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Fragmentos

2 de agosto de 2018

Quantos anos se passaram? 2? 10? 17?
Caminho sobre este chão que já conheço.
As folhas mudaram? Parecem as mesmas. Assim como as patas-de-vaca, os santos e o nosso canto secreto.
Recolho fragmentos de memória nos quais você está presente... O primeiro dia de aula da minha vida. O primeiro amor da minha vida.
Temos quantos anos? 5? 7? 17?
Quando deixamos de nos ver todos os dias?
Engraçado, os cheiros também são os mesmos. Pinheiro, mato, merenda, sala de aula.
Não sei por que esse ímpeto de vir até aqui. Quando vi, já corria sobre as folhas mortas umedecidas pela chuva.
Não pergunto o porquê do que aconteceu - meu curto tempo nesta vida já deixou claro que de justa a vida nada tem - então, me permito sentir a tristeza pela sua ausência.
Te vejo em cada canto e guardo comigo o carinho da sua última mensagem parabenizando meu irmão.
Obrigada por ter sido meu primeiro amigo.
De você, ficou aqui dentro a luz.

Sinta-se

2 de fevereiro de 2016


Primeiro escreveu um texto imenso sem pontuação alguma sem espaços ou qualquer sinal de parada porque não havia nada parado ali dentro apenas uma vontade incontrolável de despejar ideias negativas ruins sem nexo mas cheias de sentimento desesperado e vontade de chorar GRITAR e mandar meio mundo à merda. Não. Ninguém pode se encontrar em meio a tanto caos.

Então apagou.

Tentou de novo. Respirou fundo e foi escrevendo o que sentia. Usou pontos finais. Leu tudo depois. Viu. Que. Os. Pontos. Não. Faziam. Sentido. Sentiu-se presa entre pontos finais e sua capacidade invejável de concluir as ideias. Limitar. Os limites são um problema. Os limites são o problema.

Então apagou.

Pegou um espelhinho... Olhou-se e não se viu... Mirou os olhos vazios por horas e sentiu a queimação no estômago. Queria parar. Arrancar a gastrite com a mão. Equilibrar as barras, vírgulas, uma caralhada de travessões que a comprimiam, pontos finais que a restringiam e vontades condenáveis de ser reticente quando tudo que a obrigavam a fazer era ser exata. Seca. Pontual. Queria berrar, essa é que era a verdade. Permitir-se o inadmissível, mergulhar na escuridão na esperança de que, ao não ver mais nada e nem ninguém, conseguisse finalmente se enxergar. Mas não berrou. Não mergulhou. Não se viu. Leu o que tinha escrito e teve medo de expor o que não devia.


Então apagou.

Psicose

25 de novembro de 2013

Vejo-me de fora e há um breu. Só eu estou iluminada, mas por uma luz tão triste quanto eu.
Ouço vozes, sinto pessoas à minha volta, mas não vejo nada.
Busco ajuda e, quando encontro, tenho medo.
O medo me consome.
Abraço alguém que me toca de forma diferente de todos os outros. É confortável. E justamente por ser assim, não pode ser real. O conforto é uma mentira. Afasto-me porque prefiro o peso da realidade à mais uma vida de mentiras confortáveis. Braços agarram meus braços. Mexo as pernas em desespero. tento me prender a algo para que meus braços se libertem. Quando finalmente firmo os pés, outras mãos os puxam. Meu braços, no entanto, continuam presos. Meu corpo estica. Sinto minha barriga se abrir, o coração se partir e as vísceras saírem, revelando o que antes era só meu, o que eu guardava de mais feio, nojento e humano.
O silêncio toma conta do ambiente, mas minha mente grita.
Quero abrir os olhos, eu preciso abrir os olhos. Tiro a venda e fico ainda ainda mais cega.
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
A cegueira se transforma em consciência momentânea, em um instante de claridade antes da noite eterna.
Por que você acreditava em mim naquela hora e agora não?

Por favor, por favor, por favor, por favor, POR FAVOR

Abra as cortinas!


Ferida

27 de setembro de 2012

Quando menos esperava, a ferida se abriu.
Dolorida, fétida e incrivelmente profunda.
Revelou-se diante de todos, sangrando sob o curativo aparentemente limpo.
A princípio, olhou pasmo enquanto ela sangrava e extravasava pus, para depois, passado o susto, tentar fechá-la novamente. Cada palavra doce ardia como álcool e cada tentativa de limpeza como provocação. Empapava de sangue panos e mais panos. A dor era tanta que cogitou arrancar de uma vez o membro ferido, tirar a parte que doía, ir pelo caminho mais fácil, por mais que isso lhe custasse uma parte do corpo que, se não vital, era fundamental em suas ações.
Optou por esperar. Manteve a ferida aberta e exposta para que dela saísse tudo de ruim que havia no corpo. Quando sentiu que já era suficiente, limpou-a cuidadosamente com iodo. Sem anestesia, costurou-a. A dor insuportável lhe deu a sensação de cura. Cobriu-a com uma gaze limpa e a fechou, agarrando-se, inseguro, à esperança de que ela nunca voltasse a se abrir.

Só

6 de fevereiro de 2012

Soltou um suspiro e se virou de lado, parte inconformada, parte decepcionada.
Não acreditava em como tinha sido ruim.
Como era possível?
Antes da cama, havia química, humor, carinho, atenção, tesão. Amor não, isso nem interessava a ela naquele momento, mas tinha todo o resto.
E agora...
Agora nada.
Horas antes, havia dito a ele - com carinha de safada - que estaria livre naquela noite.
Ele respondeu um "Ah, ok" que poderia ter servido de aviso do que iria acontecer.
Mas ela preferiu fingir que via alguma empolgação nos olhos dele, ali, escondidinha atrás do cansaço e da indiferença. Agora tinha a impressão de que, na tentativa de parecer sensual, tinha se oferecido demais.
Não dava pra saber o que dava mais raiva, se a decepção da experiência ou a insegurança em relação a si mesma.
Em sua cabeça, uma frase de desenho animado ecoava: "Eles vêm, comem e vão embora. Eles vêm, comem e vão embora". Não se lembrava nem do desenho, nem do contexto de onde isso havia saído - assistia muitos desenhos com o sobrinho de dois anos - mas se lembrava de uma formiga repetindo a frase como um mantra, encolhida de pavor.
Eles chegaram na casa dele, beberam uma taça de vinho, meio sem jeito se beijaram e se empurraram até  a cama, atrapalharam-se na hora de tirar as roupas e pá, pá, pá.
Ele gozou e foi correndo pra sala pra atender o telefone que insistentemente tocou durante os cinco minutos de sexo.
Ela ficou lá. Semi-nua e com frio.
Suspirou e se virou de lado. Sentindo que ia chorar se levantou, pôs a roupa e ficou esperando ele voltar da sala.
Ele vem, come e vai embora.
E ela?
Ela fica sozinha.



Inspirado na música Sexo (Zélia Duncan)

Oração

13 de dezembro de 2011

Queria falar, mas minhas palavras eram de ódio.
Ódio de Deus, da medicina falha, do próprio corpo humano.
Então chorei.
Chorei rios e mares. A água saía de mim e me ensopava por fora na tentativa de desafogar o que transbordava por dentro.
Ódio.
Ódio que de tão palpável poderia até ser sólido.
Mas não era sólido, era líquido.
Líquido, denso, cinzento. E me afogava.
Tive vontade de sair na rua e gritar por justiça. Berrar perguntando o Por Que. Por que com ela? Por que?
Mas achei melhor rezar baixinho.
Uma reza que escorresse dos olhos e, humilde, implorasse piedade e cura se essa fosse a Sua vontade.
Queria xingar a maldita doença.
Mas nem isso fiz, com medo.
Após o ataque de choro, o medo me consumiu e acabou por tomar o lugar do ódio.
Tornei-me só medo. Medo inteira.
Maldito medo que, apesar de exalado por todos os poros, não escorre, não desafoga, não alivia.
Quando olhei pra ela, decidi respirar fundo, entreabrir espaço no peito apertado, caçar ali dentro um sorriso perdido e me prender a ele com todas as forças.
Restavam poucas, é verdade, mas suficientes para manter o sorriso diante dela.
Maldita doença que faz o corpo se virar contra ele mesmo.
Ela sabe o quanto terá de lutar. Ela sabe o quanto corre riscos. Ela, melhor que ninguém, sabe que pode não sobreviver.
Ela não precisa de alguém que a lembre disso a cada minuto.
Por isso, não terei pena. De mim ela terá todo o amor do mundo, terá sempre luz, fé, reza e braços fortes.
Se nesse momento os braços são mais fortes que o coração, que sejam eles o apoio então.

É com você que eu estou falando.
Você aí que sempre me ouve quando rezo a noite para agradecer e pedir proteção.
Por favor, ouça esse pedido.
Que eu seja instrumento de luta e superação.
Que eu seja fortaleza pra ela se esconder nos meus braços.
Que eu seja mais que uma menina frágil diante de um obstáculo grande demais.
Que eu seja, enfim, o que ela precisar.
Hoje e sempre.

Agora falando sério

31 de agosto de 2011

Ontem tropecei num homem.
Um mendigo.
Ele não pulou na minha frente pedindo dinheiro, como muitos fazem.
Não.
Ele estava lá. Deitado.
Dormindo no chão gelado, coberto por um pano imundo, moscas e bolinhas de isopor.
Alguém provavelmente cortou isopor ali perto e o vento carregou as bolinhas pra cima do mendigo.
Mas eu não reparei em nada disso até tropeçar nele.
Lembro-me bem de que, quando cheguei a São Paulo, me assustava com os mendigos a cada esquina que virava. Aliás, não precisava virar esquina nenhuma, eu moro no Largo Santa Cecília, há mendigos por todos os lados pedindo dinheiro pra quem sai do metrô.
Crianças. As crianças eram as que mais me impressionavam.
Imundas, fedorentas, drogadas, largadas no chão.
E as pessoas passavam por elas como se não existissem.
Quando cheguei, tinha ódio desses paulistanos sem coração. Ódio.
Como podiam não notar que havia uma criança jogada no chão?
Como podiam não sentir o cheiro, passar indiferentes diante de tanto sofrimento?
Ontem eu tropecei num mendigo.
Saindo do trabalho, preocupada demais com o que ia beber à noite, distraída demais com a música que ouvia, avoada demais com tantas coisas tão importantes.
Tão importantes que fecharam meus olhos pra um homem que dormia no meu caminho.
Quem mora nessa terra doida que é São Paulo sabe que se for se comover com todos os mendigos que encontra, vai passar todos os segundos da vida comovido.
O paulistano precisa de certa indiferença pra sair de casa.
Mas não pode ser totalmente indiferente.
Ontem eu TROPECEI num mendigo.
Ele não acordou.
Mas eu sim.
E me peguei parada olhando pro teto, horas depois, morrendo de vergonha, lembrando do pano imundo, das moscas e das bolinhas de isopor e me perguntando em que momento exatamente meu coração interiorano tinha endurecido tanto.

Apenas começamos.

17 de agosto de 2011

Algumas pessoas não precisam de muito pra se tornarem especiais.
Não precisam estar sempre presentes
Não precisam ligar todos os dias.
Não precisam chamar pra festas.
Não precisam de nada disso.
Algumas pessoas, aliás, não se tornam especiais.
São.
Simples assim.
Num mundo hipotético e justo, essas pessoas viveriam pra sempre, ou, se não vivessem pra sempre, chegariam pelo menos até os 100 anos. E ainda assim seria pouco tempo.
Num mundo hipotético e justo, pessoas boas não morreriam aos 24 anos.
Mas o mundo não é justo.
Mais que não ser justo, aliás, é injusto. Injustíssimo.
Hoje, um rapaz cuja música, sorriso e olhar tive o prazer de conhecer, deixa esse mundo injusto e segue em direção ao paraíso no qual sempre acreditou.
Se eu acredito nesse paraíso?
Com todas as minhas forças.
Se não por mim, por ele.
A vida, mais uma vez, se prova curta demais.
Assim como a morte se prova incompreensível.
Aproveita o paraíso, companheiro.
Deixe o violão a postos, a garganta aquecida e o sorriso tinindo.
Foi assim que sempre te encontrei.
É assim que quero te encontrar quando me juntar a você.


"É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora cedo demais"


Em homenagem a Flávio Periotto.
Músico, amigo, anjo.

Presente

12 de julho de 2011

Um dia você surgiu.
Já fazia parte da minha vida há anos, mas foi como se estivesse te conhecendo naquele momento.
Não sei como nem porque abri meus olhos e meu corpo pra você. E só Deus sabe o quanto tive que me controlar pra não abrir demais o espírito também.
Intocável - mas eu estava ali, contigo.
Impossível - mas eu estava ali, vivendo.
Errado - mas eu estava ali, fazendo algo do qual nunca vou me arrepender.
Podem ter se passado segundos, meses, anos, séculos. Quem se importa?
A força ainda é a mesma.
E se milhares de empecilhos monstruosamente grandes hoje te tornam novamente intocável, novamente impossível e ressaltam o quão errada é nossa proximidade, saiba que nada dentro de mim mudou.
Nada.
O amor não muda.
Chamo de amor porque isso é lindo demais pra ter outro nome.
E é diferente de qualquer coisa que já senti.
Não menor, nem sei se maior, mas com certeza muito diferente de todo o resto.
E isso que sinto vai seguir comigo a cada novo gesto de carinho e atenção, a cada toque que lembre remotamente o seu.
Porque daqui por diante tudo será sombra do que você é.
Do que você É.

Sempre, pra sempre, no presente.

Todo o Sentimento

14 de junho de 2011

Sentada no chão frio, conferindo o relógio a cada cinco minutos, olho para a rua e espero. O vento frio incomoda, mas não o suficiente para desviar minha atenção - o que é uma pena.

Ao meu lado, um amigo fala que é bobagem esperar, que ele não virá, não será homem o suficiente para deixar a namorada e aparecer no último segundo de minha estadia na cidade.
Ele não vai dizer o que ficou tão óbvio em seus olhos, em suas atitudes.
Ele me quer.
Não pode, não deve querer, mas me quer.
E quer com tanta intensidade que faz com que eu espere aqui, do lado de fora, no estacionamento do prédio, sabendo que ele não virá.

Passa um carro, outro, mais um, uma moto, um gato, dois caras estranhos, uma menina sozinha, outro carro, outra moto, mais uma, um cachorro, passa todo tipo de gente na rua, o mundo na minha frente.

O mundo menos ele.

Duas horas depois, me levanto. Meu amigo me abraça.
Abro o portão, ainda esperando algum som da rua. Quando ele está se fechando às minhas costas, escuto.

Paro abruptamente.

Vejo tudo em câmera lenta, sinto tudo em câmera lenta. Um calafrio me percorre a espinha. Fecho os olhos assustados e me viro.

Se fosse um conto de fadas, ele estaria ali. Sorrindo, me olhando, de braços abertos.

Mas quando abro os olhos não vejo ninguém.

Vou embora no dia seguinte, lembrando do que queria ter vivido, sentindo falta do que não aconteceu, chorando copiosamente e tentando me lembrar do começo de um amor que, na verdade, só teve fim.

TNT

11 de março de 2011

Ingredientes:

- 1 peça grande de lagarto
- 2 Cenouras
- Bacon (a gosto)
- Brócolis
- Óleo de girassol
- Um dente de alho
- Uma cebola grande
- Caldo de carne (de preferência, natural)
- 5 Tomates pelados
- Cheiro verde
- Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo:

Com uma faca grande e bem afiada, abra a peça de lagarto em manta.

Tempere com sal e pimenta a gosto.

Corte as cenouras em tirinhas, faça o mesmo com o bacon.

Coloque o bacon, a cenoura e o brócolis sobre toda a manta e vá, cuidadosamente, enrolando a carne, como um rocambole.

Usando uma linha de pesca ou um barbante, amarre a carne para evitar que ela se abra durante o cozimento.

Numa panela de pressão grande, coloque óleo, alho e cebola picados e refogue.

Quando a cebola estiver dourada, coloque o rolo de carne na panela.

Vire o rocambole a cada 10 minutos. Todos os lados precisam ficar bem corados.

Adicione o caldo de carne. Se necessário, complete com água até cobrir toda a peça.

Pique os tomates, o cheiro verde e reserve.

Depois de 15 minutos, tire a pressão da panela, adicione os tomates e coloque novamente na pressão.

Espere mais meia hora, tire novamente a pressão, adicione o cheiro verde e coloque novamente na pressão.

Após 5 minutos, tire a pressão, adicione um filé de merluza e um chili vermelho com as sementes.

Você também pode colocar fatias de pão de fôrma.

Mais dois minutos de pressão.

Coloque a panela na água para que a pressão saia rapidamente.

Adicione coentro (a gosto), alecrim, três folhinhas de hortelã, um rolo de barbante, a faca com a qual cortou a carne, um computar com Windows, de preferência o Vista, um celular, mais cebola, mais alho e coloque novamente na pressão.

Chame alguém de quem você gosta muito pra saborear o prato, mas não apague o fogo.

Com a indicação de que o fogo não deve ser apagado e de que você volta num segundo, deixe a pessoa cuidando da panela de pressão enquanto você sai e vai passear no shopping.

Volte 2 horas depois e, SE possível, limpe toda a sujeira.


Agora, me diga. Se ingredientes inesperados entrassem aos poucos no meio da pressão do dia-a-dia e você precisasse fazer algo parecido para se sentir melhor, sinceramente, faria?

Fim

27 de outubro de 2010

Nada.
Foi o que senti ao te olhar entrando pela porta.
De Nada.
Era a minha vontade diante de suas perguntas sobre o meu dia.
Absolutamente Nada.
Foi o que vi nos seus olhos quando disse que não queria mais esperar nada de você.
Assim como nada senti quando você me abraçou, nem vontade de sorrir, nem de chorar, nem mesmo de abraçar, nem nada.
Com os olhos mareados te vi ir embora e cruzar a rua. Microminimalíssima prova de que havia um coração aqui dentro. Rascunho de lágrimas que desapareceu com você na esquina e deu lugar a...nada.
Nadessíssima de nada.
Nada além do vazio deixado pelo Tudo que você tinha sido.

Inspirado num sentimento que vem Do fundo do mar e da alma

"Você me abre seus braços e a gente faz um país"

11 de abril de 2010

Cinquenta e quatro dias, foi o tempo que demorou pra que a ficha caísse.
Não chorei no avião voltando pra casa,
não chorei quando vi minha família,
não chorei quando voltei pra Rio Preto e tive um tempo sozinha pra pensar,
não chorei quando fui pra faculdade,
não chorei contando as histórias de Santiago, repetidas vezes, pra milhares de pessoas.
Não chorei nem olhando as fotos.

Chorei hoje.

Hoje, quando pessoas que conheci lá, e que vieram conhecer a cidade, foram embora.
Hoje, quando meu amigo italiano me abraçou e disse "Hasta pronto", e senti pela primeira vez que provavelmente o "pronto" não será tão "pronto" assim...talvez nunca exista. E, se existir, existirá mais uma vez, ou duas.

Ele me abraçou, entrou no carro. Eu virei de costas e fui andando. Pra minha casa. Não olhei pra trás, não acenei, e senti um nó na garganta que nem meu último dia em Santiago me deu.
Meu amigo é a representação de tudo o que eu vivi e não vivo mais.
É a representação dos melhores meses da minha vida.
É a representação da fugacidade do tempo e da minha mania besta de olhar pras pessoas como se fosse a última vez.
Talvez, dessa vez, seja mesmo.

Uma homenagem pra me lembrar do abraço que agora me faz falta

17 de julho de 2009

Normalmente sou bem tranquila, mas me irrito muito quando crio uma expectativa a respeito de uma pessoa e, de repente, me frustro.
Principalmente porque evito criar expectativas.
Quando crio é porque aquela pessoa realmente me surpreendeu em algum momento.
Rezo toda noite pedindo paz, sabedoria... Mas teve dias que rezei pedindo, pra quem quer que estivesse escutando, que me desse menos cabeça e mais atitude de uma criança de 21 anos.
As pessoas olham pra mim esperando que eu seja uma criança... Não seria mal, só pra variar, que tivessem o que esperam.
A partir dos meus 14 anos vivi tanto, tão intensamente, e cometi tantos erros - alguns idiotas, outros sérios - e aprendi tanto com eles que simplesmente me vejo diferente da grande maioria das pessoas da minha idade. Pior. Encontro pessoas mais velhas que são tão inseguras que são dignas de pena.
Sempre me envolvi com pessoas mais velhas. Estou me referindo a relacionamentos amorosos. Um ex namorado costumava me perguntar o motivo disso, e eu sempre dizia que gostava de pessoas com mais cabeça... Mordi a língua, não uma vez, nem duas. O maior exemplo disso é um grande amigo meu, um cara que conheci há mais ou menos 3 anos e por quem já fui muito apaixonada (talvez ainda seja, de certa forma). Ele tem 20 anos, fez há alguns meses, e é mais adulto do que todas as pessoas com quem já me envolvi. Com ele não preciso ser a mãe, a conselheira, sou só eu. Eu mesma.
Toda vez que me frustro com alguém, como aconteceu hoje, fico me perguntando, "Por que não encontro alguém como o Bruno, só pra variar?".
Mas, não. Seria fácil demais e eu ainda tenho bastante abacaxi pra descascar. Só vivi 21 anos... Tenho muito o que aprender. Talvez a errada, a digna de pena, seja eu.
Talvez.
É na possibilidade oposta que me apego para seguir em frente.

Sabe, eu só queria um abraço.

Luz

29 de junho de 2009

Tantas luzinhas, tanto movimento, tanta vida lá fora e eu há cinco horas aqui dentro desse ônibus.
Já li meu Veríssimo, assisti a um filme desses de Sessão da Tarde que insistem em colocar na TV (dublado e com legenda), já ouvi música, e então me peguei pensando na vida com o olhar perdido.
O mundo nos obriga a correr tanto que chega a dar medo de parar pra pensar na gente. Dá medo de perceber que só tenho feito besteiras, porque um erro consciente é muito mais sério que um inocente...
Melhor não pensar.
Confesso meu medo de pensar e pronto!
As luzinhas na janela chamam os meus olhos que lembram à minha mente das minhas atitudes...


Melhor fechar os olhos e dormir.

Medo

26 de maio de 2009

Não sei por onde começar.
Só sei o que sinto.
E nem nome sei dar para essa dor esquisita que agora me toma...
Ciúmes? Não, com certeza não.
Inveja? Acho que não também. Não há o que ser invejado.
O que seria então?
Num momento em que tudo está dando certo, todas as pessoas que amo estão perto de mim, me vem essa sensação terrível de solidão. Sem mais nem menos. Essa carência sem sentido que escondo com tanta facilidade, talvez por prever que sentiria, talvez por já ter sentido tantas vezes que nem mesmo perceba a mentira num primeiro momento.
Eu só quero ser feliz.
Ninguém entende isso.
Já vi pessoas me apontarem como exemplo de alegria, de riso, de otimismo...
Nunca encontrei ninguém que me entendesse de verdade.
Já contei segredos para centenas de rostos, desde a velhinha no ônibus até aqueles que chamo de melhores entre os amigos.
Nunca me abri por inteiro com ninguém. Nem acho que alguém de fato deseje que eu me abra tanto.
Já me apaixonei perdidamente a ponto de dizer que morreria por aquela pessoa.
Nunca me apaixonei por ninguém por quem morreria de verdade.
Já magoei muito algumas pessoas.
Nunca quis magoar ninguém...não...eu quis sim, uma vez. E magoei todos à volta dessa pessoa, menos a própria.

E nunca quis mentir.

Mas tem coisas que simplesmente surgem na minha boca. Palavras que não são minhas, mas são ditas com a minha voz. E quando percebo já falei. Muitas coisas no mundo são mutáveis, podem ser refeitas, mas as palavras... As palavras quando saem da boca não voltam mais, e há sempre ouvidos atentos e dedos esticados em nossa direção.

Eu erro. Erro muito.

Minha principal qualidade, muito mais valiosa que meu sorriso amarelo, é saber disso.

Não me aponte na rua! Não ria de mim! Não se sinta superior ou inferior a mim! Não fale dos meus defeitos sem olhar para o próprio umbigo! Não fale mal da minha família! Não me acorde quando eu estiver dormindo! Não fale mal dos meus amigos! Não me trate como uma criança, pois qualquer pessoa que tiver maturidade suficiente para me tratar dessa forma não o fará justamente por ter maturidade! Não seja ridículo! Não tente me fazer inveja! Não tente me colocar para baixo porque tenho uma base muito sólida e qualquer tentativa nesse sentido será inútil! Não me pergunte “o que eu tenho” quando não estiver sorrindo. Se eu quiser dizer o que tenho já vou chegar contando! Não me deixe só!

Eis que chego o mais próxima possível do que conheço como tristeza. Nada que um abraço inocente de alguém que realmente me ama não resolva.
Procuro em volta, mas não há ninguém.

ET, TELEFONE, CASA!

10 de fevereiro de 2008

Nunca me preocupei com vida fora da Terra, espíritos, etc. As vezes me pego discutindo com alguém sobre esses assuntos, mas são discussões vazias, apenas repetições escrotas do que já ouvi em outros discursos. Não me preocupo por vários motivos: primeiramente porque sei que pensar nisso não vai me trazer qualquer tipo de conhecimento diferente daquele que já possuo (o qual, no caso, pode entender-se como nenhum). Segundamente - e me perdoem essa invenção babaca e sem necessidade - não discuto porque minhas preocupações são outras, muito mais reais, importantes e mesquinhas. Fodam-se os ETs, quero pensar só na minha vida...talvez isso seja um erro...talvez não...foda-se também.
Outro dia eu estava pensando justamente na minha vida, nas minhas vontades. Desde pequena eu tenho uma certa fascinação pela atuação. Eis uma revelação que nunca fiz a ninguém, sempre quis ser atriz. Nunca fui atrás disso, nunca participei sequer de teatros na escola, e não porque eu não tenha talento (penso inclusive que tenho), acho que nunca fui atrás desse sonho por preguiça. Ê, preguiça, que destrói tudo...
É engraçado, acho que essa paixão pelo teatro é tão grande em mim porque sempre tive vontade de ser outra pessoa, alguém importante...acho que só me contentaria comigo mesma se conseguisse fazer algo tão notavelmente importante que as pessoas quisessem, simplesmente, ser eu.
Fama...ser famosa por algo bom e importante. A única coisa que eu queria, no fundo, era morrer e ser lembrada...
Engraçado pensar na morte quando se tem 19 anos...
Enfim, esse papo já está ficando muito louco e sem sentido. Vamos falar de ETs...

ATENÇÃO

27 de janeiro de 2008

TUDO É PERIGOSO
TUDO É DIVINO, MARAVILHOSO

É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE
NÃO TEMOS TEMPO DE TEMER A MORTE

É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE
NÃO TEMOS TEMPO DE TEMER A MORTE

NAO TEMOS TEMPO...

NÃO...

TEMP...

=´(

"Isso não é coisa de Deus, meu filho, é coisa do homem"

16 de janeiro de 2008

- Fala mãe, tudo bem?
- não (choro)
Forte dor no estômago, fraqueza nas pernas, sensação de já ter sentido aquilo antes
- que foi? (minha vó, meu Deus, minha avó!)
- aconteceu uma coisa terrível...
- que foi? (choro)
- um acidente , seu tio
Incompreensão absurda, pessoas sumindo à sua volta, dor no peito, lágrimas
- como aconteceu?
- não sei, vamos passar aí pra te pegar
Deliga o telefone
- O QUE FOI? O QUE FOI?
pessoas voltam a aparecer. Parecem preocupadas, e é só isso que ela sabe sobre essas pessoas...estão preocupadas...será que elas não perceberam como tudo mudou de repente?
- Meu tio...preciso ir pra casa...agora
Um braço muito amigo abraça tentando confortar, mas não consegue.
Ela ainda tem que esperar um tempo pra ir pra casa...pensar na dor torna tudo tão absurdo que ela prefere não pensar.
Quando finalmente chega em casa, as pessoas já sabem do ocorrido.
Ela preferia que eles ficassem em silêncio...pior é ouvir: "ele era tão novo"...ela ainda ouviria isso por alguns meses. E ainda se sentia culpada de ficar tão triste, ela tinha que ser forte, pra ajudar a tia e os primos...a dor dela não era nada perto da deles. Ela nem imaginava o que era a dor deles.
Seus pais chegaram.
Viagem silenciosa.
Os irmãos dormiram, só quando ela também fechou os olhos ouviu o choro do pai...eram como irmãos.
Chegar na cidade dele foi como receber a notícia novamente. Ela nao queria estar ali, ninguém queria.
O filho mais novo chorava.
O filho mais velho não. Tinha febre.
A tia fingia uma força que não tinha. E quem tem?
Demoraram várias horas até que começasse o velório. O caixão ficou aberto por alguns minutos, nem a mulher nem os filhos queriam ver o pai daquele jeito.
Ela viu.
O rosto estava diferente, foi o máximo que conseguiram arrumar.
- Não é meu tio
Fraqueza nas pernas novamente.
E então abraçou alguém que estava perto. Não conseguia rezar. Não conseguia entender. E quem entende?
Chorou, a noite inteira, o dia seguinte inteiro, o mês, o ano inteiro depois. Porque toda vez que ia dormir se lembrava dele, e então entendia que a vida era tão frágil que chegava a ser ridícula.
Desde então ela está doente.
Finge não saber porque.
A doença é o medo da morte, não da própria, mas dos outros.
A doença é o símbolo da fraqueza e incompreensão.
A doença é o ponto fraco dela... e ela não espera que alguém entenda...