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Carta aberta à Biba

14 de setembro de 2013

Eu sei que você não fugiria.
Não só porque não tinha motivo, mas também porque você passou a ter medo da rua quando tomou um chute de um lixeiro. Lembra?
Você ainda era filhote, acho que foi em 1998. Como todos os filhotes, principalmente os de vira-lata, você queria explorar o mundo e não tinha portão, grade ou dona louca desesperada correndo atrás de você que impedisse isso. Infelizmente, um dia você correu atrás do pé de um idiota e ele te deu um chute. Acho que foi a primeira vez que xinguei alguém de verdade.
Você não fugiria.
E não importa se agora, com 15 anos, você estava desorientada. Mesmo desorientada, você se desorientava só dentro de casa, onde, mesmo surda, mesmo cegueta, você sabia que estava perto da gente.
Eu sei que você não fugiu.
E não importa se, sem querer, alguém fechou o portão de casa e você ficou pra fora. Você não iria longe. Eu sei disso pelos motivos que já citei.

Já ouvi gente dizer que o cachorro vira-lata, quando fica velhinho, tenta se afastar dos donos pra morrer.

Eu sei que você pode ter feito isso. Só não acho justo, sabe?

Porque você tava comigo sempre. Você foi a primeira a saber do meu primeiro beijo, da primeira paixãozinha, você tava lá quando eu me formei no SESI e achava que não ia mais ver os meus amigos de sempre. Você tava lá quando eu passei no vestibular. Você tava lá quando eu me formei. Você tava lá quando eu viajei pra fora e tava lá também quando eu voltei. Você tava lá quando eu conheci o homem da minha vida. Você sempre esteve lá.
Eu acho injusto agora, quando você mais precisa, eu não estar perto... Eu nem saber aonde você está.

Biba, depois de sobreviver a picada de aranha, chute de lixeiro, crises de epilepsia e queda da sacada, você ganhou o apelido de Highlander. E eu sempre brincava, dizendo que você não morreria nunca. Eu não sei se você entendeu isso e resolveu se afastar pra gente não te ver sofrendo.
No meu peito, minha linda, você nunca vai morrer. Nunca.
Eu torço muito pra que você volte. E volte logo, pra gente poder cuidar um pouquinho de você, que sempre cuidou tanto da gente.
De qualquer forma, eu queria dizer que agradeço muito por ter tido a sorte de te conhecer e de me apaixonar por você logo no primeiro dia.
Eu te amo. Eu vou te amar pra sempre.
Marina

Biba Cury Reis

Vereda da Salvação

13 de dezembro de 2012

Hoje acordei com os pés virados para a cabeceira da cama.
Sonambulismos à parte, não demorou muito pra que eu percebesse que não era só o corpo que estava de cabeça pra baixo.
Ontem, apresentei pela última vez a primeira peça da minha vida. Diante de uma plateia lotada e receptiva, compartilhamos nosso trabalho de meses, um texto pesado de Jorge Andrade, na esperança de que todos saíssem, no mínimo, tocados com o que tinham visto.

Lembro bem de que, no começo do semestre, todos se preocupavam em não transparecer que essa era a nossa primeira peça. Ontem, descobri que isso já não importava. Percebi que um grupo unido como o nosso não precisa se preocupar com esse tipo de coisa, que quem dá o seu melhor consegue coisas impressionantes.

Nós conseguimos coisas impressionantes.
Sempre gostei de teatro, mas faz pouco tempo que descobri que o que é mostrado à plateia é resultado de um trabalho monstruoso. Se você não é de teatro e sabia que as apresentações exigiam muito trabalho, pasme, elas exigem muito mais trabalho do que você imagina.

Lidamos com egos, problemas pessoais, opiniões contrárias. Escolhemos um texto denso e difícil de decorar, lidamos com o medo de entrar no palco e a vontade de mostrar tudo que aprendemos ao longo desses meses, isso sem pensar no trabalho que dá cuidar da parte técnica, do figurino, da iluminação, da trilha sonora e da montagem de palco.


Foi bom ver que, no fim das contas, todos esses meses de dedicação renderam um trabalho lindo e digno do texto escolhido. Talvez nem todos da plateia tenham gostado da peça em si, principalmente pelo tema que ela aborda, mas tenho certeza de que todos perceberam o quanto cada um se entregou ao papel que representava.


E que delícia isso!

E que delícia ouvir os aplausos!


Hoje, parece que meu coração saiu pra dar uma volta e deixou um vazio esquisito aqui dentro. É estranho não ir ao teatro, não entrar no camarim, não me besuntar inteira com pancake pra ficar com a cor da "Gabriéééla". É estranho demais saber que o momento tão sonhado de entrar no palco já veio e já passou, e que esse grupo tão unido e engraçado pode não ser o mesmo no próximo semestre. Mesmo que o grupo seja o mesmo, tudo será diferente.

Passou.

E isso não me deixa triste, só me deixa, sei lá, vazia.
Quando a plateia se levantou e bateu palma, na última sessão, senti como se tivesse percorrido um caminho longo e sinuoso, escuro em alguns momentos, mas que finalmente se iluminava e chegava ao fim. Era a nossa Vereda da Salvação. Um caminho alumiado de estrelas, onde os anjos passa voando, e é nele que a gente sobe para o paraíso.

Ontem, encontrei o paraíso ao lado de pessoas que amo muito e que, mesmo longe, vou continuar amando.
Obrigada a todos que, em maior ou menor proporção, ajudaram para que esse processo fosse bem sucedido.
E me desculpem o tom emotivo, mas é que, parafraseando Drummond, esse vazio depois de tanto trabalho e essa mescla de alegria com tristeza "deixam a gente comovido como o diabo".

Carta aberta à minha mãe

20 de agosto de 2012

Sempre tive dificuldades de falar sobre a minha mãe.
E não pelo fato de ela ser uma pessoa difícil, extremamente inteligente ou pegar as coisas no ar.
Também por isso.
O principal motivo é que eu não saberia falar dela sem ser injusta, em algum momento, comigo ou com ela.
Minha mãe é uma fofa. Sempre foi.
Passada aquela fase em que a criança precisa da mãe pra tudo, no entanto, eu me afastei.
Afinal, todo mundo dizia que não era bom ter a mãe sempre por perto, que mães não entendem nada da vida moderna, são velhas.
Nenhuma menina tinha interesses por meninos na época, só eu, e isso ela jamais entenderia. Ou pior, entenderia, falaria que não era amor verdadeiro e tiraria sarro. Só porque eu tinha 7 anos. Ser ridicularizada pela mãe era mais do que eu podia aguentar aos 7 anos.
Nessa toada de achar que ela jamais entenderia meus dilemas adolescentes, fui me afastando cada vez mais.
Ela, pelo contrário, continuava ali presente.
Com o passar dos anos criei uma barreira das grandes. Com 15 anos achava que ela nunca me entenderia, não aceitaria meu jeito, não falaria comigo sobre coisas que a envergonhassem e que a culpa disso era toda dela.
Na cabeça dela, acho, eu era uma menina fechada demais que não contava nada pra mãe.
Como toda adolescente guiada pela sabedoria ampla dos amigos, também adolescentes, eu me ferrei.
Me meti em situações difíceis, dolorosas, complicadas e ridículas. O que não teria acontecido com um direcionamento correto.
Mesmo assim, ela estava lá quando eu fazia bobagem e me machucava. Ela cuidava das feridas.
Quando enfim cresci um pouco e percebi que minha vida seria melhor com um bom direcionamento, decidi contar tudo a ela. Tudo mesmo.
Durante anos, parei de ter problemas. O pouco que eu batia de frente com ela não afetava em nada nossa relação e proximidade. Ela sabia, eu aprendia. Pronto.
Então eu fui pra faculdade, ampliei minha visão de mundo, conheci gente, lugares, gostos e adquiri sabedoria suficiente para saber que eu ainda tinha muito o que aprender.
Nessa fase longe de casa fiz coisas que minha mãe não gostaria que eu fizesse, mas que eu queria muito fazer. Nada ilegal ou que me fizesse mal, apenas errado na maneira dela de pensar.
Ainda assim, eu voltava pra casa e contava tudo, queria conversar... Foi quando comecei a notar que ela já não recebia as notícias como antes.
Começamos a bater mais de frente pelas mais diversas situações, até que abri o jogo sobre uma situação que ela não aceitava e que, pior, não tinha motivos ou argumentos para não aceitar.
Foi quando as coisas desmoronaram.
Passei a adolescência achando que minha mãe não sabia de nada, até constatar que ela sabia de tudo.
Então, anos depois, percebi que ela sabia sim de muita coisa, mas estava longe de ser a dona da verdade.
Eu sei que é meio injusto esperar isso de alguém, mas pra mim foi duro. Queria que ela enxergasse o que estava ali estampado na cara dela.
Brigamos.
Desde a nossa última briga mais feia, uns 2 anos atrás, tenho medido o que contar a ela.
Nossa relação voltou a ser tranquila, aparentemente não temos qualquer problema.
Mas o problema é esse, a aparência. Por dentro ainda me borbulhava a vontade de fazer com que ela aceitasse algo que pra mim era normal e que, pra ela, era extremamente anormal, errado e sujo.
Parei de machucar minha mãe com as minhas verdades pra que ela também parasse de me machucar com as dela.
Desde então, como disse no começo, tem sido difícil falar da pessoa que mais amo no mundo.
E, poxa, como sinto saudade dela.
Quando as pessoas perguntam como é a minha mãe, eu sempre digo que ela é fofa.
Mas ela é mais que isso, eu sempre soube que era, só não sabia definir.
Então pra não ser injusta com ela ou comigo, não definia.

Sabe o que eu mais gosto na vida? Nas horas em que a gente está perdido as respostas surgem dos lugares mais improváveis.
Ontem eu estava na fila do cinema com o meu irmão e o meu namorado.
Uma menininha de uns 4 anos puxou minha blusa e perguntou, "Onde está a minha mãe?"
Eu disse que não sabia e perguntei como era a mãe dela.
Ela então respondeu: "Minha mãe é grandona assim e me faz carinho quando eu me machuco".
Nisso, a mãe dela a viu e a chamou e eu fiquei lá, com cara de tacho.
A menina não disse que a mãe dela era perfeita, não descreveu a cor dos cabelos ou da pele, não apontou defeitos, não disse se era magra ou gorda. Ela descreveu o que a mãe dela tinha de mais marcante e lindo.
O tamanho e a atitude.
Foi quando eu vi que era a descrição perfeita da minha mãe, uma mulher grandona o suficiente para me proteger e me fazer carinho quando me machuco.
Imperfeita sim, mas linda em todos os sentidos.
E surgiu uma vontade imensa de dizer a ela que minha atitude violenta se deu ao fato de eu não acreditar que uma pessoa especial e inteligente como ela poderia achar errado algo tão natural. Quis dizer a ela que eu estava errada, não em achar natural, mas em ser violenta com quem sempre meu deu só carinho.
Quis dizer que eu posso não ser grande como ela, mas que meus braços também são confortáveis e que eu também posso fazer carinho quando ela se machucar.
Quis dizer, enfim, que exigir a perfeição foi algo estúpido, e que me esquecer de que ela era perfeita em tudo que podia foi mais estúpido ainda.
E que eu te amo.
Apesar de toda a complicação, é simples assim.



"Um amor puro... Não sabe a força que tem"

Lembra se puder

16 de abril de 2012

Tem coisas que a gente não quer ouvir.
Tem coisas que a gente não tem coragem de falar.
Lembrei, dia desses, daquela tarde quente.
Poucos dias antes, eu tinha recebido a notícia mais esperada do ano.
O resultado do vestibular.
Com a notícia alegre veio um fato doloroso e inevitável.
Eu ia me mudar. Pra longe.
Abria-se, diante de mim, uma estrada nova e luminosa. Dependia apenas de mim mesma andar por ela e ir a algum lugar que valesse a pena.
Eu ia. Você sabe que eu ia.
Por mais que eu te amasse, eu ia seguir em frente e lutar por... Na época eu nem sabia por que ia lutar, mas sabia que lutaria e daria meu melhor para chegar longe.
Eu sempre fui durona, você sabe disso.
Um dia antes de eu ir embora aconteceu, então, o que eu não queria que acontecesse.
A gente foi até aquele lugar de sempre.
Talvez por não saber como falar, você pediu que eu ouvisse aquela música e prestasse atenção na letra.
Ato de covardia, pensei eu, na hora.
Ato poético, penso eu, agora.
De qualquer forma, fiquei algum tempo sem conseguir lidar com a música que você usou pra terminar o que a gente tinha e que era tão bonito, tão importante pra mim.
Tem coisas que a gente não quer ouvir.
Mas nos obrigam.
Tem coisas que a gente não tem coragem de falar.
Mas, com o passar dos anos, consegue.
Queria dizer que sua música virou minha. Que, hoje, eu conheço o medo de ir embora e sinto na espinha o frio de gritar pro mundo e saber que o mundo não presta atenção.
Queria dizer, enfim, que o futuro agarrou, de fato, a minha mão.
E não soltou até agora.
Anos se passaram até que eu pudesse lembrar disso sem me sentir mal.
A lembrança agora, como eu mencionei antes, ganhou seu toque poético.
No fim das contas, você, usando a letra de Oswaldo Montenegro, tinha razão.
Embora não parecesse, a dor ia passar.
De algum jeito ia passar.


Estrada Nova - Oswaldo Montenegro

Carta ao leitor

25 de outubro de 2011

Eu sinto muito.

Não estou pedindo desculpas nem nada, apenas constatando um fato.
Eu sinto realmente muito. Muitas coisas.
Meu corpo é sentimento rodeado de uma carcaça fina de pele, ossos e órgãos.
A vida inteira, no entanto, só mostrei a carcaça.
Passei mal durante anos até perceber que os sentimentos eram grandes demais e a carcaça fina ao extremo, e que seria preciso liberar um pouco do que eu sentia para não explodir.
Foi quando criei este blog.
A ideia básica era que ele funcionasse como terapia, como exposição do que me machucava tanto ou me alegrava tanto que não cabia em mim.
Fiquei feliz quando percebi que funcionava.
Aos poucos, os textos foram ganhando a minha forma, a minha personalidade e o meu estilo.
E me surpreendi ao notar que as pessoas liam e gostavam do que eu escrevia.
Gostavam, na verdade, de mim.
Vai entender, tem louco pra tudo.
Este foi um ano de grandes mudanças. De cidade, estilo de vida, ideais. Sentimentos à flor da pele. Talvez por isso a produtividade do blog tenha sido maior.
Com a maior produtividade vieram os leitores assíduos que, pra minha surpresa, divulgavam os textos, comentavam, retuitavam e traziam mais leitores.
O Peripécias cresceu.
E o que era pra ser apenas um espaço de despejo de sentimentos, se tornou um dos meus maiores orgulhos.
Obrigada a você, leitor, por isso.
Agora, se você é um dos visitantes assíduos, deve ter percebido que a produtividade do blog caiu bastante nos últimos dois meses.
Isso não foi por acaso. 
Em um dos primeiros textos deste blog, confessei minha paixão platônica pelo teatro.
Platônica porque quando a gente não vai atrás, as coisas não acontecem.
Pois é, tomei vergonha na cara e fui atrás.
Entrei no Macu por indicação de uma prima.
Não sabia o que esperar, só sabia que sentia um frio na barriga quando pensava nisso.
Parei de pensar e fui.
Fui, simplesmente, como poucas vezes fui na vida. E me entreguei, simplesmente, como nunca havia me entregado. Conheci gente interessante e maluca e engraçada. Gente como eu, em muitos aspectos, e completamente diferente, em centenas de outros.
Mas essas diferenças não importaram na primeira aula, nem na segunda, nem na quinta e até hoje não importam. Porque mais que brincadeiras, micro-cenas, pulos de olhos fechados e gritos de merda, o teatro me proporcionou uma leveza que eu nunca havia sentido.
Se antes eu precisava escrever um texto pra pôr pra fora o que sentia, hoje, as três horas e meia de aula por semana me esvaziam até de dores que eu nem sabia que existiam e abrem meus olhos pra um mundo muito mais divertido e simples.
Se eu vou ser atriz profissional? Não sei.
Se eu quero? Não tenha a menor dúvida disso.
Minha vontade de escrever não passou. Nunca vai passar, aliás, porque é parte importante de mim.
Mas a necessidade de escrever foi amenizada.
E por isso, a você que sempre lê e cobra textos novos, eu digo que sinto muito. Agora com tom de desculpas. Porque tenho escrito menos do que gostaria.
Mas não brigue comigo.
Este post é pra mostrar que o Peripécias, assim como eu, está bem e vivo, obrigada.
Aliás, está melhor, mais leve e mais vivo do que nunca.