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Reforma

24 de abril de 2016

Eu me lembro até hoje do dia em que fui conhecer o meu apartamento.
Procurava por ele havia meses. Tinha visto muquifos custando fortunas, apartamentos que comportavam três quartos, sala de estar, sala de jantar, escritório, hall, varanda gourmet, dois banheiros e uma areazinha externa em 50m², casas ideais localizadas no fiofó do Judas, enfim, foi um alívio entrar naquele apartamento e perceber que tinha encontrado o meu cantinho.
Tudo era lindo, pintadinho, bem arrumado... Menos o banheiro. O banheiro era um horror. Enorme, mofado, com um piso chapiscado de cinza, azulejos floridos nas paredes, o armário tinha um ninho de baratas aladas e, pra fechar com chave de ouro, a privada e a pia eram roxas. Sério, roxo-beterraba. 
Desde o primeiro dia, eu queria reformar aquele banheiro. Meu sofrimento em relação a ele era físico. Dava até dor de barriga. Ainda bem que a privada, apesar de roxa, funcionava.
Mas como na vida nada é tão fácil, só quase quatro anos após a mudança eu finalmente consegui começar a tão sonhada reforma.
Meu pai foi até o apê pra fazer um projetinho e acabou por perceber que o banheiro era grande o suficiente pra virar dois. Era bom demais. Eu ganharia, além de um banheiro decente, uma suíte.
Que chique!
E de quebra ainda me livraria do lavabo do fundo, que eu não citei aqui antes, mas era bem mequetréfe.
Começaram as obras. Tiraram o armário das baratas e, com ele, a pia beterraba. Que alegria! Dali pra frente, tudo seguiu exatamente como planejado.

Por aproximadamente dois dias.

Aí, quebraram o chão de taco pra abrir a porta da suíte e descobriram que ele estava podre. Não acharia ruim trocar o taco se a casa inteira não fosse de taco. Mas tá podre, né? Fazer o quê? Troca o taco.
Poxa, mas por que ele tá podre? Ah, é por causa da umidade que vem do chão? Ah, é essa umidade que mofa as paredes? Então arruma as paredes, né? Lixa até o tijolo, passa mil produtos anti-mofo, passa impermeabilizante, passa massa e pinta todas as paredes. Todas. E aí troca o gesso, né? Porque essa moldura rococó é do tempo do onça. E essas janelas com persiana de madeira que já foram lar de 5 gerações de cupins? Aproveita e já troca. Já que tá no inferno, abraça o Bolsonaro. Então, aproveita e já transforma o lavabo mequetréfe numa lavanderia. Aí, o que era lavanderia vira cozinha e a cozinha vira copa (Quem disse que não ia ter copa?). E troca os batentes... E as portas... E as soleiras.

Enfim, a reforma ia durar só o mês de dezembro. Mas aí, especificamente em dezembro de 2015, teve aquele lance de natal, ano novo... Não deu. Ia ser entregue antes do carnaval, mas nada funciona antes do carnaval nesse país, né? Esquece. Antes da Páscoa saía com certeza. Só que a Páscoa foi cedo esse ano... Em março, é mole? Bom, o Lu faz aniversário em abril, pelo menos a festinha dele ia ser no apê e... Não, não foi. A próxima previsão é eu poder comemorar o meu aniversário em casa, no fim de maio.
Enquanto isso, vou sonhando com a minha caminha, meu sofazinho, meu Game of Thronezinho, e com a grana que preciso ganhar pra, terminado tudo isso, poder finalmente partir pra decoração, que é a parte massa.

E com os open houses, claro.

Na pior das hipóteses, a gente faz um open house junto com o natal.

Do ano que vem.

Quem sabe?

A textura dos sonhos

3 de abril de 2013

Trabalho em equipe.
Acho que se fosse definir minha vida, seria desse jeito.
Um bom e belo trabalho em equipe.
Digo isso porque, desde que nasci, me acostumei a não fazer nada sozinha.

Só ir ao banheiro. Ao banheiro eu vou sozinha.

Mas tirando isso, seja nos momentos mais banais, seja nos mais importantes, estou sempre muito bem acompanhada e consciente de que posso contar com quem está ao meu redor.
Desta vez, não foi diferente.
É com muito orgulho, prazer e um sorriso na cara daqueles que fazem cócegas nas orelhas, que apresento a vocês o resultado do trabalho de uma grande equipe...

O PERIPÉCIAS NAS ENTRELINHAS VIROU LIVRO!

Sim, é isso mesmo.

LIVRO. Desses de papel. Desses que lemos com atenção e que nos fazem rir e chorar. Desses que damos de presente, que têm cheirinho de novo e uma capa bonita e simples que já antecipa o que será encontrado em cada página.

O Peripécias saiu do mundo virtual. Agora é real. Concreto.

É um sonho que acaba de ganhar textura de livro.

E, como já disse antes, a materialização desse sonho só foi possível com a ajuda de pessoas extremamente importantes.
Capa, contracapa, diagramação, revisão e prefácio foram feitos pelos meus irmãos. De sangue ou não. Gente de quem me orgulho muito e que vou levar sempre comigo.
Obrigada, André, Heitor e Tyler.
Acho que nunca vou ser grata o suficiente a vocês.

Agora você, leitor, já pode conferir o resultado desse belo trabalho em equipe.
Lá, você poderá conferir a capa, as primeiras páginas, as características da obra e compra-la pela internet. Para agradar a todos, o livro está disponível também na versão e-book.

Os textos foram selecionados com muito cuidado e carinho. Eles traduzem o que vejo em mim e no mundo à minha volta.
São páginas repletas.
Assim, repletas "ponto final".
Do que elas são repletas, cabe ao leitor descobrir.
Acesse, confira, comente, deixe seu pitaco aqui ou na página da editora, afinal, esse é um momento feliz demais para não ser compartilhado com os amigos.
Ainda mais com amigos tão especiais.
A todos vocês, muito, muitíssimo obrigada!

Titica na cabeça

20 de março de 2013

- Você pegou pão de alho?
- Peguei.
- Picanha?
- Que picanha o quê?! Cada um deu dez reais pro churrasco. Se a gente comprar picanha não sobra dinheiro pra cerveja.
- Tá, quanto a gente pegou de cerveja?
- Noventa reais.
- Ah... Então sobram dez reais pra carne, é isso?
- É... Não, pera aí... Ah, é, é isso mesmo.
- Bom, o jeito vai ser comprar coração de frango.
- Eca! De jeito nenhum!
- Não gosta?
- Olha, eu gostava bastante quando era criança, mas quando descobri que o "coração de frango" era coração mesmo, não consegui mais comer.
- Como assim?
- Ué, pra mim era só uma carne com um nome engraçado.
- Cara, isso não faz o menor sentido!
- Claro que faz! Pensa comigo, "patinho", por exemplo, não é carne de pato, "lagarto" não é lagarto, "cupim" graças a Deus não é cupim mesmo, por que diabos o "coração" tinha que ser coração?
- ...
- Tive uma ideia melhor, vamos pegar asinha.
- ... Você sabe o que é a asinha, não sabe?
- Claro que sei, né?!
- O problema é o mesmo do coração!
- Não é não!
- Qual é a diferença? Vai me dizer que asa do frango não bate mais forte quando ele se apaixona?
- Bom... Asa ele tem duas, coração tem um só...
- E?
- E que se a gente tirar uma asa, ele não vai morrer, só vai deixar de voar. Não é óbvio?
- É... Claro... Óbvio.

O Tablet

22 de novembro de 2012


Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco
Até o Angry Birds.
E todos os arquivos
que baixar, eu vou salvar.
A casa, a montanha,
Pode pintar, sem medo.
Tudo isso com um toque do dedo...

Sou eu que vou ser seu colega
Seus problemas ajudar a resolver
Usar a Wikipédia nas provas bimestrais,
Sem ninguém ver
Serei, de você, confidente discreto
É só pôr uma senha de acesso...

Sou eu que vou ser seu amigo
Vou mostrar matérias da Capricho
Se você quiser
Quando surgirem
Seus primeiros raios de mulher
A vida, sem dúvida terá
Reviravoltas fenomenais,
E você vai postar isso nas redes sociais...

O que está escrito em mim
Ficará sempre guardado
Se lhe dá prazer
É só salvar tudo na nuvem
Você vai ver...

Só peço, à você
O favor de não ser cruel
E não me esquecer
Como se eu fosse de papel

Deus abençoe

26 de julho de 2012

    Então, menina, ele entrou no salão pra cortar o cabelo e começou a contar da chefe. Que a moça era muito inteligente, muito estudada, mas era sem-vergonha. Ficava dando em cima, mesmo sabendo que ele era casado. Aí perguntei o que ela fazia e ele disse que ela aparecia com um decotão, ficava encostando nele o tempo todo e dizendo que a mulher dele tinha muita sorte.
Esses papos de biscate.
Aí, você não acredita, ele disse que decidiu colocar o cargo a disposição do diretor da empresa, falou pro patrão que ou tiravam ela, ou tiravam ele.
O que o diretor fez? Tirou a mulher! Tem que ter muita coragem, né?
Ele disse que amava a esposa e só isso que importava. E tem que ter muito amor, claro. Só o amor vence, só o amor de verdade prevalece. Acho tão bonito isso. Deus abençoe. É tão raro, hoje em dia, encontrar um homem que respeita a esposa.
Ele é especial. A tal da chefe tem razão numa coisa, a mulher dele tem sorte mesmo. Muita sorte. Aliás, só isso, por que não sei mais o que ele viu naquela lá. Songa monga que só, magrela, nariguda.
Vai entender.
Tanta mulher mais interessante e solteira, né?
Eu aqui sem ninguém e aquela mané com um cara tão boa pinta. Mas espera só até ele voltar no salão. Se aquela boba chamou a atenção dele, imagina o que eu posso fazer, né?
É só jogar meu charme e o gato tá no papo.
Ah, olha, o trem tá chegando. Te ligo de novo mais tarde pra perguntar da Carminha e da Nina, não vi o capítulo de ontem porque tava no culto. Tá, tá bom, fica com Deus. Beijão.

Nosocomefobia

25 de maio de 2012


Tem gente que demora décadas para descobrir coisas simples.
“Sou gay”, “Tenho medo de avião”, e “A vovó Mafalda era homem”, por exemplo, são só algumas dessas coisas.
Ontem, eu descobri que tenho medo de hospital.
Eu sou homeopata.
Não, isso não é feitiçaria. Nem tecnologia. É só um método de tratamento mais natural.
As "bolinhas de açúcar", como os céticos carinhosamente chamam os nossos remédios, estimulam o corpo a reagir, o que pode demorar um pouco.
Não é placebo. É um método que funciona perfeitamente.
Tão perfeitamente que não, eu nunca tinha entrado em um hospital como paciente.
Mas ontem, quando acordei, pus o pé no chão e senti um arrepio que percorreu meu corpo umas vinte vezes, deu sinais ao meu cérebro de que tinha algo muito errado com o meu pé esquerdo e que esse "algo muito errado" deveria ser interpretado como "dor lancinante". Tudo isso em meio segundo.
Gritei, sentei na cama, respirei fundo. Removi a poeira do cérebro e tentei me lembrar do que poderia ter gerado aquilo.
Lembrei.
O pé não estava inchado, não estava roxo, não estava nada além de dolorido pra burro.
Demorei meia hora para chegar ao trabalho. Um caminho que normalmente faço em cinco minutos.
Passei a tarde tentando trabalhar e ouvindo histórias de gente que quebrou partes do corpo e só foi saber que tinha quebrado semanas depois, de ossos que se esmigalharam, mas não causaram qualquer inchaço, de gente que morreu dormindo porque tinha quebrado o pé e ficou sangrando por dentro e a pessoa não viu e blá blá blá.
Eu sei, não faz o menor sentido, mas entrei em pânico.
O namorado então sugeriu que eu tirasse um raio X. Ele, todo lindo, carinhoso e gripado, me levou até a emergência de um hospital.
Foi quando começou o pesadelo.
O primeiro enfermeiro, quando me viu mancando, perguntou se eu queria uma cadeira de rodas para ir até a sala de espera.
Meu primeiro impulso foi dizer que não, claro que não, eu não queria a cadeira, moço, pelamordedeus, eu pretendia sair dali andando e sem gesso, pronta pra bater uma bolinha!
Mas respondi simplesmente “Não, obrigada“ e continuei mancando.
Quando chegamos à sala de espera, estava lotada. Só havia uma cadeira vaga bem ao lado de um cesto com uma placa na qual amigavelmente se lia “Lixo Intoxicante”.
Eu não estava aguentando parar em pé, então me sentei meio de lado, o mais longe que eu poderia ficar do lixo sem encostar no velhinho do meu outro lado, que estava tossindo os bofes.
O cheiro da sala me incomodava.
As pessoas com cara de doente me incomodavam.
A sala lotada me incomodava.
E, pra piorar, tava passando Malhação na TV.
Comecei a sentir calor, parecia que as paredes estavam se fechando, o ar começou a faltar, tudo começou a ficar escuro e então...
Chamaram meu nome.
Manquei o mais rápido que pude pra fora de lá e entrei na sala do ortopedista.
Ele então perguntou o que tinha acontecido.
Eu expliquei que o meu peito do pé tinha batido no joelho de um cara na noite anterior.
Ele disse, "Ah, então você chutou o cara?"
Eu disse que podia explicar.
Ele disse que duvidava.
Então expliquei que durante o treino de muay thai, na noite anterior, havia dado um chute para acertar a coxa do adversário. Ele levantou a perna para defender o golpe. Errei o chute e acertei o joelho do menino, em vez da coxa. Na hora, com o corpo quente, só senti um pouco de dor. Quando o corpo esfriou, já viu, né?!
Ele me examinou rapidamente, falou que ia pedir um raio X e que era para eu me controlar e não chutar o joelho do rapaz da radiologia, que era meio mala.
Para fazer o bendito raio X andei por todo o hospital. Passei por grutas, abóbadas, elevadores, salas de espera, cafés, salões de festa. Cada ala do hospital parecia um portal para realidades paralelas. Cada realidade me fazia suar frio.
Com o exame em mãos, voltei para a sala da ortopedia.
Tentei voltar, na verdade. Acabei me perdendo e fui parar na ala da maternidade, no terceiro andar.
Quando finalmente encontrei a sala do médico, entrei, sentei e olhei apreensiva enquanto ele examinava o raio X contra a luz.
“Olha, apesar da dor, seu pé tá inteirinho. Pelo menos o osso. Pode ser que haja um sangramento interno no osso (!!), mas isso é o de menos. Coloque gelo. Vai inchar, mas em cinco dias você já deve estar bem. Se não estiver, volte. ”
“É isso?”
“É, é isso. Boa noite.”
Saí de lá na maior felicidade. Quanto mais me aproximava da saída, mais meus pulmões se enchiam de ar e meu coração batia com vida.
Chegando à sala de espera chamei o namorado e saímos eu e ele, mancando e tossindo, respectivamente, para não voltar tão cedo.

Bum-das Imobiliárias

16 de janeiro de 2012

Se um dia você estiver se sentindo sozinho, precisando conversar com alguém educado, atencioso e engraçado, esqueça a CVV, esqueça o namorado.
Ligue para um corretor.
É, isso mesmo, de imóveis.
Aliás, nem ligue, mande um e-mail dizendo que está interessado no apartamento X.
Ele vai te ligar de volta com milhares de propostas interessantes, oportunidades imperdíveis e comentários brilhantes.
Duvida?

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- Alô, gostaria de falar com a Senhora Marina.
- É ela.
- Ah, oi, senhora Marina. Posso te chamar de Marina?
- Pode, claro.
- Marina, vi que você se interessou pelo nosso apartamento na Mooca, é isso mesmo?
- Na verdade eu me interessei pelo preço dele, mas queria alguma coisa mais perto do centro.
- Ah, perto do centro é difícil, é tudo velho, tudo feio, tudo caro, só conheço apartamentos nojentos no centro. Onde você mora?
- No centro.
- Ah... Sempre há exceções, eu imagino, eu acho, eu espero, eu... Onde do centro você mora?
- Na Santa Cecília.
- Ah, também! É Santa Cecília, né?! Quase Higienópolis!
- E quase Arouche, quase República.
- Ah, bom, então, a gente só trabalha com Zona Leste. Mas posso garantir que é um bom negócio. Talvez não tão próximo do metrô, não tão próximo de Higienópolis, não tão grande quanto os apartamentos do centro. Ainda assim, um bom negócio.

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- Oi, tudo bem? Meu nome é Marina, queria perguntar a respeito da casa X, na Lapa.
- Ah, essa casa precisa de muita reforma, você está interessada em casas que precisam de reforma?
- Dependendo do preço eu estou sim.
- Bom, essa casa precisa de bastante reforma, tanto na parte externa quanto na fiação e no sistema hidráulico.
- É, eu reparei. Quanto custa?
- Quinhentos.
- Oi?
- Quinhentos.
- Quinhentos mil reais brasileiros?
- Isso.
- ...
- Alô.
- Moça, você me disse que uma casa que precisa de reforma completa custa MEIO MILHÃO DE REAIS?
- É, veja bem, são dois terrenos. A casa tem cem metros quadrados.
- São 5 mil reais por metro quadrado. Numa região de difícil acesso na Lapa.
- Sim, uma oportunidade e tanto não? Você pode derrubar a casa atual e fazer uma nova com o seu estilo.
- ...

---

- Alô, Marina?
- Isso.
- Foi você quem demonstrou interesse no nosso apartamento de dois quartos com cozinha, sala pra dois ambientes, varanda, banheiro, vaga de garagem, lazer completo, ao lado do metrô Liberdade, reformado, no valor de 230 mil reais?
- Isso, eu mesma.
- Sinto muito, já foi vendido.

---


- Alô, Marina?
- Isso.
- Clariberta Roberta da Imobiliária Mi Casa, Su Casa (Nome obviamente fictício. O da imobiliária.), tudo bem?
- Tudo.
- Vi que você se interessou pelo nosso apartamento de 300 mil na Ponte Rasa e...
- TREZENTOS MIL? NA PONTE RASA? Não, moça, acho que mandei um e-mail de interesse pro apartamento errado. Eu tô procurando alguma coisa mais barata e mais próxima da cidade de São Paulo.
- Bom, tudo bem, o que você está procurando? Talvez eu possa ajudar.
- Apartamento de dois quartos, com vaga, próximo a um metrô, de preferência próximo ao centro, que aceite financiamento e custe menos de 250 mil.
- Ah, só você, né?
- Como?
- Esquece.
- Ah... Como?
- Quer uma dica? Esquece, você não vai encontrar nada, sinto muito. Teve um BUM de preços no último ano, está tudo caro. Pode tirar o cavalinho da chuva.
- Bom, então obrigada.
- Talvez na Baixa Casa Verde. Mas lá alaga.
- Não, moça, agradeço a atenção.
- Nada, boa sorte.

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Sorte.


Ta aí. No fim das contas é disso mesmo que eu vou precisar, já que bom senso está longe de ser uma opção.

Bailes da Vida

2 de dezembro de 2011

Histeria. Choro. Sorriso besta. Falta de palavras. Garganta seca.
Quem nunca imaginou como se sentiria quando se encontrasse com seu ídolo?
Quem nunca sonhou que jantava com aquele ator?
Quem nunca quis trombar na rua com aquele cara que cantava músicas perfeitas para cada momento de sua vida?
Quem nunca?


Pois é, eu nunca.


Não que não tenha ídolos, tenho muitos, mas meus herois morreram de overdose, ou, em alguns casos, como no da citação, de aids. Ou estão velhos e provavelmente não frequentam os mesmos lugares que eu - o que impede um esbarrão acidental.
Por esses motivos, principalmente, nunca tive muito desses faniquitos de fãs.
E, bom, nunca ter pensado nisso se tornou um problema quando, por ironia do destino, acabei trombando com um dos meus ídolos na empresa onde trabalho.
Um ídolo velho, não um ídolo morto. Melhor deixar isso bem claro.
Pra quem não sabe, trabalho numa empresa de edição de audio, tradução e dublagem. Vira e mexe aparecem atores famosos, mas nenhum que inspire ataques de tietagem da minha parte - tirando o Dr. Abobrinha, claro, que tá sempre por aqui e... Ah, qual é?! É o Dr. Abobrinha, poxa vida! O maior vilão da minha infância! Merece admiração.
Enfim, no começo do ano a empresa pegou um trabalho grande de dublagem e o cliente exigiu que a voz do narrador fosse feita por ninguém mais, ninguém menos que Milton Nascimento.


Uau!


Quando soube disso, fiquei estranha.
Se misturar tudo o que citei na primeira linha do texto dá pra ter ideia do que senti quando mencionaram esse nome. Um frio engraçado na barriga. A mesma coisa que senti quando Paul McCartney cantou Eleanor Rigby no Engenhão. Não dá pra explicar.
A ordem do chefe foi clara: Ninguém fala com o Milton.
A não ser que ele falasse com alguém, mas como o cara é tímido isso obviamente não aconteceria.
Bom, falar não podia, mas ver podia, certo? Ninguém falou nada sobre ver.
Então me posicionei estrategicamente no corredor por onde ele ia passar, com um café, como se meu trabalho fosse ficar lá parada.
E, bom, ele passou. Passou em câmera lenta. A princípio pensei que fosse efeito da minha admiração, depois vi que ele andava devagar mesmo, com certa dificuldade.
A patroa passou por mim e riu, claro, porque ela, ao contrário do Milton, sabia que meu trabalho não era ficar tomando café ali no corredor com cara de paisagem. Então, sem mais nem menos, ela quebrou a regra do chefe.


- Ei, vem cá!
- Ah... Eu?
- É, vem cá. Milton, essa é a nossa tradutora mais jovem. Ela é sua fã.
(Milton não fala nada)
(Eu não falo nada)
(Patrão resolve falar) - Marina, Milton. Milton, Marina.
(Milton não fala nada)
(Eu não falo nada)
(Patrão resolve falar de novo) - Pode cumprimentar.
(Milton não fala nada)
(Eu quero falar que meus pais colocavam as músicas dele pra eu dormir, que pra mim ele era a melhor voz da música brasileira, que minha vontade era me jogar aos pés dele e agradecer por Bola de Meia, Bola de Gude, por Coração de Estudante e pela interpretação dele de Cálice. Mas só abro a boca e não falo nada)
(Patrão, desconcertado, fala de novo) - Marina, ele não morde.
(Então digo algo admirável, algo que qualquer fã pensaria em dizer ao seu ídolo)
- Não me morda, Milton.


Todos riem e eu vou embora. Só na escada paro pra pensar no que falei e tenho um ataque de riso que dura 20 minutos. Meu primeiro pensamento é: "Nunca vou contar isso pra ninguém". Mas, depois, pensando bem, é ridículo demais pra não ser compartilhado.


Se trombasse na rua com seu maior ídolo e só pudesse dizer uma coisa a ele, o que diria?
Imagino que algo diferente de "Não me morda".


Bom, pelo menos ele não me mordeu.

O Astro

9 de agosto de 2011

Eu sou Geminiana.
Tenho ascendente em Escorpião.
Lua em Escorpião 
E isso não faz a menor diferença.

Pelo menos pra mim.

Ao contrário do que possa parecer, não sou do tipo cética. Me apego às coisas, tento acreditar, não duvido das ciências ocultas e da presença de espíritos.
É sério! Até convivo com um espírito lá em casa (o Ele) que insiste em apagar a luz da sala de vez em quando e reacender quando dá vontade. Não brinco, não tiro sarro, não acendo a luz quando Ele apaga. Ele cuida da casa à noite, Ele gosta de apagar a luz, Ele manda. Temos praticamente um acordo selado. Não me levanto de madrugada pra beber água, Ele continua invisível pra mim, e tá tudo certo.

Mas estou fugindo do assunto, não quero falar de espíritos, quero falar de signos.

É muito fácil pra vocês aí, não-geminianos, acreditarem nesse monte de baboseiras.
Facílimo!
Em algum momento da vida todo mundo tem um amigo que tem uma tia que se veste de hippie e que gosta de ler mãos, búzios, cartas, livros de auto-ajuda...e que, claro, sabe tudo de signos. E essa tia ensina isso pro seu amigo (ou sua amiga), que faz questão de fazer mapas astrais e definir características intrínsecas a cada aluno do colégio.
Sim, isso aconteceu comigo várias vezes. E o papo era sempre o mesmo:

"Áries? Oh! Áries é heroico, aventureiro. Signo de fogo! Touro? Temperamento forte, perseverante! Virgem? Signo da pureza! Leão? Respeitado, popular..."

"Ah, e Gêmeos?"

"Gêmeos é duas caras"

OOOOOPA, peraí! Eu sou de Gêmeos, meu pai é de Gêmeos, meu irmão é de Gêmeos.

Família Cury Reis, vulgo Família Duas Caras.
Prazer.

Não! Me recuso!

Melhor que ver a reação das pessoas quando você diz que é de Gêmeos, é ver a reação quando você diz que, além de tudo, tem ascendente em Escorpião. Parece que você cometeu um crime, amarrou pedra em rabo de cachorro, queimou formiga com lupa, sei lá.

"Gêmeos? Vixi! E seu ascendente? ESCORPIÃO? Caramba...Quê? Oi? Você ouviu isso? Tão me chamando ali, já volto! Adeus".

Ah, me poupe!

E as previsões de jornal, então?

"A passagem de Mercúrio por sua casa quatro faz com que os próximos dias sejam voltados a promover o bem-estar de seus parentes. Sol regente entra em virgem e movimenta sua vida familiar. Cuidado com o que fala e o que ouve, pois pode haver mal entendidos. Número da Sorte: 72. Cor: Laranja"

QUÊ?

Com o passar dos anos, algumas pessoas começaram a tentar me convencer de que era tudo uma questão de interpretação, que, pro meu alívio, eu não necessariamente era duas caras, e que sim, por mais que eu não acreditasse, a posição da Lua e do Sol no momento em que eu nasci influenciaria minha vida inteira.
Dizem que tem gente que nasce com a bunda virada pra Lua. Será que não é a Lua que fica virada pra bunda?
Bom, de qualquer forma, quando nasci ela tava virada pra Escorpião.

Nada contra quem acredita, vamos deixar isso bem claro!

Uma das minhas melhores amigas pretende tatuar o símbolo de Leão.
Isso. Tatuar. No corpo. Pra sempre.
Deixa ela! Não faço a vertente crente chata que bate na porta das pessoas nos domingos de manhã pra falar sobre minhas crenças. Não vou ficar falando que acho os signos uma grande bobagem (nem agora, nem aos domingos pela manhã), mesmo porque ela sabe disso.
O símbolo é bonito, ela gosta, o corpo é dela. Lindo! Eu não faria. Mas vai com fé!

Agora, esperar que EU acredite nisso? Já é um pouco demais.
Eu esperei os nove meses pra nascer e tal, sou paciente, mas e se acontece qualquer coisa e muda isso?
E se minha mãe fica nervosa com algum pênalti mal marcado contra o Corinthians (acontece com frequência) e entra em trabalho de parto mais cedo mudando, acidentalmente, meu ascendente?
Um pênalti poderia literalmente mudar toda a minha vida?
Ah, não, desculpe! Os astros que me perdoem, mas tenho mais o que fazer.

Desilusão

30 de junho de 2011

Entrei no metrô com mais sono do que o normal e com a certeza de que estaria lotado.
Estava mesmo.
Não entupido, lotado, o que significa que dava pra me mexer lá dentro sem incomodar muito quem estivesse mais próximo.
Fui me apertando pra longe da porta porque ia demorar pra descer (é isso que todo mundo deveria fazer, viu? Ficar parado na porta se você não vai descer na estação seguinte só atrapalha, amiguinho!) e encostei numa das barras laterais de segurança, de costas para as cadeiras.
Em meio a muitos empurrões, senti um toque diferente. Uma cutucada, na verdade
"Moça."
(MEU DEUS, QUE HOMEM LINDO!)"Oi?"
"Senta aqui no meu lugar"
(ME PEDE PRA SENTAR NO SEU COLO, SEU LINDO!) "Imagina, pode ficar."
"Não, por favor. Você parece cansada, pode se sentar."
(MELHORA ESSA CARA, MARINA, RÁPIDO, SORRIA) "Ah, brigada."
"Você tem um sorriso lindo."
(AI, MORRI!) "Ah...rs...brigada."
"Não precisa ficar vermelha."
(FALA ALGUMA COISA, SUA RETARDADA. TEM UM MORENO LINDO FALANDO COM VOCÊ! FALA COM ELE!) "É reflexo da blusa..." (REFLEXO DA BLUSA? QUE TIPO DE PIADINHA IDIOTA É ESSA? AH, DROGA! ELE SÓ DEU RISADA E COLOCOU O FONE DE OUVIDO DE NOVO. ATÉ O FONE DELE É LINDO. CARAMBA, ACHO QUE TÔ APAIXONADA! OLHA ISSO! OLHA ESSA BARBA MAL FEITA! OLHA ESSE BRAÇO, ESSE ABDÔMEN...A CAMISETA TÁ TÃO CERTINHA QUE MARCA CADA GOMINHO DA BARRIGA DELE. UM, DOIS, TRÊS GOMINHOS...E DESCENDO...)
Nisso o trem freia bruscamente, ele se desequilibra e o fone acaba se desconectando do celular, que berra pra todo mundo ouvir a música que, até então, só ele estava ouvindo.

Quem vai querer a minha piriquita, a minha piriquita, a minha piriquita?

Nem que fosse o cara mais lindo do mundo eu encararia aquela piriquita. Nem pensar!
Já terminei namoros de anos por menos.
Olhei assustada, me levantei, desci na estação seguinte e troquei de vagão.

Quadrado

16 de maio de 2011

Metrô. Barra Funda. 19h. 20 pessoas por metro quadrado.
Fila pra comprar o bilhete. Fila pra passar na catraca. Fila pra descer a escada rolante. Fila pra entrar no metrô.
Uma velhinha na minha frente, duas meninas atrás de mim. Todas espremidas.
Meu fone de ouvido esquecido em algum lugar de Itatiba.
As meninas atrás de mim começam a conversar.

- Menina, essa pílula tá me dando uma dor de cabeça!
- Troca.
- Pra quê? É tudo igual.
- É nada. To tomando uma pílula que não me deixa menstruar. O que é ótimo, porque além de eu não engravidar, evita cólica.
- Não menstrua?
- Não. Tomo pílula todo dia. Elas são diferentes. Umas coloridinhas, outras brancas, varia a quantidade de hormônio.
- Ah...sei lá...sou meio quadrada. Acho que se Deus fez a mulher pra menstruar, tem que menstruar.
- ...Sei...
- E outra, deve fazer mal ficar com o sangue todo acumulado.
- Oi?
- É, já pensou? Deve coagular lá dentro.
- Meu...nada a ver...deixa eu explicar, a pílula...
- Ai, que horror! Pensa. Pra onde vai o sangue coagulado? Deve ser duro tirar isso depois.

Nisso o trem entra na estação. A velhinha na minha frente dá um jeito de virar para trás e cutucar uma das meninas.

- Mocinha.
- Oi, senhora.
- Quadrada sou eu que quero que meus netos casem virgens. Você é burra mesmo.

O trem para, a porta se abre e a velhinha vai embora.

Metamorforse

14 de março de 2011

Morar sozinha não é fácil. Morar com três homens também não.
Ainda mais quando você passa a depender da própria comida, ou da deles, pra sobreviver.
Eu não cozinho mal. Minha Pasta Carbonara é de comer de joelhos (tá bom que pouca coisa não fica boa com bacon e creme de leite, né?).
Mas como os meninos da Rep Jaraguá não costumam comer em casa, fico com preguiça de cozinhar só pra mim.
Foi por causa da preguiça que descobri as sopas Vono.
Uma beleza, você adiciona água quente a um pozinho e, de repente, vê surgirem pedaços de carne, frango desfiado e croutons, milagrosamente crocantes e provavelmente cancerígenos. Tudo tem o mesmo gosto, é óbvio, de maneira que minha felicidade pela maravilhosa descoberta não durou mais que uma semana.
Minha mãe, famosa na  família Cury Reis pelo humilde título de Melhor Cozinheira do Mundo, vendo que a pobre filhinha estava emagrecendo e chegando ao cúmulo de agradecer pelo chuchu refogado do qual nunca havia gostado, decidiu que iria salvar a pátria, pelo menos naquela semana.
Ela fez quibe, carneiro recheado, frango com laranja, pão recheado... Com a desculpa de não deixar meu pai comer muito e ficar barrigudo, distribuiu essas gostosuras entre os filhos queridos, que moram longe da asa dela.
A minha parte da herança do final de semana resumia-se a 16 quibes grandes, um pão recheado inteiro, 5 sobrecoxas de frango com laranja e metade de um carneiro de 50Kg. Tá, talvez não tivesse tanto carneiro assim, mas foi difícil de carregar, de qualquer maneira.
Ela realmente estava me achando magra demais.
Coloquei tudo na geladeira e fui consumindo aos poucos, pedindo encarecidamente que os meninos - 3 homens de quase 30 anos, solteiros e famintos - me ajudassem com tudo aquilo.
Mas é impressionante como tinha comida!
Depois de 2 semanas, comecei a ficar com receio de comer os restos do carneiro e do frango. Em 3 semanas, matei os quibes e o pão recheado, e comecei a empurrar os Tupperware (vulgo "tapauér") com carne para o fundo da geladeira, inconscientemente.

Me esqueci deles.

Mentira, a cada dia eles me incomodavam mais, e eu forçava mais o meu inconsciente a empurrá-los para o fundo da geladeira.
Voltei a comprar sopas Vono, pra não pensar no que poderia ter se transformado aquela comida preciosa da mamãe.
A cada dia crescia o medo de jogar tudo no lixo. No mínimo, estaria fedendo muito. No máximo, uma subespécie formada pela união de cerca de 15 tipos de fungos diferentes me atacaria, assim que eu retirasse aquela tampa hermética azul.
Hoje, no entanto, quando abri a geladeira, tive a impressão de ver a tampa do frango se abrindo lentamente. Pensei comigo: "Estão ganhando vida, antes que aprendam a construir armas, vou me livrar deles".
Tive que me segurar muito pra não jogar a comida com Tuppeware e tudo na lixeira.
Só de pensar em lavar aquilo depois, meu Deus!
Mas se tem uma coisa que enfurece a Senhora Cury Reis é que os filhinhos sumam com os Tuppeware(s) dela. Ela fica doida. Então achei melhor enfrentar meus medos, colocar um prendedor no nariz e me direcionar até a lixeira do prédio.
Coloquei a cabeça pra fora da porta. Não queria ser acusada pelos vizinhos de ter criado um monstro na geladeira. Mesmo sendo a mais pura verdade.
Foram os 2 minutos mais demorados da minha vida.
Abri as cumbuquinhas, joguei o conteúdo na lixeira, tampei as cumbuquinhas rapidamente, entrei em casa rapidamente, tranquei a porta mais rapidamente ainda e lavei tudo.
Ouvia os fungos se contorcendo e empurrando a tampa da lixeira pra cima. Os do Carneiro peleando com os do frango, que, a essa altura, já haviam desenvolvido bazucas com os ossinhos e a cartilagem.
Foram momentos de tensão, meu coração batia forte e comecei a ficar preocupada com a possibilidade de algum vizinho ser pego de surpresa no corredor enquanto esperava pelo elevador, que demora uma vida pra chegar ao terceiro andar.

Quando terminei de lavar os Tuppeware minha respiração foi diminuindo. Apurei os ouvidos e não escutei nada, nem na casa, nem no corredor. Fui até a porta, olhei pelo olho mágico, a lixeira estava ali. Parada. Inocente. Não havia sangue no corredor.
Foi quando tomei consciência de que estava apreensiva, atrás de uma porta trancada, esperando que minha comida atacasse alguém.

Que cena ridícula.

Comecei a rir sozinha feito uma idiota, destranquei a porta e deitei no sofá.
Estava quase pegando no sono quando a vizinha deu um grito estridente no corredor.

Tranquei a porta e me escondi embaixo da cama.

Ao vivo

16 de novembro de 2010

- E quando eu disser "três" pode abrir os olhos, não abra antes.
(Música tensa ao fundo, tambores rufando em sintonia com o descompassado coração)
- Um, dois eeee... TRÊS! ABRA OS OLHOS
(Música alegre ao fundo, cheia de acordes maiores, sons de sininhos, close na cara de tacho do dono da casa)
- [...]
- E aí, o que achou?
- Eu...
- Não diga agora! Repare bem em cada detalhe, olhe com atenção! O que achou?
- Ah...eu...
- NÃO DIGA AGORA! Olhe para a nova textura da parede, para o novo piso, os novos moveis, a sua nova casa. E então, o que achou?
- [...]
- Está sem palavras?
- Não, só estava me perguntando se você ia me deixar falar.
- Ah, claro, sinta-se em casa. Hahaha. Pegou? Pegou? Sinta-se em casa na SUA casa! Hahaha! Olhe para aquela câmera e diga com toda a sinceridade, o que achou da reforma maravilhosa que fizemos?
- Eu... eu acho que vou vomitar.
- Que Maravilha!! Ele disse que...peraí, o que você disse?
- Eu disse que vou vomitar. Isso está horrível!
- Como assim, horrível?
- Olha a cor da parede!
- Não gostou da cor da parede?
- É verde-catarro! Quem diabos pintaria uma parede de verde-catarro e teria a cara de pau de me perguntar se gostei?
- Bom, mas olha o sofá que luxo!
- Ele é laranja.
- Sim, moderno, bonito...
- Se tem uma cor que detesto mais que verde-catarro é laranja. As duas cores combinadas então...e, meu Deus, o que é isso?
- É uma poltrona. Ela é superconfortável e...
- Florida.
- Sim, florida, sua noiva vai adorar.
- Terminei meu noivado ontem.
- Ah, sinto muito.
- Ela não gostava nem de ganhar flores, imagina se ia gostar de uma poltrona florida!
- Bem, ótima oportunidade para procurar uma nova noiva, não? Uma que goste de flores...
- (choro)
- Querido, por que está chorando?
- Minha casa, vocês destruiram a minha casa! Cadê a minha TV?
- Ela está ali, sobre aquele móvel lindíssi...
- Eu gosto da minha TV do lado da lareira! Gosto de olhar pra TV e ver o reflexo do fogo, não quero minha TV sobre aquela mesa horrorosa que vocês colocaram ali, quero MINHA TV do lado do MEU fogo! (choro desesperado)
- Calma, você não gostou das mudanças que fizemos?
- (Choro) Nãããooo...
- Se trocarmos a cor da parede você vai ficar feliz?
- (Soluços) ...nãããooo...
- Ok, existe alguma outra mudança que a gente possa fazer que vai te deixar feliz?
- Além de sumir com o verde-catarro?
- Isso.
- E com esse sofá laranja?
- Isso.
- Quero minha casa como era antes!!!
- Isso é impossível, meu querido, sinto muito.
- Sente muito? SENTE MUITO? Não consigo nem olhar pra essa coisa horrorosa que vocês fizeram, pelamordedeus, como alguém pode se formar em Design e destruir a casa de um cidadão honesto que não faz mal a uma mosca?
- É a universidade brasileira, o MEC aprovando tudo que é curso em qualquer faculdade, aliás, uma faculdade mais vagabunda do que a outra, sabe como é...Não que esse seja o caso do nosso designer, imagina, ele é ótimo, aqui só tivemos um...choque de gostos.
- Choque de gostos? Você tem a pachorra de dizer que o problema aqui é só de mau gosto? Eu vou pegar esse microfone e enfiar no seu...
- Tive uma ideia!
- Ideia?
- Sim! Infelizmente não temos como alterar a reforma da casa, mas nossa emissora tem um outro programa que será perfeito pra você que agora está solteiro. Você será trancafiado em uma casa cheia de câmeras com 10 mulheres e um anão. Ficarão lá dentro se conhecendo, fazendo amizade, curtindo festinhas, nadando, se divertindo e sendo vigiados por todo o país. O que acha? No final das contas pode dar casamento...com uma das 10 mulheres ou com o anão, as opções são variadas!
- Bom...
- Oportunidade única, rapaz, outros matariam para ter essa chance.
- Acho que pode ser uma boa ideia...
- Boa? É ótima! Você ficará famoso...talvez não por muito tempo, mas tempo o suficiente pra ganhar um dinheirinho posando para a G Magazine...
- Só tenho uma pergunta a fazer.
- Pois não?
- Essa casa, cheia de câmeras...
- Sim?
- Tem paredes verde-catarro?

Uma história de ficção

7 de outubro de 2010

Vou contar uma história totalmente fictícia e improvável que não sai da minha cabeça.
Um dia, a Moça vai se despedir do amigo que está indo embora e acaba conhecendo um outro cara que vai ocupar o quarto vago. Um cara que não fala português, que veio de algum país frio...vamos chamar esse país fictício de Alemanha.
Ela tenta ser legal, diz que ele pode chamar caso precise, numa boa, sem rodeios.
Ele chama...às duas horas daquela madrugada.
Ela atende e, pacientemente, aguenta as cantadas, as tentativas de abraço, mesmo se sentindo ridícula. Tenta colocá-lo pra fora milhares de vezes, milhares, até que, simplesmente, abre a porta e diz algo educado como: "Get out now, I really need to sleep".
No dia seguinte, a mesma coisa.
Ela, de saco cheio, avisa as meninas que moram com ela sobre o cara, porque, nessa situação hipotética, a Moça mora com mais duas meninas.
As duas também são cantadas pelo alemão, até que decidem parar de atender a porta. Ninguém atende a porta, ninguém sai na sacada, ninguém deixa as janelas abertas para que ele não perceba que tem gente em casa, saem para a rua torcendo para não encontrá-lo nas escadas.
Até que um dia, esse alemão manda uma mensagem para a Moça num site de relacionamentos que aqui, por falta de nome mais apropriado, chamarei de facebook.
Nessa mensagem, ele diz ouvir uma "conversa" íntima da Moça com a respectiva namorada, e oferece ajuda, caso as duas precisem.
Ele sabe da namorada porque, tentando evitar uma aproximação, a Moça disse a ele no primeiro encontro que era comprometida com uma outra moça, enfim. Tudo ficção.
Após ler essa mensagem, a Moça perde o controle, manda o cara a merda em 15 idiomas e acredita que, dali para frente, ele vai entender como as coisas funcionam.

Tudo segue na santa paz por um mês, até que, numa noite, uma das meninas que mora com a Moça abre a porta sem ver quem batia e dá de cara com o alemão:
"Oi...a Moça...estar?"
"Não, a Moça não está."
"Eu precisar lavar minha roupa, se lavar à mão, não secar until sábado. Possow lavar aqui?"
A amiga, embasbacada, diz que não, que a Moça não estar, que ela estar para sair e que ele estar para dar o fora.
Cinco minutos depois essa amiga sai de casa. A Moça, lembrando-se de algo importante, sai na janela e grita esse algo importante para a amiga, que a essas horas, nessa situação hipotética, já estava na garagem.
Ela responde com uma voz estranha.
O que a Moça não sabia é que, quando gritou, sua amiga estava de frente para o alemão, que, na garagem, esperava por ela.
"A Moça não estar, right? Mentirosa!"
Dali em diante a porta voltou a ficar trancada, as janelas voltaram a ficar fechadas e ninguém mais saiu na varanda. Surgiu um medo estranho de aquele cara, de repente, aparecer com uma arma dando tiros a torto e a direita...pessoas estranhas sempre fazem coisas estranhas
É óbvio que tudo isso que contei não aconteceu, que pessoas que vêm de países frios não são tão intrusivas, jamais, mas, imagina se tivesse acontecido...
Acho que ninguém acreditaria.

Sensibilidade

23 de agosto de 2010

Ficaram trancados no quarto durante todo o final de semana, dois dias e duas noites inteiras. Saíam apenas pra comer e ir ao banheiro, depois voltavam e recomeçavam a brincadeira dos corpos, dos toques.
No domingo a noite, exaustos, resolveram que era hora de relaxar, descansar, acariciar as mãos em vez das nádegas, os cabelos em vez dos seios.
Nesse momento lindo ela sentiu algo forte e não se conteve:
"Eu te amo."

"..."

"Você ouviu? Eu disse que te amo."

"Ah...brigado."

"Brigado? Eu acabei de dizer que te amo e é só isso que você tem pra me dizer? Brigado?"

"...MUITO obrigado?"


Nunca mais se falaram.

Sono pesado

16 de agosto de 2010

Acordei depois de uma noite sem dormir, sentei na beirada da cama, procurei meus chinelos por todos os lados, e quando vi que eles voavam pelo teto percebi que estava sonhando. Acordei com a sensação de que a noite havia passado em quinze minutos, levantei na manhã morna, tomei um banho gelado, e fiz um estrago tentando agarrar a xícara de café quente que caiu da pia quando esbarrei pra pegar um bolinho. Senti minha mão queimar com o café e acordei na cama, deitado sobre a mão que na verdade formigava. Olhei no relógio e estava atrasado para o trabalho. Saí correndo feito louco, tropeçando na cama, na porta, no cachorro. Peguei o ônibus vazio, sentei e fechei os olhos, foi quando percebi que nenhum ônibus naquele horário estaria normalmente vazio e que eu não tinha cachorro para tropeçar. Acordei assustado com o toque do celular. Era meu chefe que estava ligando para me demitir por ter faltado três dias seguidos na firma. Comecei a chorar feito criança e ouvi ele me dizer que era para parar de ser maricas e seguir a minha vida. Dei um grito de desespero. Acordei novamente com o celular. Sentei na cama, me belisquei algumas vezes pra tentar acordar e não aconteceu nada. Atendi o celular e era meu chefe, dizendo que eu ia ser promovido pelo meu trabalho das últimas duas semanas. Achei que aquilo também já era demais. Mandei meu chefe a merda e desliguei o telefone.
Esperei.
Continuei esperando.
Dei um grito alto e forte que fez meu vizinho do apartamento de baixo pegar uma vassoura e bater no próprio teto para que eu parasse. Fui até a sala e não havia cachorro. Olhei pela janela e o movimento da rua era caótico. Me belisquei feito um doido e nada aconteceu.
Liguei para o meu chefe e ele não atendeu.
Liguei cinco vezes. Nada.
Sentei na cama. Nada.
Deitei na cama. Nada.
Fechei os olhos com bastante força pra tentar acordar de verdade. Nada.
Foi quando entendi porque minha mãe dizia que dormir de barriga cheia podia fazer mal.

Engraçadinha

8 de junho de 2010

- ...Blablablablablablablablablablablablabla
blablablablablablablablablablablablablabla
blablablablablablablablablablablablablabla
blablablablablablablablablablablablablabla
blablablablablablablablablablablablablabla
blablablablablablablablablablablablablabla
blablablablablablablablablablablablablabla
blablablablablablablablablablablablablabla
blablablablablablablablablablablablablabla
blabla do Apocalipse. O que acha, Cristina?
- Oi?
- O que você acha?
- Ah...desculpa professora, poderia repetir a pergunta completa? Não ouvi direito.
- O que você acha da teoria de Nostradamus sobre o Apocalipse?
- Acho o fim do mundo!
Deu uma risadinha enquanto o resto da sala gargalhava, pegou a mochila e foi embora, deixando a professora com um giz na mão, o olhar perdido e a dúvida se daria a ela um 10 pela criatividade ou um 0, pelo mesmo motivo.

"... Mas vou até o fim"

31 de maio de 2010

Acordou num hospital sabendo que podia definir de várias formas, mas que só sendo bem direta explicaria a agústia que sentia naquele momento: a vida dela era uma merda.
Nasceu feia, careca e banguela como todos os outros bebês, mas sujava mais fraldas do que os outros, como sua mãe insistia em relembrar trinta e cinco anos depois.
Na escola não se dava bem com matemática, física, biologia, química, português...não se dava bem com nada, na verdade, e não por falta de arroz e feijão como sugeriu uma das professoras do primário.
Com muito esforço terminou a escola. Queria estudar arquitetura.
Não passou.
Prestou Design.
Não passou.
Artes.
Não passou.
Então decidiu prestar algum concurso público, mas também não passou.
Foi trabalhar na empresa do pai. Ela não queria ser fabricante de fraldas geriátricas, mas o salário compensava.
Sempre gostou de esportes. Era gandula de futsal, muito baixinha pra vôlei e basquete, muito gordinha pra correr maratona. Torcia pelo Rubinho na Fórmula 1. Para o futebol carioca no campeonato brasileiro.
Os dois namorados que teve na vida a trocaram por sua prima e sua mãe, respectivamente. O que, claro, causou o fim do casamento dos pais e o fim do namoro, ao mesmo tempo.
Começou a beber pra afogar as mágoas e em dois meses desenvolveu uma úlcera digna de cirurgia.
Teve de vender o Chevette pra pagar a cirurgia.
Sofreu na recuperação.
Voltando do hospital o ônibus onde ela estava bateu num poste no canteiro central de uma avenida movimentada. Ninguém se machucou.
Só ela, que quebrou a perna.
De saco cheio foi pra casa, pegou o revólver que o pai escondia numa gaveta pra caso a ex-mulher resolvesse aparecer de novo, carregou, apontou pra cabeça e atirou...
Acordou num hospital sabendo que podia definir de várias formas, mas que só sendo bem direta explicaria a agústia que sentia naquele momento:
A vida dela era realmente uma merda.

Atitude

30 de abril de 2010

Pisou na escola pela primeira vez ao 33 anos. Muda, filha de boias-frias que se mudaram para São Paulo em busca de uma vida melhor, nunca havia tido a oportunidade de estudar, nem o incentivo, de maneira que também não sentia a necessidade de conhecer as letras, as palavras. Os números conhecia, havia lidado com eles a vida toda: tantos alqueires de terra, a hora do almoço, os centavos de cruzeiro no fim de cada dia.
Aos 23 anos, cansada daquela vida, subiu na boleia de um caminhão e deixou os pais. Acabou por se casar com o caminhoneiro um ano depois.
Se comunicavam como era possível, quase sempre com olhares e sinais, mas, após alguns anos, como acontece com a maioria dos casais, a comunicação foi ficando difícil. Foi quando decidiu entrar pra escola. Colocou na cabeça que, se soubesse escrever teria a chance de dizer o que precisava para salvar o casamento.
Foram dois anos de muito esforço, aprendendo as letras, as estruturas da língua.
Um dia, sentindo-se preparada para bater de frente com o marido caso fosse necessário, pegou um papel e escreveu com letras infantis: "Você não mora sozinho. Abaixe a merda do assento da privada, não jogue as cuecas no chão e me procure na cama. Sou muda, não cega ou frígida."
Foram felizes para sempre.

Sobre o dia em que o mundo acabou

19 de abril de 2010

Dirigia tranquilamente na Marginal Tie...não, peraí, vamos deixar esse texto mais verídico.
Estava há horas parado tranquilamente no familiar congestionamento das seis horas da tarde na Marginal Tietê, vidros fechados, blindados, retrovisor direito virado para dentro pra evitar que fosse arrancado pelos motoqueiros, como tinha acontecido com o esquerdo, quando gritos mais altos do que as buzinas o tiraram do transe gerado pela música que tocava no rádio. Olhou pra frente e viu as pessoas saindo do carro, olhando pra cima e correndo pra todas as direções.
Primeiro achou que fosse um arrastão, mas então viu que ninguém tentava roubar os carros que estavam sendo abandonados.
Abriu a porta, olhou pra cima e quase caiu duro pra trás.
O céu estava cor-de-rosa, bem diferente da típica e natural cor vermelha do céu noturno paulistano.
Um raio azul, seguido de um trovão ensurdecedor, cortou o céu, dando início a uma chuva incessante, não de água ou de fogo, como descrito no Apocalipse, mas de canivetes.
Era, de fato, o fim do mundo.
Entrou de novo no carro, em partes por não saber o que fazer, em partes para fugir dos canivetes.
O grande momento, tão profetizado, havia chegado. E ele estava ali, no trânsito. Não sabia quanto tempo de vida ainda tinha e decidiu pensar no que fazer naquele momento tão decisivo.
Pegou o celular pra ligar para esposa, para a sogra, para o cunhado. Percebeu que não queria falar com ninguém naquele momento. E nem que quisesse, não havia sinal pra ligar pra ninguém.
Ele podia sair correndo, dando risada como um louco e fugindo como desse dos canivetes, que agora caiam com tanta força que começavam a perfurar a lataria do carro.
Podia procurar uma igreja, havia tantas, com certeza encontraria alguma ali perto. Mas ele nunca tinha sido religioso e, colocando-se no lugar de Deus, se ele existisse mesmo, não daria bola pra um sujeito que só acreditava nele na última hora.
Pensou em pular no rio Tietê, dar uma nadadinha, improvisar um borboleta, como fazia quando era garoto pra impressionar as meninas, mas percebeu que aquilo seria mais mortal do que ficar deitado no chão com a chuva de canivetes.
Podia também fechar os olhos e esperar. O que, convenhamos, não teria a menor graça.
A cabeça estava a mil e demorou um tempo pra que ele percebesse que a chuva de canivetes havia parado. Olhou para o céu e viu que estava negro e cheio de estrelas, saiu do carro louco de felicidade, subiu no capô e gritou pra comemorar a vida. A partir daquele momento ele ia cuidar melhor da família se a família ainda existisse, ia diminuir o ritmo de trabalho, beber menos, parar de fumar, ia até fazer exercícios e trocar o açúcar por adoçante, isso ele prometia, prometia com uma fé que nunca havia tido, pra Deus, pra esposa que talvez estivesse viva, pra ele mesmo, prometia até para os canivetes.
Foi nesse auge de extrema alegria que “PUF”
O mundo explodiu.