- Ah, então, filho, porque tem muita gente sem educação no mundo.
- Por que?
- Porque os pais não deram educação.
- Eu posso pichar periquita em vez de buceta?
- Você não pode pichar nada!
- Por que?
- Porque pichar já é falta de educação.
- Ah...
- Periquita, periquita, periquta.
- Para com isso, menino! Já falei que não é pra ficar falando isso!
- Mas por que você falou então?
- Eu não falei!
- Falou sim...
- Ah, chegamos! Oh, comportem-se! Eu volto pra buscar vocês à noite. Tchau, filha, tchau, filho. Tchau, filho, dá beijo na mamãe. Filha, o que você vai dizer pra tia?
- Que amanhã é para as meninas irem lá em casa.
- Isso. Filho, e você?
- Que você vai fazer bolo.
- Isso, e você, filho? Filho?
Mas o caçula já havia descido do carro e corrido para dentro da casa da tia gritando a plenos pulmões:
- Buceta, buceta, buceta.

Deus abençoe

26 de julho de 2012

    Então, menina, ele entrou no salão pra cortar o cabelo e começou a contar da chefe. Que a moça era muito inteligente, muito estudada, mas era sem-vergonha. Ficava dando em cima, mesmo sabendo que ele era casado. Aí perguntei o que ela fazia e ele disse que ela aparecia com um decotão, ficava encostando nele o tempo todo e dizendo que a mulher dele tinha muita sorte.
Esses papos de biscate.
Aí, você não acredita, ele disse que decidiu colocar o cargo a disposição do diretor da empresa, falou pro patrão que ou tiravam ela, ou tiravam ele.
O que o diretor fez? Tirou a mulher! Tem que ter muita coragem, né?
Ele disse que amava a esposa e só isso que importava. E tem que ter muito amor, claro. Só o amor vence, só o amor de verdade prevalece. Acho tão bonito isso. Deus abençoe. É tão raro, hoje em dia, encontrar um homem que respeita a esposa.
Ele é especial. A tal da chefe tem razão numa coisa, a mulher dele tem sorte mesmo. Muita sorte. Aliás, só isso, por que não sei mais o que ele viu naquela lá. Songa monga que só, magrela, nariguda.
Vai entender.
Tanta mulher mais interessante e solteira, né?
Eu aqui sem ninguém e aquela mané com um cara tão boa pinta. Mas espera só até ele voltar no salão. Se aquela boba chamou a atenção dele, imagina o que eu posso fazer, né?
É só jogar meu charme e o gato tá no papo.
Ah, olha, o trem tá chegando. Te ligo de novo mais tarde pra perguntar da Carminha e da Nina, não vi o capítulo de ontem porque tava no culto. Tá, tá bom, fica com Deus. Beijão.

Certidão

4 de julho de 2012

Declaro que no dia 28 de maio de 1988, no hospital de Birigui - SP, nasceu Marina Cury Reis, branca, sexo feminino, corinthiana. Filha de Gilmar dos Reis, chamado "Gilmar" em homenagem ao famoso goleiro que tantas bolas defendeu milagrosamente pelo Timão, e de Elizabeth de Fátima Cury Reis, brasileira, dentista, corinthiana, sofredora e maloqueira sim senhor.
A menina nasceu com 50 centímetros, 2,5kg de corpo e 3Kg de cabelo.
Nasceu chorando os bofes. Prova, segundo o avô paterno, Pedro dos Reis, de que seria boa sofredora.
Declaro que todos os exames básicos foram realizados ainda no hospital.
Pelos exames, notou-se que a menina apresenta o coração mais forte que o normal.
O que é normal, no caso dos corinthianos.
Toda a família esteve presente para recepcioná-la portando faixas de incentivo nas quais se lia "Jogai por Nós" e "Família CURYnthians" e entoando o Hino Nacional. Segundo um dos primos, Rodrigo Cury Machi, a ideia era que ela já saísse do hospital sabendo cantar a primeira frase do hino: "Salve o Corinthians".
Diante de protestos de torcedores de outros times, que declaravam achar o cúmulo tantas pessoas pressionarem uma recém-nascida para que ela se tornasse sofredora, os padrinhos, Givaldo dos Reis e Silmara Cury Trevisan declararam que não estavam forçando nada, que ela já havia nascido daquela forma, que qualquer sofrimento valeria a alegria da vitória e que não, palmeirenses e santistas nunca entenderiam.
Referiram-se apenas aos palmeirenses e santistas porque o São Paulo havia empatado com o time do Botafogo naquele mesmo dia e não havia torcedores presentes ou ausentes, visto que sãopaulinos só são sãopaulinos quando vencem.
Quando, em tom de chacota, o único tio palmeirense, João Carlos Trevisan, questionou sobre a Taça Libertadores, a menina começou a chorar. O choro foi interpretado como desespero, pelo torcedor do palestra, e como alegria e emoção, por todo o resto da família.
Declaro apenas, diante disso, que o coração dela é forte o suficiente para suportar tanto a derrota quanto a vitória.

O referido é verdade e dou fé, muita fé, fé sempre!

O oficial de registro civil.

Nosocomefobia

25 de maio de 2012


Tem gente que demora décadas para descobrir coisas simples.
“Sou gay”, “Tenho medo de avião”, e “A vovó Mafalda era homem”, por exemplo, são só algumas dessas coisas.
Ontem, eu descobri que tenho medo de hospital.
Eu sou homeopata.
Não, isso não é feitiçaria. Nem tecnologia. É só um método de tratamento mais natural.
As "bolinhas de açúcar", como os céticos carinhosamente chamam os nossos remédios, estimulam o corpo a reagir, o que pode demorar um pouco.
Não é placebo. É um método que funciona perfeitamente.
Tão perfeitamente que não, eu nunca tinha entrado em um hospital como paciente.
Mas ontem, quando acordei, pus o pé no chão e senti um arrepio que percorreu meu corpo umas vinte vezes, deu sinais ao meu cérebro de que tinha algo muito errado com o meu pé esquerdo e que esse "algo muito errado" deveria ser interpretado como "dor lancinante". Tudo isso em meio segundo.
Gritei, sentei na cama, respirei fundo. Removi a poeira do cérebro e tentei me lembrar do que poderia ter gerado aquilo.
Lembrei.
O pé não estava inchado, não estava roxo, não estava nada além de dolorido pra burro.
Demorei meia hora para chegar ao trabalho. Um caminho que normalmente faço em cinco minutos.
Passei a tarde tentando trabalhar e ouvindo histórias de gente que quebrou partes do corpo e só foi saber que tinha quebrado semanas depois, de ossos que se esmigalharam, mas não causaram qualquer inchaço, de gente que morreu dormindo porque tinha quebrado o pé e ficou sangrando por dentro e a pessoa não viu e blá blá blá.
Eu sei, não faz o menor sentido, mas entrei em pânico.
O namorado então sugeriu que eu tirasse um raio X. Ele, todo lindo, carinhoso e gripado, me levou até a emergência de um hospital.
Foi quando começou o pesadelo.
O primeiro enfermeiro, quando me viu mancando, perguntou se eu queria uma cadeira de rodas para ir até a sala de espera.
Meu primeiro impulso foi dizer que não, claro que não, eu não queria a cadeira, moço, pelamordedeus, eu pretendia sair dali andando e sem gesso, pronta pra bater uma bolinha!
Mas respondi simplesmente “Não, obrigada“ e continuei mancando.
Quando chegamos à sala de espera, estava lotada. Só havia uma cadeira vaga bem ao lado de um cesto com uma placa na qual amigavelmente se lia “Lixo Intoxicante”.
Eu não estava aguentando parar em pé, então me sentei meio de lado, o mais longe que eu poderia ficar do lixo sem encostar no velhinho do meu outro lado, que estava tossindo os bofes.
O cheiro da sala me incomodava.
As pessoas com cara de doente me incomodavam.
A sala lotada me incomodava.
E, pra piorar, tava passando Malhação na TV.
Comecei a sentir calor, parecia que as paredes estavam se fechando, o ar começou a faltar, tudo começou a ficar escuro e então...
Chamaram meu nome.
Manquei o mais rápido que pude pra fora de lá e entrei na sala do ortopedista.
Ele então perguntou o que tinha acontecido.
Eu expliquei que o meu peito do pé tinha batido no joelho de um cara na noite anterior.
Ele disse, "Ah, então você chutou o cara?"
Eu disse que podia explicar.
Ele disse que duvidava.
Então expliquei que durante o treino de muay thai, na noite anterior, havia dado um chute para acertar a coxa do adversário. Ele levantou a perna para defender o golpe. Errei o chute e acertei o joelho do menino, em vez da coxa. Na hora, com o corpo quente, só senti um pouco de dor. Quando o corpo esfriou, já viu, né?!
Ele me examinou rapidamente, falou que ia pedir um raio X e que era para eu me controlar e não chutar o joelho do rapaz da radiologia, que era meio mala.
Para fazer o bendito raio X andei por todo o hospital. Passei por grutas, abóbadas, elevadores, salas de espera, cafés, salões de festa. Cada ala do hospital parecia um portal para realidades paralelas. Cada realidade me fazia suar frio.
Com o exame em mãos, voltei para a sala da ortopedia.
Tentei voltar, na verdade. Acabei me perdendo e fui parar na ala da maternidade, no terceiro andar.
Quando finalmente encontrei a sala do médico, entrei, sentei e olhei apreensiva enquanto ele examinava o raio X contra a luz.
“Olha, apesar da dor, seu pé tá inteirinho. Pelo menos o osso. Pode ser que haja um sangramento interno no osso (!!), mas isso é o de menos. Coloque gelo. Vai inchar, mas em cinco dias você já deve estar bem. Se não estiver, volte. ”
“É isso?”
“É, é isso. Boa noite.”
Saí de lá na maior felicidade. Quanto mais me aproximava da saída, mais meus pulmões se enchiam de ar e meu coração batia com vida.
Chegando à sala de espera chamei o namorado e saímos eu e ele, mancando e tossindo, respectivamente, para não voltar tão cedo.

Taxi Driver

30 de março de 2012

- Largo Santa Cecília, por favor.
- Centro? A essa hora? Meio perigoso, hein, moça?!
- O senhor acha a madrugada tão perigosa assim?
- São Paulo é perigosa, simples assim.
- Sei.
- Mas a noite é pior.
- Sei.
- Você não vai me assaltar não, né, moça?
- Eu? Você acha que tenho cara de assaltante?
- Isso é só uma pergunta ou um desafio?
- ... Uma pergunta.
- Ah, tá. Ufa, que bom. Não ia me surpreender se fosse um assalto.
- Sério?
- Fui assaltado por uma velhinha e uma criança ontem. A menina ficava chamando a velhinha de vó. "Vó, ele disse isso". "Vó, ela disse aquilo". "Vó, vou pegar a carteira dele". "Vó, fala pra ele não reagir". E a vó mal se mexia, só olhava pra mim com cara de cansada, segurando uma arma maior do que a menina.
- Caraca!
- É, não me estranharia se você me assaltasse.
- Encosta aqui.
- Por que? Eu te levo no Largo.
- Não, aqui fica mais fácil pra mim.
- Tá legal, moça, eu paro, mas não me machuca.
- Que?
- É, por favor, leva o que quiser, só não me machuca.
- Moço, olha pra mim, pode baixar os braços, isso NÃO é um assalto.
- ... Não?
- Não.
- Ufa. Então deu R$15.
- Tá, peraí...

- ... O que você tanto procura nessa bolsa?
- Calma aí, meu, só quero a carteira.
- Tá falando comigo?
- Oi?
- Tá falando comigo?
- ... Desculpa, o que?
- Só tem eu aqui.
- Eu só disse que queria a carteira.
- Ah, eu sabia! Tá aqui a carteira, não me machuca, por favor.
- Mas...
- Você é minha segunda corrida da noite, eu tô liso!
- Mas moço...
- Pega a carteira, eu juro que não dou queixa, eu nem vi o seu rosto direito. Você é ruiva, né? Não! Tá vendo?! Nem vi seu rosto. Por favor, não atira.
- Mas eu não...
- Por favor, eu tenho dois filhos, minha esposa é doente, eu sustento a família e...
- EU NÃO QUERO A SUA CARTEIRA, SÓ QUERO IR PRA CASA.
- Ah... Jura? Ufa, ótimo. Desculpa! A gente fica meio pirado com tanta violência. Olha, moça, você me assustou e eu fiquei com um pouco de dor de cabeça, vamos fazer assim, você não me assalta, eu não cobro a corrida e fica tudo bem. Pode ser?
- Ah... Ok.
- Até mais, então, boa noite.
- Boa noite.
- Ah, moça!
- Sim?
- Cuidado! À noite, as ruas ficam cheias de malucos.

Bum-das Imobiliárias

16 de janeiro de 2012

Se um dia você estiver se sentindo sozinho, precisando conversar com alguém educado, atencioso e engraçado, esqueça a CVV, esqueça o namorado.
Ligue para um corretor.
É, isso mesmo, de imóveis.
Aliás, nem ligue, mande um e-mail dizendo que está interessado no apartamento X.
Ele vai te ligar de volta com milhares de propostas interessantes, oportunidades imperdíveis e comentários brilhantes.
Duvida?

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- Alô, gostaria de falar com a Senhora Marina.
- É ela.
- Ah, oi, senhora Marina. Posso te chamar de Marina?
- Pode, claro.
- Marina, vi que você se interessou pelo nosso apartamento na Mooca, é isso mesmo?
- Na verdade eu me interessei pelo preço dele, mas queria alguma coisa mais perto do centro.
- Ah, perto do centro é difícil, é tudo velho, tudo feio, tudo caro, só conheço apartamentos nojentos no centro. Onde você mora?
- No centro.
- Ah... Sempre há exceções, eu imagino, eu acho, eu espero, eu... Onde do centro você mora?
- Na Santa Cecília.
- Ah, também! É Santa Cecília, né?! Quase Higienópolis!
- E quase Arouche, quase República.
- Ah, bom, então, a gente só trabalha com Zona Leste. Mas posso garantir que é um bom negócio. Talvez não tão próximo do metrô, não tão próximo de Higienópolis, não tão grande quanto os apartamentos do centro. Ainda assim, um bom negócio.

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- Oi, tudo bem? Meu nome é Marina, queria perguntar a respeito da casa X, na Lapa.
- Ah, essa casa precisa de muita reforma, você está interessada em casas que precisam de reforma?
- Dependendo do preço eu estou sim.
- Bom, essa casa precisa de bastante reforma, tanto na parte externa quanto na fiação e no sistema hidráulico.
- É, eu reparei. Quanto custa?
- Quinhentos.
- Oi?
- Quinhentos.
- Quinhentos mil reais brasileiros?
- Isso.
- ...
- Alô.
- Moça, você me disse que uma casa que precisa de reforma completa custa MEIO MILHÃO DE REAIS?
- É, veja bem, são dois terrenos. A casa tem cem metros quadrados.
- São 5 mil reais por metro quadrado. Numa região de difícil acesso na Lapa.
- Sim, uma oportunidade e tanto não? Você pode derrubar a casa atual e fazer uma nova com o seu estilo.
- ...

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- Alô, Marina?
- Isso.
- Foi você quem demonstrou interesse no nosso apartamento de dois quartos com cozinha, sala pra dois ambientes, varanda, banheiro, vaga de garagem, lazer completo, ao lado do metrô Liberdade, reformado, no valor de 230 mil reais?
- Isso, eu mesma.
- Sinto muito, já foi vendido.

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- Alô, Marina?
- Isso.
- Clariberta Roberta da Imobiliária Mi Casa, Su Casa (Nome obviamente fictício. O da imobiliária.), tudo bem?
- Tudo.
- Vi que você se interessou pelo nosso apartamento de 300 mil na Ponte Rasa e...
- TREZENTOS MIL? NA PONTE RASA? Não, moça, acho que mandei um e-mail de interesse pro apartamento errado. Eu tô procurando alguma coisa mais barata e mais próxima da cidade de São Paulo.
- Bom, tudo bem, o que você está procurando? Talvez eu possa ajudar.
- Apartamento de dois quartos, com vaga, próximo a um metrô, de preferência próximo ao centro, que aceite financiamento e custe menos de 250 mil.
- Ah, só você, né?
- Como?
- Esquece.
- Ah... Como?
- Quer uma dica? Esquece, você não vai encontrar nada, sinto muito. Teve um BUM de preços no último ano, está tudo caro. Pode tirar o cavalinho da chuva.
- Bom, então obrigada.
- Talvez na Baixa Casa Verde. Mas lá alaga.
- Não, moça, agradeço a atenção.
- Nada, boa sorte.

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Sorte.


Ta aí. No fim das contas é disso mesmo que eu vou precisar, já que bom senso está longe de ser uma opção.

Bailes da Vida

2 de dezembro de 2011

Histeria. Choro. Sorriso besta. Falta de palavras. Garganta seca.
Quem nunca imaginou como se sentiria quando se encontrasse com seu ídolo?
Quem nunca sonhou que jantava com aquele ator?
Quem nunca quis trombar na rua com aquele cara que cantava músicas perfeitas para cada momento de sua vida?
Quem nunca?


Pois é, eu nunca.


Não que não tenha ídolos, tenho muitos, mas meus herois morreram de overdose, ou, em alguns casos, como no da citação, de aids. Ou estão velhos e provavelmente não frequentam os mesmos lugares que eu - o que impede um esbarrão acidental.
Por esses motivos, principalmente, nunca tive muito desses faniquitos de fãs.
E, bom, nunca ter pensado nisso se tornou um problema quando, por ironia do destino, acabei trombando com um dos meus ídolos na empresa onde trabalho.
Um ídolo velho, não um ídolo morto. Melhor deixar isso bem claro.
Pra quem não sabe, trabalho numa empresa de edição de audio, tradução e dublagem. Vira e mexe aparecem atores famosos, mas nenhum que inspire ataques de tietagem da minha parte - tirando o Dr. Abobrinha, claro, que tá sempre por aqui e... Ah, qual é?! É o Dr. Abobrinha, poxa vida! O maior vilão da minha infância! Merece admiração.
Enfim, no começo do ano a empresa pegou um trabalho grande de dublagem e o cliente exigiu que a voz do narrador fosse feita por ninguém mais, ninguém menos que Milton Nascimento.


Uau!


Quando soube disso, fiquei estranha.
Se misturar tudo o que citei na primeira linha do texto dá pra ter ideia do que senti quando mencionaram esse nome. Um frio engraçado na barriga. A mesma coisa que senti quando Paul McCartney cantou Eleanor Rigby no Engenhão. Não dá pra explicar.
A ordem do chefe foi clara: Ninguém fala com o Milton.
A não ser que ele falasse com alguém, mas como o cara é tímido isso obviamente não aconteceria.
Bom, falar não podia, mas ver podia, certo? Ninguém falou nada sobre ver.
Então me posicionei estrategicamente no corredor por onde ele ia passar, com um café, como se meu trabalho fosse ficar lá parada.
E, bom, ele passou. Passou em câmera lenta. A princípio pensei que fosse efeito da minha admiração, depois vi que ele andava devagar mesmo, com certa dificuldade.
A patroa passou por mim e riu, claro, porque ela, ao contrário do Milton, sabia que meu trabalho não era ficar tomando café ali no corredor com cara de paisagem. Então, sem mais nem menos, ela quebrou a regra do chefe.


- Ei, vem cá!
- Ah... Eu?
- É, vem cá. Milton, essa é a nossa tradutora mais jovem. Ela é sua fã.
(Milton não fala nada)
(Eu não falo nada)
(Patrão resolve falar) - Marina, Milton. Milton, Marina.
(Milton não fala nada)
(Eu não falo nada)
(Patrão resolve falar de novo) - Pode cumprimentar.
(Milton não fala nada)
(Eu quero falar que meus pais colocavam as músicas dele pra eu dormir, que pra mim ele era a melhor voz da música brasileira, que minha vontade era me jogar aos pés dele e agradecer por Bola de Meia, Bola de Gude, por Coração de Estudante e pela interpretação dele de Cálice. Mas só abro a boca e não falo nada)
(Patrão, desconcertado, fala de novo) - Marina, ele não morde.
(Então digo algo admirável, algo que qualquer fã pensaria em dizer ao seu ídolo)
- Não me morda, Milton.


Todos riem e eu vou embora. Só na escada paro pra pensar no que falei e tenho um ataque de riso que dura 20 minutos. Meu primeiro pensamento é: "Nunca vou contar isso pra ninguém". Mas, depois, pensando bem, é ridículo demais pra não ser compartilhado.


Se trombasse na rua com seu maior ídolo e só pudesse dizer uma coisa a ele, o que diria?
Imagino que algo diferente de "Não me morda".


Bom, pelo menos ele não me mordeu.

A - Vozes

22 de novembro de 2011


Vó Josephina

- Tia, por favor, faz bolinho de chuva, por favor, por favor, por favor.
- Mas, gente, tá o maior sol lá fora.
- Mas a gente quer, tia, faz bolinho de chuva por favor, por favor, faz, faz, faz.
- Pelo amor de Deus, esse bolinho é só fritura com açúcar e essas crianças não saem do meu pé. Não, gente. Sem chuva, sem bolinho.
- Por que?
- Porque... Bom... Porque... Por que vocês não vão brincar, hein?
- Crianças.
- Oi, vó?
- Por que vocês acham que o bolinho chama "bolinho de chuva"?
- Ah... Bom... Sei lá.
- Porque o ingrediente principal é a água da chuva. Não pode ser feito com qualquer água, só com a da chuva. Agora, pipoca não precisa de água nenhuma. Posso fazer pipoca pra vocês?
- Ah... Tá, pode ser então.



Vô David

- Vó! A senhora pode dar dinheiro pra gente comprar bala no Pedro?
- Não tenho dinheiro não.
- Ah, vó, por favor! Dá dinheiro.
- Já pediram pros pais de vocês?
- Já! Mandaram a gente falar com a senhora.
- Sério?
- ... Não, só disseram que não tinham dinheiro.
- Bom, eu também não tenho. Falaram com o seu avô?
- Vô! O senhor tem dinheiro pra gente comprar bala?
- Vocês vão parar de encher o saco da sua avó se eu der o dinheiro?
- Vamos!
- Então espera aí.
Ele entra num quartinho de tralhas e sai com uma caixa cheia de dinheiro. Os olhos das crianças brilham com algo que transparece "Esqueçam as balas, vamos comprar todos doces do bar do Pedro, aliás, vamos é comprar logo o bar inteiro".
As crianças saem pulando de alegria e voltam chateadas com uma bala cada uma, graciosamente dadas pelo Pedro do bar em troca da caixa de velhos cruzados do seu David.


Vô Pedro


- Filha, por que você tá rodando feito uma tonta?
- É legal, mãe. Tudo fica girando depois.
- Para com isso, você pode se machucar.
- Machucar nada! É engraçado.
- Marina, para agora!
- Não vou parar não.
- Faz o que quiser então.
- Marina.
- Oi, vô.
- É melhor ouvir a sua mãe. Girando assim você pode ficar tonta demais e acabar tropeçando no tapete, batendo a cabeça na estante e quebrando o pescoço ou algo parecido. Vai ser sangue pra todo lado, só vai dar trabalho pra gente.

Nunca mais brincou de girar.

Vó Leny


(Primeiro ano da faculdade)
- Vó, vou sair.
- Tá bom, leva a chave.
- ... Ah... Tá... Ah, vó, um amigo meu vem me buscar, a gente vai pra um bar, eu não devo beber muito porque amanhã tem aula, até umas 3h eu tô de volta, prometo. Já deixei tudo arrumado no quarto pra não acordar a senhora quando voltar. E meus pais estão sabendo que vou sair. Tô levando o celular pra senhora me ligar caso aconteça alguma coisa. Tudo bem?
- Hum... Tá bom, leva a chave.


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Agora, se você me conhece, pense bem... Isso explica muita coisa, não explica?

Terapia

10 de novembro de 2011

Oi... Meu nome é Marina e estou sem café há 2 meses.

Ooooooi, Mariiiiiiiina

Estar aqui já é uma grande conquista, sem dúvida.
Essa é a primeira vez que tenho coragem de procurar ajuda. Sempre achei que não precisava, que tomava café feito louca porque era gostoso e quentinho e tinha aquele aroma maravilhoso e... Vou parar por aqui porque tô ficando com água na boca.
Enfim, vocês vão se espantar com o que vou dizer, mas comecei a tomar café ainda criança.
Não, meus pais não deixavam. Diziam que não era coisa pra criança, que tirava o sono, mas tomavam com tanto gosto que não pude conter a curiosidade.
Provei uma vez.
Como dizem, às vezes uma vez já é o suficiente pra viciar.
Pra mim, foi.
E de fato perdi o sono. Não dormia a noite e ficava com sono de dia, o que me obrigava a tomar café pra não dormir. De tanto café pra não dormir na escola, não dormia durante a noite... Criei, aos 10 anos, um ciclo vicioso.
Até o ciclo era vicioso.
Minha mãe fez vista grossa a princípio, não queria acreditar, mas depois, quando comecei a oferecer trabalhos domésticos aos vizinhos em troca de uma xícara de café, resolveu interferir.
Sabendo que seria inútil me proibir de tomar café, já que ao lado da escola havia uma padaria com o melhor pingado da história, ela decidiu controlar meu vício.
Um café pela manhã. Um café às seis da tarde.
Só.
Ela mesma cortou o cafézinho que tomava depois do jantar pra me ajudar.
Durante alguns anos, funcionou. Até que entrei na faculdade.
Eu saí da casa dos meus pais e precisei passar noites em claro para entregar os trabalhos e estudar para as provas. Quando vi, estava tomando de quatro a cinco cafés por dia.
Com o tempo, o café parou de me tirar o sono, o que me permitia tomar a noite inteira e ainda ter um sono tranquilo.
Ao longo dos cinco anos da faculdade, convivi com uma gastrite que por muito pouco não se transformou em úlcera.
Fiz de tudo pra não morrer de dor de estômago: cortei refrigerante, gordura, cerveja... Cheguei até a tomar batata crua batida com água. É, eu sei, nojento. Fiz de tudo, menos cortar o café.
O café era sagrado.
Depois da faculdade então, tudo saiu dos eixos de vez.
Onde eu trabalho tem uma garrafa de café que fica cheinha o dia inteiro. A moça do café faz um novo a cada 3 horas.
É o diabo.
Às vezes tô fechada na minha sala, na maior inocência, e vem aquele cheiro delicioso de café sendo feito. 
Eu surto. Não consigo trabalhar enquanto não pego um copo e tomo de goladas.
Tem uma técnica pra tomar café fervendo de goladas, o tempo certo de espera, a força do sopro, a posição da boca. São técnicas que a gente aprende com o tempo.
São técnicas que quero esquecer.
Este ano fiquei doente. Uma doença que não quero revelar, basta vocês saberem que o remédio me impedia de ingerir cafeína.
Tentei tomar café sem cafeína, mas descobri que é pior que cerveja sem álcool.
Foram as três semanas mais difíceis da minha vida.
Passei noites em claro, chorei de desespero, dormi em momentos inoportunos, tive dor de cabeça, ataques de raiva, quase fui presa ao invadir um velório em busca de um copinho que fosse de café frio, cheguei a sonhar que era jogada numa xícara de café gigante e morria queimada. Acordei com febre.
Foi quando percebi que talvez aquilo não fosse normal.
Procurei ajuda na internet e descobri esse grupo.
Hoje, cortei relações com a moça do café. Carrego um vidrinho de acetona na bolsa pra cheirar toda vez que ela faz um café novo. Cada segundo é uma luta, cada gole de água é uma decepção.
Sei que tenho que viver um dia de cada vez. Cada dia um novo desafio.
Mas eu vou conseguir.
Obrigada.

Clap clap clap clap clap clap clap clap clap

Obrigado por compartilhar, Marina. Agora faremos uma pausa para um café. Voltamos em 20 minutos.

Desilusão

30 de junho de 2011

Entrei no metrô com mais sono do que o normal e com a certeza de que estaria lotado.
Estava mesmo.
Não entupido, lotado, o que significa que dava pra me mexer lá dentro sem incomodar muito quem estivesse mais próximo.
Fui me apertando pra longe da porta porque ia demorar pra descer (é isso que todo mundo deveria fazer, viu? Ficar parado na porta se você não vai descer na estação seguinte só atrapalha, amiguinho!) e encostei numa das barras laterais de segurança, de costas para as cadeiras.
Em meio a muitos empurrões, senti um toque diferente. Uma cutucada, na verdade
"Moça."
(MEU DEUS, QUE HOMEM LINDO!)"Oi?"
"Senta aqui no meu lugar"
(ME PEDE PRA SENTAR NO SEU COLO, SEU LINDO!) "Imagina, pode ficar."
"Não, por favor. Você parece cansada, pode se sentar."
(MELHORA ESSA CARA, MARINA, RÁPIDO, SORRIA) "Ah, brigada."
"Você tem um sorriso lindo."
(AI, MORRI!) "Ah...rs...brigada."
"Não precisa ficar vermelha."
(FALA ALGUMA COISA, SUA RETARDADA. TEM UM MORENO LINDO FALANDO COM VOCÊ! FALA COM ELE!) "É reflexo da blusa..." (REFLEXO DA BLUSA? QUE TIPO DE PIADINHA IDIOTA É ESSA? AH, DROGA! ELE SÓ DEU RISADA E COLOCOU O FONE DE OUVIDO DE NOVO. ATÉ O FONE DELE É LINDO. CARAMBA, ACHO QUE TÔ APAIXONADA! OLHA ISSO! OLHA ESSA BARBA MAL FEITA! OLHA ESSE BRAÇO, ESSE ABDÔMEN...A CAMISETA TÁ TÃO CERTINHA QUE MARCA CADA GOMINHO DA BARRIGA DELE. UM, DOIS, TRÊS GOMINHOS...E DESCENDO...)
Nisso o trem freia bruscamente, ele se desequilibra e o fone acaba se desconectando do celular, que berra pra todo mundo ouvir a música que, até então, só ele estava ouvindo.

Quem vai querer a minha piriquita, a minha piriquita, a minha piriquita?

Nem que fosse o cara mais lindo do mundo eu encararia aquela piriquita. Nem pensar!
Já terminei namoros de anos por menos.
Olhei assustada, me levantei, desci na estação seguinte e troquei de vagão.

Quadrado

16 de maio de 2011

Metrô. Barra Funda. 19h. 20 pessoas por metro quadrado.
Fila pra comprar o bilhete. Fila pra passar na catraca. Fila pra descer a escada rolante. Fila pra entrar no metrô.
Uma velhinha na minha frente, duas meninas atrás de mim. Todas espremidas.
Meu fone de ouvido esquecido em algum lugar de Itatiba.
As meninas atrás de mim começam a conversar.

- Menina, essa pílula tá me dando uma dor de cabeça!
- Troca.
- Pra quê? É tudo igual.
- É nada. To tomando uma pílula que não me deixa menstruar. O que é ótimo, porque além de eu não engravidar, evita cólica.
- Não menstrua?
- Não. Tomo pílula todo dia. Elas são diferentes. Umas coloridinhas, outras brancas, varia a quantidade de hormônio.
- Ah...sei lá...sou meio quadrada. Acho que se Deus fez a mulher pra menstruar, tem que menstruar.
- ...Sei...
- E outra, deve fazer mal ficar com o sangue todo acumulado.
- Oi?
- É, já pensou? Deve coagular lá dentro.
- Meu...nada a ver...deixa eu explicar, a pílula...
- Ai, que horror! Pensa. Pra onde vai o sangue coagulado? Deve ser duro tirar isso depois.

Nisso o trem entra na estação. A velhinha na minha frente dá um jeito de virar para trás e cutucar uma das meninas.

- Mocinha.
- Oi, senhora.
- Quadrada sou eu que quero que meus netos casem virgens. Você é burra mesmo.

O trem para, a porta se abre e a velhinha vai embora.

Metamorforse

14 de março de 2011

Morar sozinha não é fácil. Morar com três homens também não.
Ainda mais quando você passa a depender da própria comida, ou da deles, pra sobreviver.
Eu não cozinho mal. Minha Pasta Carbonara é de comer de joelhos (tá bom que pouca coisa não fica boa com bacon e creme de leite, né?).
Mas como os meninos da Rep Jaraguá não costumam comer em casa, fico com preguiça de cozinhar só pra mim.
Foi por causa da preguiça que descobri as sopas Vono.
Uma beleza, você adiciona água quente a um pozinho e, de repente, vê surgirem pedaços de carne, frango desfiado e croutons, milagrosamente crocantes e provavelmente cancerígenos. Tudo tem o mesmo gosto, é óbvio, de maneira que minha felicidade pela maravilhosa descoberta não durou mais que uma semana.
Minha mãe, famosa na  família Cury Reis pelo humilde título de Melhor Cozinheira do Mundo, vendo que a pobre filhinha estava emagrecendo e chegando ao cúmulo de agradecer pelo chuchu refogado do qual nunca havia gostado, decidiu que iria salvar a pátria, pelo menos naquela semana.
Ela fez quibe, carneiro recheado, frango com laranja, pão recheado... Com a desculpa de não deixar meu pai comer muito e ficar barrigudo, distribuiu essas gostosuras entre os filhos queridos, que moram longe da asa dela.
A minha parte da herança do final de semana resumia-se a 16 quibes grandes, um pão recheado inteiro, 5 sobrecoxas de frango com laranja e metade de um carneiro de 50Kg. Tá, talvez não tivesse tanto carneiro assim, mas foi difícil de carregar, de qualquer maneira.
Ela realmente estava me achando magra demais.
Coloquei tudo na geladeira e fui consumindo aos poucos, pedindo encarecidamente que os meninos - 3 homens de quase 30 anos, solteiros e famintos - me ajudassem com tudo aquilo.
Mas é impressionante como tinha comida!
Depois de 2 semanas, comecei a ficar com receio de comer os restos do carneiro e do frango. Em 3 semanas, matei os quibes e o pão recheado, e comecei a empurrar os Tupperware (vulgo "tapauér") com carne para o fundo da geladeira, inconscientemente.

Me esqueci deles.

Mentira, a cada dia eles me incomodavam mais, e eu forçava mais o meu inconsciente a empurrá-los para o fundo da geladeira.
Voltei a comprar sopas Vono, pra não pensar no que poderia ter se transformado aquela comida preciosa da mamãe.
A cada dia crescia o medo de jogar tudo no lixo. No mínimo, estaria fedendo muito. No máximo, uma subespécie formada pela união de cerca de 15 tipos de fungos diferentes me atacaria, assim que eu retirasse aquela tampa hermética azul.
Hoje, no entanto, quando abri a geladeira, tive a impressão de ver a tampa do frango se abrindo lentamente. Pensei comigo: "Estão ganhando vida, antes que aprendam a construir armas, vou me livrar deles".
Tive que me segurar muito pra não jogar a comida com Tuppeware e tudo na lixeira.
Só de pensar em lavar aquilo depois, meu Deus!
Mas se tem uma coisa que enfurece a Senhora Cury Reis é que os filhinhos sumam com os Tuppeware(s) dela. Ela fica doida. Então achei melhor enfrentar meus medos, colocar um prendedor no nariz e me direcionar até a lixeira do prédio.
Coloquei a cabeça pra fora da porta. Não queria ser acusada pelos vizinhos de ter criado um monstro na geladeira. Mesmo sendo a mais pura verdade.
Foram os 2 minutos mais demorados da minha vida.
Abri as cumbuquinhas, joguei o conteúdo na lixeira, tampei as cumbuquinhas rapidamente, entrei em casa rapidamente, tranquei a porta mais rapidamente ainda e lavei tudo.
Ouvia os fungos se contorcendo e empurrando a tampa da lixeira pra cima. Os do Carneiro peleando com os do frango, que, a essa altura, já haviam desenvolvido bazucas com os ossinhos e a cartilagem.
Foram momentos de tensão, meu coração batia forte e comecei a ficar preocupada com a possibilidade de algum vizinho ser pego de surpresa no corredor enquanto esperava pelo elevador, que demora uma vida pra chegar ao terceiro andar.

Quando terminei de lavar os Tuppeware minha respiração foi diminuindo. Apurei os ouvidos e não escutei nada, nem na casa, nem no corredor. Fui até a porta, olhei pelo olho mágico, a lixeira estava ali. Parada. Inocente. Não havia sangue no corredor.
Foi quando tomei consciência de que estava apreensiva, atrás de uma porta trancada, esperando que minha comida atacasse alguém.

Que cena ridícula.

Comecei a rir sozinha feito uma idiota, destranquei a porta e deitei no sofá.
Estava quase pegando no sono quando a vizinha deu um grito estridente no corredor.

Tranquei a porta e me escondi embaixo da cama.

Ao vivo

16 de novembro de 2010

- E quando eu disser "três" pode abrir os olhos, não abra antes.
(Música tensa ao fundo, tambores rufando em sintonia com o descompassado coração)
- Um, dois eeee... TRÊS! ABRA OS OLHOS
(Música alegre ao fundo, cheia de acordes maiores, sons de sininhos, close na cara de tacho do dono da casa)
- [...]
- E aí, o que achou?
- Eu...
- Não diga agora! Repare bem em cada detalhe, olhe com atenção! O que achou?
- Ah...eu...
- NÃO DIGA AGORA! Olhe para a nova textura da parede, para o novo piso, os novos moveis, a sua nova casa. E então, o que achou?
- [...]
- Está sem palavras?
- Não, só estava me perguntando se você ia me deixar falar.
- Ah, claro, sinta-se em casa. Hahaha. Pegou? Pegou? Sinta-se em casa na SUA casa! Hahaha! Olhe para aquela câmera e diga com toda a sinceridade, o que achou da reforma maravilhosa que fizemos?
- Eu... eu acho que vou vomitar.
- Que Maravilha!! Ele disse que...peraí, o que você disse?
- Eu disse que vou vomitar. Isso está horrível!
- Como assim, horrível?
- Olha a cor da parede!
- Não gostou da cor da parede?
- É verde-catarro! Quem diabos pintaria uma parede de verde-catarro e teria a cara de pau de me perguntar se gostei?
- Bom, mas olha o sofá que luxo!
- Ele é laranja.
- Sim, moderno, bonito...
- Se tem uma cor que detesto mais que verde-catarro é laranja. As duas cores combinadas então...e, meu Deus, o que é isso?
- É uma poltrona. Ela é superconfortável e...
- Florida.
- Sim, florida, sua noiva vai adorar.
- Terminei meu noivado ontem.
- Ah, sinto muito.
- Ela não gostava nem de ganhar flores, imagina se ia gostar de uma poltrona florida!
- Bem, ótima oportunidade para procurar uma nova noiva, não? Uma que goste de flores...
- (choro)
- Querido, por que está chorando?
- Minha casa, vocês destruiram a minha casa! Cadê a minha TV?
- Ela está ali, sobre aquele móvel lindíssi...
- Eu gosto da minha TV do lado da lareira! Gosto de olhar pra TV e ver o reflexo do fogo, não quero minha TV sobre aquela mesa horrorosa que vocês colocaram ali, quero MINHA TV do lado do MEU fogo! (choro desesperado)
- Calma, você não gostou das mudanças que fizemos?
- (Choro) Nãããooo...
- Se trocarmos a cor da parede você vai ficar feliz?
- (Soluços) ...nãããooo...
- Ok, existe alguma outra mudança que a gente possa fazer que vai te deixar feliz?
- Além de sumir com o verde-catarro?
- Isso.
- E com esse sofá laranja?
- Isso.
- Quero minha casa como era antes!!!
- Isso é impossível, meu querido, sinto muito.
- Sente muito? SENTE MUITO? Não consigo nem olhar pra essa coisa horrorosa que vocês fizeram, pelamordedeus, como alguém pode se formar em Design e destruir a casa de um cidadão honesto que não faz mal a uma mosca?
- É a universidade brasileira, o MEC aprovando tudo que é curso em qualquer faculdade, aliás, uma faculdade mais vagabunda do que a outra, sabe como é...Não que esse seja o caso do nosso designer, imagina, ele é ótimo, aqui só tivemos um...choque de gostos.
- Choque de gostos? Você tem a pachorra de dizer que o problema aqui é só de mau gosto? Eu vou pegar esse microfone e enfiar no seu...
- Tive uma ideia!
- Ideia?
- Sim! Infelizmente não temos como alterar a reforma da casa, mas nossa emissora tem um outro programa que será perfeito pra você que agora está solteiro. Você será trancafiado em uma casa cheia de câmeras com 10 mulheres e um anão. Ficarão lá dentro se conhecendo, fazendo amizade, curtindo festinhas, nadando, se divertindo e sendo vigiados por todo o país. O que acha? No final das contas pode dar casamento...com uma das 10 mulheres ou com o anão, as opções são variadas!
- Bom...
- Oportunidade única, rapaz, outros matariam para ter essa chance.
- Acho que pode ser uma boa ideia...
- Boa? É ótima! Você ficará famoso...talvez não por muito tempo, mas tempo o suficiente pra ganhar um dinheirinho posando para a G Magazine...
- Só tenho uma pergunta a fazer.
- Pois não?
- Essa casa, cheia de câmeras...
- Sim?
- Tem paredes verde-catarro?

Uma história de ficção

7 de outubro de 2010

Vou contar uma história totalmente fictícia e improvável que não sai da minha cabeça.
Um dia, a Moça vai se despedir do amigo que está indo embora e acaba conhecendo um outro cara que vai ocupar o quarto vago. Um cara que não fala português, que veio de algum país frio...vamos chamar esse país fictício de Alemanha.
Ela tenta ser legal, diz que ele pode chamar caso precise, numa boa, sem rodeios.
Ele chama...às duas horas daquela madrugada.
Ela atende e, pacientemente, aguenta as cantadas, as tentativas de abraço, mesmo se sentindo ridícula. Tenta colocá-lo pra fora milhares de vezes, milhares, até que, simplesmente, abre a porta e diz algo educado como: "Get out now, I really need to sleep".
No dia seguinte, a mesma coisa.
Ela, de saco cheio, avisa as meninas que moram com ela sobre o cara, porque, nessa situação hipotética, a Moça mora com mais duas meninas.
As duas também são cantadas pelo alemão, até que decidem parar de atender a porta. Ninguém atende a porta, ninguém sai na sacada, ninguém deixa as janelas abertas para que ele não perceba que tem gente em casa, saem para a rua torcendo para não encontrá-lo nas escadas.
Até que um dia, esse alemão manda uma mensagem para a Moça num site de relacionamentos que aqui, por falta de nome mais apropriado, chamarei de facebook.
Nessa mensagem, ele diz ouvir uma "conversa" íntima da Moça com a respectiva namorada, e oferece ajuda, caso as duas precisem.
Ele sabe da namorada porque, tentando evitar uma aproximação, a Moça disse a ele no primeiro encontro que era comprometida com uma outra moça, enfim. Tudo ficção.
Após ler essa mensagem, a Moça perde o controle, manda o cara a merda em 15 idiomas e acredita que, dali para frente, ele vai entender como as coisas funcionam.

Tudo segue na santa paz por um mês, até que, numa noite, uma das meninas que mora com a Moça abre a porta sem ver quem batia e dá de cara com o alemão:
"Oi...a Moça...estar?"
"Não, a Moça não está."
"Eu precisar lavar minha roupa, se lavar à mão, não secar until sábado. Possow lavar aqui?"
A amiga, embasbacada, diz que não, que a Moça não estar, que ela estar para sair e que ele estar para dar o fora.
Cinco minutos depois essa amiga sai de casa. A Moça, lembrando-se de algo importante, sai na janela e grita esse algo importante para a amiga, que a essas horas, nessa situação hipotética, já estava na garagem.
Ela responde com uma voz estranha.
O que a Moça não sabia é que, quando gritou, sua amiga estava de frente para o alemão, que, na garagem, esperava por ela.
"A Moça não estar, right? Mentirosa!"
Dali em diante a porta voltou a ficar trancada, as janelas voltaram a ficar fechadas e ninguém mais saiu na varanda. Surgiu um medo estranho de aquele cara, de repente, aparecer com uma arma dando tiros a torto e a direita...pessoas estranhas sempre fazem coisas estranhas
É óbvio que tudo isso que contei não aconteceu, que pessoas que vêm de países frios não são tão intrusivas, jamais, mas, imagina se tivesse acontecido...
Acho que ninguém acreditaria.