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Salto

4 de maio de 2017




Mãe, pai, marido, cachorro, papagaio, festa, roda, dança, canta, alegria, completude, vento, vento no rosto, vento no corpo inteiro, vento demais, falta de ar

                                          sufocando

                                                     

(INSPIRA)


Abro os olhos que ainda estão meio grudados de sono e levo longos 5 segundos para entender o que está acontecendo. O vento é tão forte que varre os sonhos da minha mente. Já não penso em nada, nem lembro do que sonhava segundos antes.

Estou
em
queda
                           L
i
                    v
r
                                                                     e.

Tento me virar para o céu e vejo o avião, que fica cada vez menor. Viro novamente o corpo para baixo e vejo os edifícios que construi, cada vez maiores.

É engraçado como esse momento de adrenalina extrema parece fazer o tempo parar.

Sinto cada centímetro do meu corpo pulsando.
Viva.
Eu estou viva.
O fato de poder me esborrachar no chão que se aproxima só deixa essa sensação ainda mais forte.
Viva.
Eu estou voando.
O barulho do vento só não é mais ensurdecedor que meu grito e que as batidas do meu coração.

A corda está na minha mão (a corda!)
    É só puxar a cordinha pro paraquedas se abrir e eu pousar em segurança (A CORDA!)

Só mais um segundo. Eu só quero mais um segundo desse descontrole. (ACORDA, CARALHO!)



Abro os olhos que ainda estão meio grudados de sono.


Viva.

Meu corpo pulsa, acordado pela primeira vez em muito tempo.

Ainda viva.

   

Reforma

24 de abril de 2016

Eu me lembro até hoje do dia em que fui conhecer o meu apartamento.
Procurava por ele havia meses. Tinha visto muquifos custando fortunas, apartamentos que comportavam três quartos, sala de estar, sala de jantar, escritório, hall, varanda gourmet, dois banheiros e uma areazinha externa em 50m², casas ideais localizadas no fiofó do Judas, enfim, foi um alívio entrar naquele apartamento e perceber que tinha encontrado o meu cantinho.
Tudo era lindo, pintadinho, bem arrumado... Menos o banheiro. O banheiro era um horror. Enorme, mofado, com um piso chapiscado de cinza, azulejos floridos nas paredes, o armário tinha um ninho de baratas aladas e, pra fechar com chave de ouro, a privada e a pia eram roxas. Sério, roxo-beterraba. 
Desde o primeiro dia, eu queria reformar aquele banheiro. Meu sofrimento em relação a ele era físico. Dava até dor de barriga. Ainda bem que a privada, apesar de roxa, funcionava.
Mas como na vida nada é tão fácil, só quase quatro anos após a mudança eu finalmente consegui começar a tão sonhada reforma.
Meu pai foi até o apê pra fazer um projetinho e acabou por perceber que o banheiro era grande o suficiente pra virar dois. Era bom demais. Eu ganharia, além de um banheiro decente, uma suíte.
Que chique!
E de quebra ainda me livraria do lavabo do fundo, que eu não citei aqui antes, mas era bem mequetréfe.
Começaram as obras. Tiraram o armário das baratas e, com ele, a pia beterraba. Que alegria! Dali pra frente, tudo seguiu exatamente como planejado.

Por aproximadamente dois dias.

Aí, quebraram o chão de taco pra abrir a porta da suíte e descobriram que ele estava podre. Não acharia ruim trocar o taco se a casa inteira não fosse de taco. Mas tá podre, né? Fazer o quê? Troca o taco.
Poxa, mas por que ele tá podre? Ah, é por causa da umidade que vem do chão? Ah, é essa umidade que mofa as paredes? Então arruma as paredes, né? Lixa até o tijolo, passa mil produtos anti-mofo, passa impermeabilizante, passa massa e pinta todas as paredes. Todas. E aí troca o gesso, né? Porque essa moldura rococó é do tempo do onça. E essas janelas com persiana de madeira que já foram lar de 5 gerações de cupins? Aproveita e já troca. Já que tá no inferno, abraça o Bolsonaro. Então, aproveita e já transforma o lavabo mequetréfe numa lavanderia. Aí, o que era lavanderia vira cozinha e a cozinha vira copa (Quem disse que não ia ter copa?). E troca os batentes... E as portas... E as soleiras.

Enfim, a reforma ia durar só o mês de dezembro. Mas aí, especificamente em dezembro de 2015, teve aquele lance de natal, ano novo... Não deu. Ia ser entregue antes do carnaval, mas nada funciona antes do carnaval nesse país, né? Esquece. Antes da Páscoa saía com certeza. Só que a Páscoa foi cedo esse ano... Em março, é mole? Bom, o Lu faz aniversário em abril, pelo menos a festinha dele ia ser no apê e... Não, não foi. A próxima previsão é eu poder comemorar o meu aniversário em casa, no fim de maio.
Enquanto isso, vou sonhando com a minha caminha, meu sofazinho, meu Game of Thronezinho, e com a grana que preciso ganhar pra, terminado tudo isso, poder finalmente partir pra decoração, que é a parte massa.

E com os open houses, claro.

Na pior das hipóteses, a gente faz um open house junto com o natal.

Do ano que vem.

Quem sabe?

Sinta-se

2 de fevereiro de 2016


Primeiro escreveu um texto imenso sem pontuação alguma sem espaços ou qualquer sinal de parada porque não havia nada parado ali dentro apenas uma vontade incontrolável de despejar ideias negativas ruins sem nexo mas cheias de sentimento desesperado e vontade de chorar GRITAR e mandar meio mundo à merda. Não. Ninguém pode se encontrar em meio a tanto caos.

Então apagou.

Tentou de novo. Respirou fundo e foi escrevendo o que sentia. Usou pontos finais. Leu tudo depois. Viu. Que. Os. Pontos. Não. Faziam. Sentido. Sentiu-se presa entre pontos finais e sua capacidade invejável de concluir as ideias. Limitar. Os limites são um problema. Os limites são o problema.

Então apagou.

Pegou um espelhinho... Olhou-se e não se viu... Mirou os olhos vazios por horas e sentiu a queimação no estômago. Queria parar. Arrancar a gastrite com a mão. Equilibrar as barras, vírgulas, uma caralhada de travessões que a comprimiam, pontos finais que a restringiam e vontades condenáveis de ser reticente quando tudo que a obrigavam a fazer era ser exata. Seca. Pontual. Queria berrar, essa é que era a verdade. Permitir-se o inadmissível, mergulhar na escuridão na esperança de que, ao não ver mais nada e nem ninguém, conseguisse finalmente se enxergar. Mas não berrou. Não mergulhou. Não se viu. Leu o que tinha escrito e teve medo de expor o que não devia.


Então apagou.

A textura dos sonhos

3 de abril de 2013

Trabalho em equipe.
Acho que se fosse definir minha vida, seria desse jeito.
Um bom e belo trabalho em equipe.
Digo isso porque, desde que nasci, me acostumei a não fazer nada sozinha.

Só ir ao banheiro. Ao banheiro eu vou sozinha.

Mas tirando isso, seja nos momentos mais banais, seja nos mais importantes, estou sempre muito bem acompanhada e consciente de que posso contar com quem está ao meu redor.
Desta vez, não foi diferente.
É com muito orgulho, prazer e um sorriso na cara daqueles que fazem cócegas nas orelhas, que apresento a vocês o resultado do trabalho de uma grande equipe...

O PERIPÉCIAS NAS ENTRELINHAS VIROU LIVRO!

Sim, é isso mesmo.

LIVRO. Desses de papel. Desses que lemos com atenção e que nos fazem rir e chorar. Desses que damos de presente, que têm cheirinho de novo e uma capa bonita e simples que já antecipa o que será encontrado em cada página.

O Peripécias saiu do mundo virtual. Agora é real. Concreto.

É um sonho que acaba de ganhar textura de livro.

E, como já disse antes, a materialização desse sonho só foi possível com a ajuda de pessoas extremamente importantes.
Capa, contracapa, diagramação, revisão e prefácio foram feitos pelos meus irmãos. De sangue ou não. Gente de quem me orgulho muito e que vou levar sempre comigo.
Obrigada, André, Heitor e Tyler.
Acho que nunca vou ser grata o suficiente a vocês.

Agora você, leitor, já pode conferir o resultado desse belo trabalho em equipe.
Lá, você poderá conferir a capa, as primeiras páginas, as características da obra e compra-la pela internet. Para agradar a todos, o livro está disponível também na versão e-book.

Os textos foram selecionados com muito cuidado e carinho. Eles traduzem o que vejo em mim e no mundo à minha volta.
São páginas repletas.
Assim, repletas "ponto final".
Do que elas são repletas, cabe ao leitor descobrir.
Acesse, confira, comente, deixe seu pitaco aqui ou na página da editora, afinal, esse é um momento feliz demais para não ser compartilhado com os amigos.
Ainda mais com amigos tão especiais.
A todos vocês, muito, muitíssimo obrigada!

Certidão

4 de julho de 2012

Declaro que no dia 28 de maio de 1988, no hospital de Birigui - SP, nasceu Marina Cury Reis, branca, sexo feminino, corinthiana. Filha de Gilmar dos Reis, chamado "Gilmar" em homenagem ao famoso goleiro que tantas bolas defendeu milagrosamente pelo Timão, e de Elizabeth de Fátima Cury Reis, brasileira, dentista, corinthiana, sofredora e maloqueira sim senhor.
A menina nasceu com 50 centímetros, 2,5kg de corpo e 3Kg de cabelo.
Nasceu chorando os bofes. Prova, segundo o avô paterno, Pedro dos Reis, de que seria boa sofredora.
Declaro que todos os exames básicos foram realizados ainda no hospital.
Pelos exames, notou-se que a menina apresenta o coração mais forte que o normal.
O que é normal, no caso dos corinthianos.
Toda a família esteve presente para recepcioná-la portando faixas de incentivo nas quais se lia "Jogai por Nós" e "Família CURYnthians" e entoando o Hino Nacional. Segundo um dos primos, Rodrigo Cury Machi, a ideia era que ela já saísse do hospital sabendo cantar a primeira frase do hino: "Salve o Corinthians".
Diante de protestos de torcedores de outros times, que declaravam achar o cúmulo tantas pessoas pressionarem uma recém-nascida para que ela se tornasse sofredora, os padrinhos, Givaldo dos Reis e Silmara Cury Trevisan declararam que não estavam forçando nada, que ela já havia nascido daquela forma, que qualquer sofrimento valeria a alegria da vitória e que não, palmeirenses e santistas nunca entenderiam.
Referiram-se apenas aos palmeirenses e santistas porque o São Paulo havia empatado com o time do Botafogo naquele mesmo dia e não havia torcedores presentes ou ausentes, visto que sãopaulinos só são sãopaulinos quando vencem.
Quando, em tom de chacota, o único tio palmeirense, João Carlos Trevisan, questionou sobre a Taça Libertadores, a menina começou a chorar. O choro foi interpretado como desespero, pelo torcedor do palestra, e como alegria e emoção, por todo o resto da família.
Declaro apenas, diante disso, que o coração dela é forte o suficiente para suportar tanto a derrota quanto a vitória.

O referido é verdade e dou fé, muita fé, fé sempre!

O oficial de registro civil.

Taxi Driver

30 de março de 2012

- Largo Santa Cecília, por favor.
- Centro? A essa hora? Meio perigoso, hein, moça?!
- O senhor acha a madrugada tão perigosa assim?
- São Paulo é perigosa, simples assim.
- Sei.
- Mas a noite é pior.
- Sei.
- Você não vai me assaltar não, né, moça?
- Eu? Você acha que tenho cara de assaltante?
- Isso é só uma pergunta ou um desafio?
- ... Uma pergunta.
- Ah, tá. Ufa, que bom. Não ia me surpreender se fosse um assalto.
- Sério?
- Fui assaltado por uma velhinha e uma criança ontem. A menina ficava chamando a velhinha de vó. "Vó, ele disse isso". "Vó, ela disse aquilo". "Vó, vou pegar a carteira dele". "Vó, fala pra ele não reagir". E a vó mal se mexia, só olhava pra mim com cara de cansada, segurando uma arma maior do que a menina.
- Caraca!
- É, não me estranharia se você me assaltasse.
- Encosta aqui.
- Por que? Eu te levo no Largo.
- Não, aqui fica mais fácil pra mim.
- Tá legal, moça, eu paro, mas não me machuca.
- Que?
- É, por favor, leva o que quiser, só não me machuca.
- Moço, olha pra mim, pode baixar os braços, isso NÃO é um assalto.
- ... Não?
- Não.
- Ufa. Então deu R$15.
- Tá, peraí...

- ... O que você tanto procura nessa bolsa?
- Calma aí, meu, só quero a carteira.
- Tá falando comigo?
- Oi?
- Tá falando comigo?
- ... Desculpa, o que?
- Só tem eu aqui.
- Eu só disse que queria a carteira.
- Ah, eu sabia! Tá aqui a carteira, não me machuca, por favor.
- Mas...
- Você é minha segunda corrida da noite, eu tô liso!
- Mas moço...
- Pega a carteira, eu juro que não dou queixa, eu nem vi o seu rosto direito. Você é ruiva, né? Não! Tá vendo?! Nem vi seu rosto. Por favor, não atira.
- Mas eu não...
- Por favor, eu tenho dois filhos, minha esposa é doente, eu sustento a família e...
- EU NÃO QUERO A SUA CARTEIRA, SÓ QUERO IR PRA CASA.
- Ah... Jura? Ufa, ótimo. Desculpa! A gente fica meio pirado com tanta violência. Olha, moça, você me assustou e eu fiquei com um pouco de dor de cabeça, vamos fazer assim, você não me assalta, eu não cobro a corrida e fica tudo bem. Pode ser?
- Ah... Ok.
- Até mais, então, boa noite.
- Boa noite.
- Ah, moça!
- Sim?
- Cuidado! À noite, as ruas ficam cheias de malucos.

Quem disse que cabelo não sente?

24 de fevereiro de 2012

Algumas coisas são difíceis de encontrar: trevos de quatro folhas, dinheiro esquecido no bolso da calça, entrevistador do IBOPE...
Já outras são tão difíceis, mas tão difíceis, que quando a gente encontra não abandona nunca.
Uma cabeleireira de confiança, por exemplo.
Dizem que o cabelo é a moldura do rosto. Na boa, todo mundo sabe que um quadro lindo pode ser estragado por uma moldura brega.
O lance é garantir pelo menos a moldura.
Até os 15 anos, eu ia ao cabeleireiro com a minha mãe.
Um dia, uma tia de uma amiga de uma vizinha da minha prima descobriu a Solange, uma moça que tinha um salãozinho em Itatiba.
Minha mãe decidiu conferir e descobriu que a moça era das boas. Durante um ano ela foi a nossa cabeleireira. Eu nunca ia ao salão sozinha e nem mudava o corte "mãe d'água" (como alguns amigos carinhosamente apelidaram quando viram minha foto do RG).
Um dia, no entanto, minha mãe tinha um compromisso e me deixou sozinha no salão, entregue às mãos e às tesouras da Solange.
Não tinha mais nenhuma cliente além de mim. Estávamos eu, ela, a Ju (assistente), e a manicure.
Sentei na cadeira e disse pra tirar 2 dedinhos. Ela pegou as tesouras, colocou umas presilhas no meu cabelo e começou a chorar.
É, não errei na hora de digitar não, ela não começou a cortar, começou a chorar.
Bom, a cortar também, o que me fez entrar em desespero junto com ela.
Ela chorava e cortava dois dedinhos, falava dos problemas pra assistente e repicava meu cabelo, soluçava e cortava mais cinco dedinhos. 
Eu me segurei firme na cadeira na esperança de que aquilo impedisse a ação da tesoura, mas não impediu.
Ela terminou, fez uma escova e foi ao banheiro pra lavar o rosto.
Eu me vi lá, parada, olhando boquiaberta pro espelho.
Meu cabelo estava lindo de morrer.
Depois disso ela me ganhou, é claro.
Lembro que uma vez eu cheguei ao salão com o cabelo preso e disse a ela que tinha vontade cortar curto. Ela perguntou, "Tem certeza?", eu disse que não sabia bem, sabe, talvez, mas que... Então ela pegou a tesoura, cortou fora o rabo-de-cavalo e disse, "Pronto, agora você tem certeza".
Doida?
Sim, doida de pedra!
Mas, pra variar, ela fez um corte incrível.
Com o tempo, a Solange passou a ser minha confidente, a amiga que dava pitaco nos meus namoros, que me receitava shampoos, cremes, roupas, religiões e remédios tarja preta, e o Solange's Fashion Hair virou um lugar pra relaxar e passar engraçadas tardes de sábado.
Faço visitas a ela a cada 3 meses pra dar uma retocada na juba e explico o que quero fazer de uma maneira que só ela, doida que é, consegue entender.
- Como você vai querer?
- Então... Eu gosto desse corte. Quero manter o corte, mas quero que as pessoas percebam que eu cortei o cabelo. Não é pra ficar curto, tá bonito assim, compridão. Dá uma repicada sem repicar muito, entendeu?
- Hum, você quer ficar diferente sem que eu mude o corte, diminua o comprimento ou repique mais, é isso?
- É.
- Deixa comigo!

E não é que ela consegue?

Bum-das Imobiliárias

16 de janeiro de 2012

Se um dia você estiver se sentindo sozinho, precisando conversar com alguém educado, atencioso e engraçado, esqueça a CVV, esqueça o namorado.
Ligue para um corretor.
É, isso mesmo, de imóveis.
Aliás, nem ligue, mande um e-mail dizendo que está interessado no apartamento X.
Ele vai te ligar de volta com milhares de propostas interessantes, oportunidades imperdíveis e comentários brilhantes.
Duvida?

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- Alô, gostaria de falar com a Senhora Marina.
- É ela.
- Ah, oi, senhora Marina. Posso te chamar de Marina?
- Pode, claro.
- Marina, vi que você se interessou pelo nosso apartamento na Mooca, é isso mesmo?
- Na verdade eu me interessei pelo preço dele, mas queria alguma coisa mais perto do centro.
- Ah, perto do centro é difícil, é tudo velho, tudo feio, tudo caro, só conheço apartamentos nojentos no centro. Onde você mora?
- No centro.
- Ah... Sempre há exceções, eu imagino, eu acho, eu espero, eu... Onde do centro você mora?
- Na Santa Cecília.
- Ah, também! É Santa Cecília, né?! Quase Higienópolis!
- E quase Arouche, quase República.
- Ah, bom, então, a gente só trabalha com Zona Leste. Mas posso garantir que é um bom negócio. Talvez não tão próximo do metrô, não tão próximo de Higienópolis, não tão grande quanto os apartamentos do centro. Ainda assim, um bom negócio.

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- Oi, tudo bem? Meu nome é Marina, queria perguntar a respeito da casa X, na Lapa.
- Ah, essa casa precisa de muita reforma, você está interessada em casas que precisam de reforma?
- Dependendo do preço eu estou sim.
- Bom, essa casa precisa de bastante reforma, tanto na parte externa quanto na fiação e no sistema hidráulico.
- É, eu reparei. Quanto custa?
- Quinhentos.
- Oi?
- Quinhentos.
- Quinhentos mil reais brasileiros?
- Isso.
- ...
- Alô.
- Moça, você me disse que uma casa que precisa de reforma completa custa MEIO MILHÃO DE REAIS?
- É, veja bem, são dois terrenos. A casa tem cem metros quadrados.
- São 5 mil reais por metro quadrado. Numa região de difícil acesso na Lapa.
- Sim, uma oportunidade e tanto não? Você pode derrubar a casa atual e fazer uma nova com o seu estilo.
- ...

---

- Alô, Marina?
- Isso.
- Foi você quem demonstrou interesse no nosso apartamento de dois quartos com cozinha, sala pra dois ambientes, varanda, banheiro, vaga de garagem, lazer completo, ao lado do metrô Liberdade, reformado, no valor de 230 mil reais?
- Isso, eu mesma.
- Sinto muito, já foi vendido.

---


- Alô, Marina?
- Isso.
- Clariberta Roberta da Imobiliária Mi Casa, Su Casa (Nome obviamente fictício. O da imobiliária.), tudo bem?
- Tudo.
- Vi que você se interessou pelo nosso apartamento de 300 mil na Ponte Rasa e...
- TREZENTOS MIL? NA PONTE RASA? Não, moça, acho que mandei um e-mail de interesse pro apartamento errado. Eu tô procurando alguma coisa mais barata e mais próxima da cidade de São Paulo.
- Bom, tudo bem, o que você está procurando? Talvez eu possa ajudar.
- Apartamento de dois quartos, com vaga, próximo a um metrô, de preferência próximo ao centro, que aceite financiamento e custe menos de 250 mil.
- Ah, só você, né?
- Como?
- Esquece.
- Ah... Como?
- Quer uma dica? Esquece, você não vai encontrar nada, sinto muito. Teve um BUM de preços no último ano, está tudo caro. Pode tirar o cavalinho da chuva.
- Bom, então obrigada.
- Talvez na Baixa Casa Verde. Mas lá alaga.
- Não, moça, agradeço a atenção.
- Nada, boa sorte.

---


Sorte.


Ta aí. No fim das contas é disso mesmo que eu vou precisar, já que bom senso está longe de ser uma opção.

Terapia

10 de novembro de 2011

Oi... Meu nome é Marina e estou sem café há 2 meses.

Ooooooi, Mariiiiiiiina

Estar aqui já é uma grande conquista, sem dúvida.
Essa é a primeira vez que tenho coragem de procurar ajuda. Sempre achei que não precisava, que tomava café feito louca porque era gostoso e quentinho e tinha aquele aroma maravilhoso e... Vou parar por aqui porque tô ficando com água na boca.
Enfim, vocês vão se espantar com o que vou dizer, mas comecei a tomar café ainda criança.
Não, meus pais não deixavam. Diziam que não era coisa pra criança, que tirava o sono, mas tomavam com tanto gosto que não pude conter a curiosidade.
Provei uma vez.
Como dizem, às vezes uma vez já é o suficiente pra viciar.
Pra mim, foi.
E de fato perdi o sono. Não dormia a noite e ficava com sono de dia, o que me obrigava a tomar café pra não dormir. De tanto café pra não dormir na escola, não dormia durante a noite... Criei, aos 10 anos, um ciclo vicioso.
Até o ciclo era vicioso.
Minha mãe fez vista grossa a princípio, não queria acreditar, mas depois, quando comecei a oferecer trabalhos domésticos aos vizinhos em troca de uma xícara de café, resolveu interferir.
Sabendo que seria inútil me proibir de tomar café, já que ao lado da escola havia uma padaria com o melhor pingado da história, ela decidiu controlar meu vício.
Um café pela manhã. Um café às seis da tarde.
Só.
Ela mesma cortou o cafézinho que tomava depois do jantar pra me ajudar.
Durante alguns anos, funcionou. Até que entrei na faculdade.
Eu saí da casa dos meus pais e precisei passar noites em claro para entregar os trabalhos e estudar para as provas. Quando vi, estava tomando de quatro a cinco cafés por dia.
Com o tempo, o café parou de me tirar o sono, o que me permitia tomar a noite inteira e ainda ter um sono tranquilo.
Ao longo dos cinco anos da faculdade, convivi com uma gastrite que por muito pouco não se transformou em úlcera.
Fiz de tudo pra não morrer de dor de estômago: cortei refrigerante, gordura, cerveja... Cheguei até a tomar batata crua batida com água. É, eu sei, nojento. Fiz de tudo, menos cortar o café.
O café era sagrado.
Depois da faculdade então, tudo saiu dos eixos de vez.
Onde eu trabalho tem uma garrafa de café que fica cheinha o dia inteiro. A moça do café faz um novo a cada 3 horas.
É o diabo.
Às vezes tô fechada na minha sala, na maior inocência, e vem aquele cheiro delicioso de café sendo feito. 
Eu surto. Não consigo trabalhar enquanto não pego um copo e tomo de goladas.
Tem uma técnica pra tomar café fervendo de goladas, o tempo certo de espera, a força do sopro, a posição da boca. São técnicas que a gente aprende com o tempo.
São técnicas que quero esquecer.
Este ano fiquei doente. Uma doença que não quero revelar, basta vocês saberem que o remédio me impedia de ingerir cafeína.
Tentei tomar café sem cafeína, mas descobri que é pior que cerveja sem álcool.
Foram as três semanas mais difíceis da minha vida.
Passei noites em claro, chorei de desespero, dormi em momentos inoportunos, tive dor de cabeça, ataques de raiva, quase fui presa ao invadir um velório em busca de um copinho que fosse de café frio, cheguei a sonhar que era jogada numa xícara de café gigante e morria queimada. Acordei com febre.
Foi quando percebi que talvez aquilo não fosse normal.
Procurei ajuda na internet e descobri esse grupo.
Hoje, cortei relações com a moça do café. Carrego um vidrinho de acetona na bolsa pra cheirar toda vez que ela faz um café novo. Cada segundo é uma luta, cada gole de água é uma decepção.
Sei que tenho que viver um dia de cada vez. Cada dia um novo desafio.
Mas eu vou conseguir.
Obrigada.

Clap clap clap clap clap clap clap clap clap

Obrigado por compartilhar, Marina. Agora faremos uma pausa para um café. Voltamos em 20 minutos.

Monólogo

19 de abril de 2011

- Bom dia.
- Onde eu estou?
- Mal educado, já começa com as perguntas e nem me cumprimenta.
- Quem é você?
- Alguém que te deseja um bom dia.
- Ei...eu te conheço, não?
- Talvez.
- Conheço, é claro que conheço. Não sei onde, mas sei que já te vi!
- Talvez. Eu te conheço, mas não esperava te encontrar com essa cara.
- Que cara?
- Tem um espelho atrás de você, dá uma olhada.
- Ué, é o meu rosto, normal. Qual o problema?
- Você está velho.
- Estou?
- Está. Aliás, estava.
- Como assim?
- 40 anos nas costas. Da primeira vez que esteve aqui, tinha só 17. Naquela época você era mais educado, pelo menos.
- Bom dia, droga!
- Droga não é o meu nome.
- E qual é o seu nome?
- Qual é o seu?
- O meu? O meu é...é...não me lembro...
- Se não sabe nem o seu nome, porque quer saber o meu?
- Sei lá, estou com o meu nome na ponta da língua, mas não sai.
- Não importa o seu nome. Ele já não representa você.
- E o que me representa?
- Talvez o que te trouxe até aqui.
- E onde exatamente é aqui?
- Aqui é o lugar onde nenhum vivo chega e de onde poucos saem vivos.
- Eu morri?
- Morreu.
- Como aconteceu?
- Como da outra vez.
- Ninguém morre mais de uma vez.
- Não?
- Não sei, morre?
- Parece que sim.
- Como foi? Não me lembro.
- Ninguém te salvou.
- Me salvou do que?
- Quando viu que ia morrer, você esticou a mão, berrou o quanto deu, mas era tarde demais.
- Como foi que eu morri?
- Afogado.
- Eu nunca morreria afogado, sei nadar muito bem.
- Você não morreu afogado na água, morreu afogado em você mesmo, no amor que sentia. 
- Do que você tá falando?
- Não tem nada de errado em entrar de cabeça nas coisas, contanto que saiba sair depois. E achei que tivesse aprendido. Mas aí aparece aqui de novo? Para com isso!
- Você é duro demais, sabia? Tem essa carinha de anjo, mas é duro demais.
- Você acha que minha carinha é de anjo, mas não tá me vendo. Tá olhando pra mim, como olhou pra você no espelho. Olhou, mas não viu.
- Claro que vi, estou vendo.
- Está vendo e não sabe quem eu sou? Não sabe meu nome e não sabe o seu?
- Seu nome também está na ponta da minha língua, simplesmente não sai.
- Eu sou você, babaca.
- Se você é eu, então eu sou quem?
- Eu.
- Não to entendendo mais nada.
- Eu sou você, a parte de você que ficou aqui quando morreu da primeira vez. Não esperava mesmo que fosse voltar a viver inteiramente, não é? Eu sou a parte que te fez falta a vida inteira. O moleque com cara de anjo que você matou.
- Mas não queria ter matado.
- Não importa.
- Não tenho como recuperar isso? Salvar você?
- Salvar VOCÊ, você quer dizer.
- Não sei, estou confuso.
- Não, não tem.
- Eu não posso voltar? 
- Voltar pra que? Se voltasse deixaria uma parte grande demais aqui. Viveria do que?
- De amor.
- Mude suas respostas, você já disse isso da outra vez.
- E menti pra você?
- A ideia era que você vivesse de amor, não que morresse disso, criatura.
- Acho que de amor se vive e morre todos os dias.
- Nossa, que lindo! Você poderia escrever um livro de auto-ajuda, se estivesse vivo.
- Qual parte, exatamente, eu deixaria aqui?
- A parte mais legal você já deixou da outra vez.
- Metido.
- Falando sério, se você chegou até esse ponto de novo, acha mesmo que vale a pena voltar?
- Não queria morrer.
- Você corre um risco sério de voltar pra lá com pouco mais do que um corpo, vazio de sentimentos. Tem certeza de que quer voltar?
- Vazio?
- Vazio.
- Vazio como?
- Como uma casa muito engraçada, que não tem teto, não tem nada. E ninguém vai poder entrar nela não, porque a casa não terá chão.
- Já ouvi isso em algum lugar.
- É Shakespeare.
- Oh.
- E aí? Não é porque vou passar a eternidade aqui que tenho o dia todo. Quer voltar ou não quer?
- Depende de eu querer?
- Digamos que a sua vontade tem bastante peso nessa decisão.
- Quero.
- Correndo o risco de morrer de amor de novo?
- Morrer mais uma, duas vezes, que diferença faz?
- Cada vez que isso acontece você perde uma parte de você, pensei que tivesse entendido.
- Eu entendi, mas não acho que a gente saia igual de qualquer situação importante da vida.
- Não é questão de "sair igual". É questão de perder muito, a ponto de não ser mais ninguém.
- Mesmo assim, quero voltar.
- Por que?
- Porque a tal da casa engraçada do Shakespeare, apesar de não ter nada, ainda pode ser chamada de casa.
- Oi?
- É uma metáfora.
- ...Oi?
- Moleque burro, ainda bem que te deixei aqui.
- Não começa, hein!
- Eu quero voltar!
- Por que?
- Porque a dor vai passar.
- Como você sabe?
- Eu não sei. Só espero.
- Voltar não vai ser fácil.
- Acho que se fosse eu não saberia como agir. É sempre tão difícil. Já estou acostumado.
- Então vai, Carlos, ser gaúcho na vida.
- Não lembro meu nome, mas não é Carlos. E eu sou paulista.
- É uma citação, poxa vida. Vai ser inculto lá longe. Aproveita esse vazio que vai sentir e lê um pouco.
- A gente se vê.
- Mais cedo ou mais tarde.
- Espero que mais tarde.
- Ei...espera, só uma última coisa.
- Diga.
- Obrigado por não me deixar te convencer de que viver não vale a pena.
- Mas pensei que...
- Não pense. Nunca foi o seu forte. Ame, cara. Ame intensamente. Não seja idiota, mas ame. Se suas experiências e sua dor não te derrubaram, se eu não te derrubei, sei que nada vai derrubar. Boa sorte.
- Valeu.

Sentindo-se mais velho, perdido e extremamente sozinho, abriu os olhos, enxugou as lágrimas, respirou fundo e recomeçou a juntar os cacos.
Só pra se afogar mais uma vez.

Baseado em fatos reais

22 de março de 2011

Depois de enrolar por um tempo, senti o gosto.
Lembrava pizza, de certa forma, mas era bom.
Meus lábios se contraíram e em seguida relaxaram, assim como todo o meu corpo.
Prendi a respiração - reação involuntária - e aos poucos fui soltando o ar que segundos antes parecia ter desaparecido de dentro de mim.
Me senti anestesiada, meus braços pesaram, minha cabeça girava e nada mais importava nem fazia sentido.
As pessoas ainda falavam em volta, mas nada prendia minha atenção.
De olhos fechados, ouvia o barulho do mundo, mas nenhum era mais alto que o das batidas do meu coração.
De certo minha pressão caiu, porque foi difícil me manter em pé. Tudo rodava, mas nada existia. Então o que rodava, na verdade, era o nada.
Pensamentos malucos surgiram no meu cérebro e me sentia completa com eles.
Completa e estúpida.
Perdi totalmente a noção de realidade. Até mesmo a palavra "realidade" já não significava mais nada. Aliás, engraçadinha essa palavra. Eu riria dela se não estivesse ocupada sentindo tanto e nada ao mesmo tempo.
Parecia que horas haviam se passado. Anos. Séculos.
Talvez por isso tenha sentido tanta fome, uma fome cada vez mais intensa.

Fome de você.

Mas aí você se afastou.

Demorei pra abrir os olhos, com medo de que aquela sensação tivesse fim.

E então apressado, junto com você, saiu pela porta o primeiro beijo da minha vida.

Metamorforse

14 de março de 2011

Morar sozinha não é fácil. Morar com três homens também não.
Ainda mais quando você passa a depender da própria comida, ou da deles, pra sobreviver.
Eu não cozinho mal. Minha Pasta Carbonara é de comer de joelhos (tá bom que pouca coisa não fica boa com bacon e creme de leite, né?).
Mas como os meninos da Rep Jaraguá não costumam comer em casa, fico com preguiça de cozinhar só pra mim.
Foi por causa da preguiça que descobri as sopas Vono.
Uma beleza, você adiciona água quente a um pozinho e, de repente, vê surgirem pedaços de carne, frango desfiado e croutons, milagrosamente crocantes e provavelmente cancerígenos. Tudo tem o mesmo gosto, é óbvio, de maneira que minha felicidade pela maravilhosa descoberta não durou mais que uma semana.
Minha mãe, famosa na  família Cury Reis pelo humilde título de Melhor Cozinheira do Mundo, vendo que a pobre filhinha estava emagrecendo e chegando ao cúmulo de agradecer pelo chuchu refogado do qual nunca havia gostado, decidiu que iria salvar a pátria, pelo menos naquela semana.
Ela fez quibe, carneiro recheado, frango com laranja, pão recheado... Com a desculpa de não deixar meu pai comer muito e ficar barrigudo, distribuiu essas gostosuras entre os filhos queridos, que moram longe da asa dela.
A minha parte da herança do final de semana resumia-se a 16 quibes grandes, um pão recheado inteiro, 5 sobrecoxas de frango com laranja e metade de um carneiro de 50Kg. Tá, talvez não tivesse tanto carneiro assim, mas foi difícil de carregar, de qualquer maneira.
Ela realmente estava me achando magra demais.
Coloquei tudo na geladeira e fui consumindo aos poucos, pedindo encarecidamente que os meninos - 3 homens de quase 30 anos, solteiros e famintos - me ajudassem com tudo aquilo.
Mas é impressionante como tinha comida!
Depois de 2 semanas, comecei a ficar com receio de comer os restos do carneiro e do frango. Em 3 semanas, matei os quibes e o pão recheado, e comecei a empurrar os Tupperware (vulgo "tapauér") com carne para o fundo da geladeira, inconscientemente.

Me esqueci deles.

Mentira, a cada dia eles me incomodavam mais, e eu forçava mais o meu inconsciente a empurrá-los para o fundo da geladeira.
Voltei a comprar sopas Vono, pra não pensar no que poderia ter se transformado aquela comida preciosa da mamãe.
A cada dia crescia o medo de jogar tudo no lixo. No mínimo, estaria fedendo muito. No máximo, uma subespécie formada pela união de cerca de 15 tipos de fungos diferentes me atacaria, assim que eu retirasse aquela tampa hermética azul.
Hoje, no entanto, quando abri a geladeira, tive a impressão de ver a tampa do frango se abrindo lentamente. Pensei comigo: "Estão ganhando vida, antes que aprendam a construir armas, vou me livrar deles".
Tive que me segurar muito pra não jogar a comida com Tuppeware e tudo na lixeira.
Só de pensar em lavar aquilo depois, meu Deus!
Mas se tem uma coisa que enfurece a Senhora Cury Reis é que os filhinhos sumam com os Tuppeware(s) dela. Ela fica doida. Então achei melhor enfrentar meus medos, colocar um prendedor no nariz e me direcionar até a lixeira do prédio.
Coloquei a cabeça pra fora da porta. Não queria ser acusada pelos vizinhos de ter criado um monstro na geladeira. Mesmo sendo a mais pura verdade.
Foram os 2 minutos mais demorados da minha vida.
Abri as cumbuquinhas, joguei o conteúdo na lixeira, tampei as cumbuquinhas rapidamente, entrei em casa rapidamente, tranquei a porta mais rapidamente ainda e lavei tudo.
Ouvia os fungos se contorcendo e empurrando a tampa da lixeira pra cima. Os do Carneiro peleando com os do frango, que, a essa altura, já haviam desenvolvido bazucas com os ossinhos e a cartilagem.
Foram momentos de tensão, meu coração batia forte e comecei a ficar preocupada com a possibilidade de algum vizinho ser pego de surpresa no corredor enquanto esperava pelo elevador, que demora uma vida pra chegar ao terceiro andar.

Quando terminei de lavar os Tuppeware minha respiração foi diminuindo. Apurei os ouvidos e não escutei nada, nem na casa, nem no corredor. Fui até a porta, olhei pelo olho mágico, a lixeira estava ali. Parada. Inocente. Não havia sangue no corredor.
Foi quando tomei consciência de que estava apreensiva, atrás de uma porta trancada, esperando que minha comida atacasse alguém.

Que cena ridícula.

Comecei a rir sozinha feito uma idiota, destranquei a porta e deitei no sofá.
Estava quase pegando no sono quando a vizinha deu um grito estridente no corredor.

Tranquei a porta e me escondi embaixo da cama.

TNT

11 de março de 2011

Ingredientes:

- 1 peça grande de lagarto
- 2 Cenouras
- Bacon (a gosto)
- Brócolis
- Óleo de girassol
- Um dente de alho
- Uma cebola grande
- Caldo de carne (de preferência, natural)
- 5 Tomates pelados
- Cheiro verde
- Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo:

Com uma faca grande e bem afiada, abra a peça de lagarto em manta.

Tempere com sal e pimenta a gosto.

Corte as cenouras em tirinhas, faça o mesmo com o bacon.

Coloque o bacon, a cenoura e o brócolis sobre toda a manta e vá, cuidadosamente, enrolando a carne, como um rocambole.

Usando uma linha de pesca ou um barbante, amarre a carne para evitar que ela se abra durante o cozimento.

Numa panela de pressão grande, coloque óleo, alho e cebola picados e refogue.

Quando a cebola estiver dourada, coloque o rolo de carne na panela.

Vire o rocambole a cada 10 minutos. Todos os lados precisam ficar bem corados.

Adicione o caldo de carne. Se necessário, complete com água até cobrir toda a peça.

Pique os tomates, o cheiro verde e reserve.

Depois de 15 minutos, tire a pressão da panela, adicione os tomates e coloque novamente na pressão.

Espere mais meia hora, tire novamente a pressão, adicione o cheiro verde e coloque novamente na pressão.

Após 5 minutos, tire a pressão, adicione um filé de merluza e um chili vermelho com as sementes.

Você também pode colocar fatias de pão de fôrma.

Mais dois minutos de pressão.

Coloque a panela na água para que a pressão saia rapidamente.

Adicione coentro (a gosto), alecrim, três folhinhas de hortelã, um rolo de barbante, a faca com a qual cortou a carne, um computar com Windows, de preferência o Vista, um celular, mais cebola, mais alho e coloque novamente na pressão.

Chame alguém de quem você gosta muito pra saborear o prato, mas não apague o fogo.

Com a indicação de que o fogo não deve ser apagado e de que você volta num segundo, deixe a pessoa cuidando da panela de pressão enquanto você sai e vai passear no shopping.

Volte 2 horas depois e, SE possível, limpe toda a sujeira.


Agora, me diga. Se ingredientes inesperados entrassem aos poucos no meio da pressão do dia-a-dia e você precisasse fazer algo parecido para se sentir melhor, sinceramente, faria?

Ao vivo

16 de novembro de 2010

- E quando eu disser "três" pode abrir os olhos, não abra antes.
(Música tensa ao fundo, tambores rufando em sintonia com o descompassado coração)
- Um, dois eeee... TRÊS! ABRA OS OLHOS
(Música alegre ao fundo, cheia de acordes maiores, sons de sininhos, close na cara de tacho do dono da casa)
- [...]
- E aí, o que achou?
- Eu...
- Não diga agora! Repare bem em cada detalhe, olhe com atenção! O que achou?
- Ah...eu...
- NÃO DIGA AGORA! Olhe para a nova textura da parede, para o novo piso, os novos moveis, a sua nova casa. E então, o que achou?
- [...]
- Está sem palavras?
- Não, só estava me perguntando se você ia me deixar falar.
- Ah, claro, sinta-se em casa. Hahaha. Pegou? Pegou? Sinta-se em casa na SUA casa! Hahaha! Olhe para aquela câmera e diga com toda a sinceridade, o que achou da reforma maravilhosa que fizemos?
- Eu... eu acho que vou vomitar.
- Que Maravilha!! Ele disse que...peraí, o que você disse?
- Eu disse que vou vomitar. Isso está horrível!
- Como assim, horrível?
- Olha a cor da parede!
- Não gostou da cor da parede?
- É verde-catarro! Quem diabos pintaria uma parede de verde-catarro e teria a cara de pau de me perguntar se gostei?
- Bom, mas olha o sofá que luxo!
- Ele é laranja.
- Sim, moderno, bonito...
- Se tem uma cor que detesto mais que verde-catarro é laranja. As duas cores combinadas então...e, meu Deus, o que é isso?
- É uma poltrona. Ela é superconfortável e...
- Florida.
- Sim, florida, sua noiva vai adorar.
- Terminei meu noivado ontem.
- Ah, sinto muito.
- Ela não gostava nem de ganhar flores, imagina se ia gostar de uma poltrona florida!
- Bem, ótima oportunidade para procurar uma nova noiva, não? Uma que goste de flores...
- (choro)
- Querido, por que está chorando?
- Minha casa, vocês destruiram a minha casa! Cadê a minha TV?
- Ela está ali, sobre aquele móvel lindíssi...
- Eu gosto da minha TV do lado da lareira! Gosto de olhar pra TV e ver o reflexo do fogo, não quero minha TV sobre aquela mesa horrorosa que vocês colocaram ali, quero MINHA TV do lado do MEU fogo! (choro desesperado)
- Calma, você não gostou das mudanças que fizemos?
- (Choro) Nãããooo...
- Se trocarmos a cor da parede você vai ficar feliz?
- (Soluços) ...nãããooo...
- Ok, existe alguma outra mudança que a gente possa fazer que vai te deixar feliz?
- Além de sumir com o verde-catarro?
- Isso.
- E com esse sofá laranja?
- Isso.
- Quero minha casa como era antes!!!
- Isso é impossível, meu querido, sinto muito.
- Sente muito? SENTE MUITO? Não consigo nem olhar pra essa coisa horrorosa que vocês fizeram, pelamordedeus, como alguém pode se formar em Design e destruir a casa de um cidadão honesto que não faz mal a uma mosca?
- É a universidade brasileira, o MEC aprovando tudo que é curso em qualquer faculdade, aliás, uma faculdade mais vagabunda do que a outra, sabe como é...Não que esse seja o caso do nosso designer, imagina, ele é ótimo, aqui só tivemos um...choque de gostos.
- Choque de gostos? Você tem a pachorra de dizer que o problema aqui é só de mau gosto? Eu vou pegar esse microfone e enfiar no seu...
- Tive uma ideia!
- Ideia?
- Sim! Infelizmente não temos como alterar a reforma da casa, mas nossa emissora tem um outro programa que será perfeito pra você que agora está solteiro. Você será trancafiado em uma casa cheia de câmeras com 10 mulheres e um anão. Ficarão lá dentro se conhecendo, fazendo amizade, curtindo festinhas, nadando, se divertindo e sendo vigiados por todo o país. O que acha? No final das contas pode dar casamento...com uma das 10 mulheres ou com o anão, as opções são variadas!
- Bom...
- Oportunidade única, rapaz, outros matariam para ter essa chance.
- Acho que pode ser uma boa ideia...
- Boa? É ótima! Você ficará famoso...talvez não por muito tempo, mas tempo o suficiente pra ganhar um dinheirinho posando para a G Magazine...
- Só tenho uma pergunta a fazer.
- Pois não?
- Essa casa, cheia de câmeras...
- Sim?
- Tem paredes verde-catarro?

Uma história de ficção

7 de outubro de 2010

Vou contar uma história totalmente fictícia e improvável que não sai da minha cabeça.
Um dia, a Moça vai se despedir do amigo que está indo embora e acaba conhecendo um outro cara que vai ocupar o quarto vago. Um cara que não fala português, que veio de algum país frio...vamos chamar esse país fictício de Alemanha.
Ela tenta ser legal, diz que ele pode chamar caso precise, numa boa, sem rodeios.
Ele chama...às duas horas daquela madrugada.
Ela atende e, pacientemente, aguenta as cantadas, as tentativas de abraço, mesmo se sentindo ridícula. Tenta colocá-lo pra fora milhares de vezes, milhares, até que, simplesmente, abre a porta e diz algo educado como: "Get out now, I really need to sleep".
No dia seguinte, a mesma coisa.
Ela, de saco cheio, avisa as meninas que moram com ela sobre o cara, porque, nessa situação hipotética, a Moça mora com mais duas meninas.
As duas também são cantadas pelo alemão, até que decidem parar de atender a porta. Ninguém atende a porta, ninguém sai na sacada, ninguém deixa as janelas abertas para que ele não perceba que tem gente em casa, saem para a rua torcendo para não encontrá-lo nas escadas.
Até que um dia, esse alemão manda uma mensagem para a Moça num site de relacionamentos que aqui, por falta de nome mais apropriado, chamarei de facebook.
Nessa mensagem, ele diz ouvir uma "conversa" íntima da Moça com a respectiva namorada, e oferece ajuda, caso as duas precisem.
Ele sabe da namorada porque, tentando evitar uma aproximação, a Moça disse a ele no primeiro encontro que era comprometida com uma outra moça, enfim. Tudo ficção.
Após ler essa mensagem, a Moça perde o controle, manda o cara a merda em 15 idiomas e acredita que, dali para frente, ele vai entender como as coisas funcionam.

Tudo segue na santa paz por um mês, até que, numa noite, uma das meninas que mora com a Moça abre a porta sem ver quem batia e dá de cara com o alemão:
"Oi...a Moça...estar?"
"Não, a Moça não está."
"Eu precisar lavar minha roupa, se lavar à mão, não secar until sábado. Possow lavar aqui?"
A amiga, embasbacada, diz que não, que a Moça não estar, que ela estar para sair e que ele estar para dar o fora.
Cinco minutos depois essa amiga sai de casa. A Moça, lembrando-se de algo importante, sai na janela e grita esse algo importante para a amiga, que a essas horas, nessa situação hipotética, já estava na garagem.
Ela responde com uma voz estranha.
O que a Moça não sabia é que, quando gritou, sua amiga estava de frente para o alemão, que, na garagem, esperava por ela.
"A Moça não estar, right? Mentirosa!"
Dali em diante a porta voltou a ficar trancada, as janelas voltaram a ficar fechadas e ninguém mais saiu na varanda. Surgiu um medo estranho de aquele cara, de repente, aparecer com uma arma dando tiros a torto e a direita...pessoas estranhas sempre fazem coisas estranhas
É óbvio que tudo isso que contei não aconteceu, que pessoas que vêm de países frios não são tão intrusivas, jamais, mas, imagina se tivesse acontecido...
Acho que ninguém acreditaria.

Sono pesado

16 de agosto de 2010

Acordei depois de uma noite sem dormir, sentei na beirada da cama, procurei meus chinelos por todos os lados, e quando vi que eles voavam pelo teto percebi que estava sonhando. Acordei com a sensação de que a noite havia passado em quinze minutos, levantei na manhã morna, tomei um banho gelado, e fiz um estrago tentando agarrar a xícara de café quente que caiu da pia quando esbarrei pra pegar um bolinho. Senti minha mão queimar com o café e acordei na cama, deitado sobre a mão que na verdade formigava. Olhei no relógio e estava atrasado para o trabalho. Saí correndo feito louco, tropeçando na cama, na porta, no cachorro. Peguei o ônibus vazio, sentei e fechei os olhos, foi quando percebi que nenhum ônibus naquele horário estaria normalmente vazio e que eu não tinha cachorro para tropeçar. Acordei assustado com o toque do celular. Era meu chefe que estava ligando para me demitir por ter faltado três dias seguidos na firma. Comecei a chorar feito criança e ouvi ele me dizer que era para parar de ser maricas e seguir a minha vida. Dei um grito de desespero. Acordei novamente com o celular. Sentei na cama, me belisquei algumas vezes pra tentar acordar e não aconteceu nada. Atendi o celular e era meu chefe, dizendo que eu ia ser promovido pelo meu trabalho das últimas duas semanas. Achei que aquilo também já era demais. Mandei meu chefe a merda e desliguei o telefone.
Esperei.
Continuei esperando.
Dei um grito alto e forte que fez meu vizinho do apartamento de baixo pegar uma vassoura e bater no próprio teto para que eu parasse. Fui até a sala e não havia cachorro. Olhei pela janela e o movimento da rua era caótico. Me belisquei feito um doido e nada aconteceu.
Liguei para o meu chefe e ele não atendeu.
Liguei cinco vezes. Nada.
Sentei na cama. Nada.
Deitei na cama. Nada.
Fechei os olhos com bastante força pra tentar acordar de verdade. Nada.
Foi quando entendi porque minha mãe dizia que dormir de barriga cheia podia fazer mal.

Sobre o dia em que o mundo acabou

19 de abril de 2010

Dirigia tranquilamente na Marginal Tie...não, peraí, vamos deixar esse texto mais verídico.
Estava há horas parado tranquilamente no familiar congestionamento das seis horas da tarde na Marginal Tietê, vidros fechados, blindados, retrovisor direito virado para dentro pra evitar que fosse arrancado pelos motoqueiros, como tinha acontecido com o esquerdo, quando gritos mais altos do que as buzinas o tiraram do transe gerado pela música que tocava no rádio. Olhou pra frente e viu as pessoas saindo do carro, olhando pra cima e correndo pra todas as direções.
Primeiro achou que fosse um arrastão, mas então viu que ninguém tentava roubar os carros que estavam sendo abandonados.
Abriu a porta, olhou pra cima e quase caiu duro pra trás.
O céu estava cor-de-rosa, bem diferente da típica e natural cor vermelha do céu noturno paulistano.
Um raio azul, seguido de um trovão ensurdecedor, cortou o céu, dando início a uma chuva incessante, não de água ou de fogo, como descrito no Apocalipse, mas de canivetes.
Era, de fato, o fim do mundo.
Entrou de novo no carro, em partes por não saber o que fazer, em partes para fugir dos canivetes.
O grande momento, tão profetizado, havia chegado. E ele estava ali, no trânsito. Não sabia quanto tempo de vida ainda tinha e decidiu pensar no que fazer naquele momento tão decisivo.
Pegou o celular pra ligar para esposa, para a sogra, para o cunhado. Percebeu que não queria falar com ninguém naquele momento. E nem que quisesse, não havia sinal pra ligar pra ninguém.
Ele podia sair correndo, dando risada como um louco e fugindo como desse dos canivetes, que agora caiam com tanta força que começavam a perfurar a lataria do carro.
Podia procurar uma igreja, havia tantas, com certeza encontraria alguma ali perto. Mas ele nunca tinha sido religioso e, colocando-se no lugar de Deus, se ele existisse mesmo, não daria bola pra um sujeito que só acreditava nele na última hora.
Pensou em pular no rio Tietê, dar uma nadadinha, improvisar um borboleta, como fazia quando era garoto pra impressionar as meninas, mas percebeu que aquilo seria mais mortal do que ficar deitado no chão com a chuva de canivetes.
Podia também fechar os olhos e esperar. O que, convenhamos, não teria a menor graça.
A cabeça estava a mil e demorou um tempo pra que ele percebesse que a chuva de canivetes havia parado. Olhou para o céu e viu que estava negro e cheio de estrelas, saiu do carro louco de felicidade, subiu no capô e gritou pra comemorar a vida. A partir daquele momento ele ia cuidar melhor da família se a família ainda existisse, ia diminuir o ritmo de trabalho, beber menos, parar de fumar, ia até fazer exercícios e trocar o açúcar por adoçante, isso ele prometia, prometia com uma fé que nunca havia tido, pra Deus, pra esposa que talvez estivesse viva, pra ele mesmo, prometia até para os canivetes.
Foi nesse auge de extrema alegria que “PUF”
O mundo explodiu.