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Noite Estrelada

9 de maio de 2019

Nasci. Fazia frio naquela noite e não havia uma nuvem no céu. Meu choro rompeu o silêncio como se mostrasse à toda cidadezinha que uma nova vida exigia seu espaço. Corri pelas ruas e ladeiras ganhando intimidade com cada pessoa, paralelepípedo e rachadura na parede. Amava as outras crianças como se fossem os irmãos que não tive. Conhecia aquele pequeno mundo e, em minha mente, ele era enorme. Quando penso em minha infância, me lembro das ladeiras, do azul, dos balões e do céu, sempre limpo e estrelado.
Não sei exatamente quando foi que a imensidão universal da cidadezinha tornou-se ínfima. Foi de uma hora pra outra. Tudo que antes me era familiar, de repente, passou a me sufocar. Os espaços não me cabiam - ou será que era eu que não cabia nos espaços?
Certa noite, após passar horas na cama com os olhos e a mente arregalados, senti um impulso, uma vontade incontrolável de andar. Pus as pantufas e fui primeiro à sala, depois à cozinha, depois ao quintal, à praça, à igrejinha... Subi ao campanário e, de lá, vi algo ao longe que parecia se erguer na direção do céu. Com a curiosidade atiçada, caminhei até o alto do morro e, chegando lá, reparei que se tratava de uma árvore imensa. Dali, ela era maior que a igreja, que a lua, que a própria cidade, era impressionantemente maior do que eu. Me vi insignificante, e só então reparei que estava de pijama e pantufas e que o óbvio seria voltar para casa, mas o ímpeto de caminhar ainda me tomava e a perspectiva da cidade vista de longe só a tornava ainda mais minúscula.
Virei as costas e segui.
Longe da cidadezinha, descobri novos universos, todos imensos até também se tornarem minúsculos. Eu, que só sabia amar, aprendi a querer, a lutar, a cair, a levantar, a olhar pro céu e não ver nada. A bem da verdade, conforme novas preocupações surgiam, fui parando de me importar com o céu. Era como se o peso das contas, das responsabilidades, dos filhos, do mundo me curvasse as costas e me forçasse a olhar cada vez mais para o chão. Me acostumei a olhar pra baixo e a sentir um vazio constante. Julgava conhecer o mundo inteiro sem perceber que minha visão dele ficava a cada dia mais limitada. Foi então que, numa das noites de insônia que se tornavam cada vez mais frequentes, o familiar ímpeto de caminhar me tomou outra vez. Lutei contra a vontade de sair de pantufas por ter adquirido, com as durezas da vida, o medo do ridículo. Saí.
Não sei por quantos dias andei sem rumo até me dar conta de que minha caminhada tivera rumo claro desde o início. Hoje, quando cheguei à árvore no alto do morro e vi, ao longe, minha cidadezinha, eu a senti imensa. A lua clareava o breu noturno e tornava tudo azul: A cidade era azul, as montanhas eram azuis, o céu era azul e se erguia repleto de estrelas. Hoje, quando cheguei à árvore no alto do morro e vi, ao longe, minha cidadezinha, encontrei, finalmente, naquele céu e dentro e mim, a infinitude que passei a vida toda buscando.

Fragmentos

2 de agosto de 2018

Quantos anos se passaram? 2? 10? 17?
Caminho sobre este chão que já conheço.
As folhas mudaram? Parecem as mesmas. Assim como as patas-de-vaca, os santos e o nosso canto secreto.
Recolho fragmentos de memória nos quais você está presente... O primeiro dia de aula da minha vida. O primeiro amor da minha vida.
Temos quantos anos? 5? 7? 17?
Quando deixamos de nos ver todos os dias?
Engraçado, os cheiros também são os mesmos. Pinheiro, mato, merenda, sala de aula.
Não sei por que esse ímpeto de vir até aqui. Quando vi, já corria sobre as folhas mortas umedecidas pela chuva.
Não pergunto o porquê do que aconteceu - meu curto tempo nesta vida já deixou claro que de justa a vida nada tem - então, me permito sentir a tristeza pela sua ausência.
Te vejo em cada canto e guardo comigo o carinho da sua última mensagem parabenizando meu irmão.
Obrigada por ter sido meu primeiro amigo.
De você, ficou aqui dentro a luz.

Salto

4 de maio de 2017




Mãe, pai, marido, cachorro, papagaio, festa, roda, dança, canta, alegria, completude, vento, vento no rosto, vento no corpo inteiro, vento demais, falta de ar

                                          sufocando

                                                     

(INSPIRA)


Abro os olhos que ainda estão meio grudados de sono e levo longos 5 segundos para entender o que está acontecendo. O vento é tão forte que varre os sonhos da minha mente. Já não penso em nada, nem lembro do que sonhava segundos antes.

Estou
em
queda
                           L
i
                    v
r
                                                                     e.

Tento me virar para o céu e vejo o avião, que fica cada vez menor. Viro novamente o corpo para baixo e vejo os edifícios que construi, cada vez maiores.

É engraçado como esse momento de adrenalina extrema parece fazer o tempo parar.

Sinto cada centímetro do meu corpo pulsando.
Viva.
Eu estou viva.
O fato de poder me esborrachar no chão que se aproxima só deixa essa sensação ainda mais forte.
Viva.
Eu estou voando.
O barulho do vento só não é mais ensurdecedor que meu grito e que as batidas do meu coração.

A corda está na minha mão (a corda!)
    É só puxar a cordinha pro paraquedas se abrir e eu pousar em segurança (A CORDA!)

Só mais um segundo. Eu só quero mais um segundo desse descontrole. (ACORDA, CARALHO!)



Abro os olhos que ainda estão meio grudados de sono.


Viva.

Meu corpo pulsa, acordado pela primeira vez em muito tempo.

Ainda viva.

   

O espelho dos meus pais

20 de dezembro de 2016


Perdi as contas de quantas vezes encarei aquele espelho horas a fio. Ele estava na parede do quarto dos meus pais desde sempre. Era robusto, pesado, “de corpo inteiro”, e desde minha infância já tinha a trabalhada moldura de madeira escura bastante desgastada. Aprendi, ainda criança, que espelhos refletem nossa imagem e, por isso, passei a me reconhecer no que via nele quando o encarava. Aquele ser era eu. Não me agradava em nada, mas era eu.
Eu vivia no quarto dos meus pais porque era o maior cômodo da casa, tinha uma cama enorme e eles só entravam ali para dormir. Criava nele esconderijos e passagens secretas, e o usava como cenário para as histórias que inventava, nas quais podia ser Alladin, Mulan, Renato Russo, a Magali da Turma da Mônica, o mocinho, a mocinha, o bandido e o cavalo malvado do bandido. Todos, tudo, menos eu. Mas o espelho continuava ali, desafiando minha imaginação, mostrando que por mais que eu quisesse, não podia ser outra pessoa. Eu era aquilo que via nele. Sem sal, sem açúcar, sem sentido.
Nos anos que se passaram diante daquele espelho, a configuração do quarto permaneceu a mesma. O incômodo que eu sentia quando me via diante dele, no entanto, aumentou progressivamente. Eu, que antes não falava sobre isso por não saber explicar o que incomodava, vi a adolescência ir transformando a imagem à qual tinha me acostumado em outra que não reconhecia e que fazia ainda menos sentido. Um dia, passei pelo espelho e quase morri do coração ao ver ali uma pessoa completamente estranha. Segundos depois, quando me dei conta de que a pessoa era eu, senti um nó se formar em minha garganta e, na tentativa de não sufocar, acabei por soltar o grito que prendi no peito por todos aqueles anos. Chorei. As lágrimas escorriam não só pelos olhos, mas por todos os poros desse novo corpo refletido pelo espelho. Vi aquele rosto se contorcer de desespero, arranquei as roupas que não me cabiam e, vendo refletida a carne nua, senti nojo. Tentei arrancar meus cabelos, meus dentes, a pele, o sexo, tive vontade de morrer, e, num rompante de fúria, arremessei um sapato contra o velho espelho que se espatifou.
Com os olhos fixos na madeira que antes sustentava o vidro e continuava presa à parede, percebi minha respiração voltando ao normal. Aproximei-me da moldura e senti uma dor lancinante no pé. Olhei para baixo e, encarando os cacos amontoados e sujos de sangue, me reconheci, pela primeira vez, naquele ser desconstruído e repleto de olhos mareados, narizes e bochechas rosadas. Tudo aquilo era eu. Já não via ali um homem ou mulher, mas sim o alívio do “não ser”, do incógnito. Com uma leveza que me era estranha, vi todos aqueles fragmentos se contorcerem outra vez para formar, em todas as minhas bocas, o sorriso mais lindo que já dei.

Fluido

24 de novembro de 2016

Não há nada no palco além do chão, das paredes do fundo e das cortinas negras.
O público ouve o terceiro sinal do teatro e, acomodando-se nas poltronas, silencia.
Faz-se um instante de silêncio absoluto.
Dois instantes.
Três.
O silêncio chega a ficar palpável.
No momento em que as pessoas começam a se mexer e se entreolhar, desconfortáveis, uma luz ilumina o canto direito do palco. Surge então, banhado por ela, um garoto com um vestido de balé. Em um primeiro momento, o desconforto volta a surgir. Pessoas se endireitam nas poltronas e algumas trocam risadinhas. O silêncio, no entanto, volta a reinar quando o garoto caminha até o centro do palco, para, e encara a plateia com os olhos mareados.
Ninguém sabe se ele está emocionado ou triste.
Ele une os braços à frente do corpo, junta os calcanhares en dehors e fica assim, parado, até que o piano toca as primeiras notas.
O garoto leva um dos braços sobre cabeça e, mantendo-se em ponta, eleva uma das pernas. Adágio. Sem qualquer esforço aparente, ele impulsiona o corpo e gira como peão.
Ao piano juntam-se violinos.
O garoto continua sozinho.
Seus movimentos ganham um pouco mais de corpo. Plié. Demi-plié. Arabesque. No momento em que ele se estica com delicadeza, violoncelos se juntam ao piano e aos violinos.
O garoto continua sozinho.
Ele gira novamente sobre o próprio eixo. Sempre de olhos abertos. Os olhos sempre mareados. O palco parece diminuir a cada novo movimento do dançarino.
À orquestra junta-se o contrabaixo.
O garoto continua sozinho.
Ele se joga ao chão em um movimento tão fluido quanto a água e tão suave quanto a brisa. Estica os braços em direção ao público como se estivesse sedento de algo que não está ali, que não pertence ao balé. E apesar de a plateia não saber o que é, sabe claramente que o que a bailarina busca está dentro dela mesma, não fora.
Começam a soar os fagotes.
O garoto se estica no chão como se por ele quisesse ser tragado e, girando, ele se aproxima outra vez da lateral direita do palco.
Ouvem-se os oboés.
Apenas os oboés.
No teatro que, segundos antes, estava tomado pela música, apenas o agudo instrumento de sopro parece manter o garoto vivo. Ele se levanta de forma delicadamente brusca e se vira para o centro do palco, totalmente vazio.
Silêncio.
Começam a rufar, aos poucos, os tambores. Primeiro um, depois outro, depois outro. Juntam-se aos tambores todos os outros instrumentos e, num rompante que faz a plateia prender a respiração, o garoto corre, salta e paira no ar como se, naqueles segundos que se fizeram eternos, voasse.
Não há mais ninguém no palco, mas ele não está sozinho. Ele é o garoto, a bailarina, a orquestra, a plateia, o palco. Apenas um. Mas todos. E ninguém ali ousaria dizer o contrário.
Ele se vira, encara a plateia e, ao ouvir a última nota da orquestra, fecha os olhos.
Pelo seu rosto, escorre uma lágrima.

Aplausos.

Vivência

30 de março de 2014

Eu vivo pelos shows que ainda não vi. Pelos beijos que não dei. Pelo sexo que não fiz. Pelas músicas que ainda não cantei repetidas e desafinadas vezes no chuveiro.
Eu vivo pela alegria que ainda não senti e pelas conquistas que ainda não tive, pelas pessoas que ainda não conheci e pelos textos que ainda são papéis em branco.
Eu acordo pelas surpresas que o dia pode ter e vou à cozinha pelas comidas que ainda não sei preparar. Saio pra trabalhar pelo futuro que ainda não chegou e estudo pra ensinar os filhos que não tive.
Sorrio porque tenho tempo. Porque, apesar da correria, tenho só 25 anos e dezenas (ou centenas, quem sabe?) de outros anos pela frente.
E choro pelo tempo que não volta, pelo amor que não volta, pelo amigo que não volta, sabendo, sempre, que choraria mais se nada daquilo tivesse existido.
Acordo para subir no palco. Para construir personagens. Para comover o público - mesmo que fora do teatro.
E caminho, sempre, com a ciência de que faz pouco tempo que aprendi a caminhar.
Levanto a cabeça e ando, corro, danço e vivo. Vomito sentimentos e engulo verdades exatas.
Corro.
Eu corro em busca de algo que ainda não tive e que não é exato.
Eu corro atrás da face louca e estúpida da plenitude sabendo que nunca, jamais, a alcançarei.
E que é melhor assim.
Mas fecho os olhos e descanso sobre a confortável cama do que já vivi.
E a cada dia me sinto 10 anos mais velha diante de tudo que já enfrentei.
Repouso a cabeça no ombro do amor que já encontrei e, mesmo assim, meu coração não sossega como o meu cérebro.
Eu estou aqui. Amanhã, quem sabe?

Eu sou aqui.

Amanhã?

Quem sabe?

O que não se diz

16 de janeiro de 2014

- Por que essa cara? Pensando em quê?
Eu... Eu preciso sentir dor.
Não que eu goste de sentir dor, é que eu preciso. Às vezes, eu tô vivendo e tá tudo bem, mas nada muda. Aí me bate uma dúvida e eu preciso me certificar de que ainda tô aqui e de que é uma decisão minha continuar a fazer o que eu faço. É isso, entende?
Quando eu soco a parede ou arranho o meu braço com a lapiseira, sinto aquela dor momentânea e incrível que prova que eu existo. E aí a necessidade passa. Eu posso voltar a viver como sempre e a fazer as coisas de sempre.
Eu me lembro da primeira vez que cortei o braço com a pontinha de ferro da lapiseira. Foi numa aula de História. Eu tava num momento bom, sem problemas, sem nada, era uma daquelas fases de calmaria da vida que irritam pra caramba. Eu odeio a inércia. Tenho o dom de encontrar a paz no caos de dentro da minha cabeça. Quando tudo fica calmo demais aqui na cachola, eu surto.
Naquele dia, eu peguei a lapiseira, encostei no braço e me arranhei. No primeiro segundo, não senti nada. Nos segundos seguintes, veio uma dor muito forte. Passei esses segundos de dor me perguntando por que tinha feito uma coisa idiota daquelas e aí, quando a dor passou, eu percebi que estava calma como nunca na vida e que a qualquer momento poderia acontecer alguma coisa que mudaria aquele estado de calmaria irritante. Eu estava viva. Eu tinha sangue nas veias e, se eu quisesse, podia chacoalhar as coisas.
É isso. Os cortes são chacoalhões.
Imagino que pular de paraquedas também seria um bom chacoalhão, mas convenhamos que dá menos trabalho se sentir viva com uma lapiseira que com um paraquedas.
Eu não tenho depressão. Eu não tô doente. Eu não sou triste. 
Eu só preciso me lembrar, com mais frequência do que as outras pessoas, talvez, de que não gosto de ir com a correnteza só por ir com a correnteza. Se eu vou com a correnteza é porque eu quero, é porque eu gosto, é porque a escolha é minha. Se eu não pulo na frente do metrô quando ele chega na estação, é porque eu não quero, eu não tenho vontade. Eu quero estar no controle do que posso estar. Mudar as coisas, movimentar a vida, aprender coisas novas, isso depende mais de mim que da vida em si.
O destino não existe. Eu faço o que eu quero com as coisas que aparecem pra mim. Eu gosto de mudar de ideia de uma hora pra outra. Eu gosto de ser o meu próprio deus.
Não, não tem nada de egoísta nisso, acho que o que tem é uma boa dose de lucidez.

- Você...? Você o quê?
Eu tava aqui pensando como deve ser bom pular de paraquedas.

Psicose

25 de novembro de 2013

Vejo-me de fora e há um breu. Só eu estou iluminada, mas por uma luz tão triste quanto eu.
Ouço vozes, sinto pessoas à minha volta, mas não vejo nada.
Busco ajuda e, quando encontro, tenho medo.
O medo me consome.
Abraço alguém que me toca de forma diferente de todos os outros. É confortável. E justamente por ser assim, não pode ser real. O conforto é uma mentira. Afasto-me porque prefiro o peso da realidade à mais uma vida de mentiras confortáveis. Braços agarram meus braços. Mexo as pernas em desespero. tento me prender a algo para que meus braços se libertem. Quando finalmente firmo os pés, outras mãos os puxam. Meu braços, no entanto, continuam presos. Meu corpo estica. Sinto minha barriga se abrir, o coração se partir e as vísceras saírem, revelando o que antes era só meu, o que eu guardava de mais feio, nojento e humano.
O silêncio toma conta do ambiente, mas minha mente grita.
Quero abrir os olhos, eu preciso abrir os olhos. Tiro a venda e fico ainda ainda mais cega.
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
A cegueira se transforma em consciência momentânea, em um instante de claridade antes da noite eterna.
Por que você acreditava em mim naquela hora e agora não?

Por favorpor favor, por favor, por favor, POR FAVOR

Abra as cortinas!


A textura dos sonhos

3 de abril de 2013

Trabalho em equipe.
Acho que se fosse definir minha vida, seria desse jeito.
Um bom e belo trabalho em equipe.
Digo isso porque, desde que nasci, me acostumei a não fazer nada sozinha.

Só ir ao banheiro. Ao banheiro eu vou sozinha.

Mas tirando isso, seja nos momentos mais banais, seja nos mais importantes, estou sempre muito bem acompanhada e consciente de que posso contar com quem está ao meu redor.
Desta vez, não foi diferente.
É com muito orgulho, prazer e um sorriso na cara daqueles que fazem cócegas nas orelhas, que apresento a vocês o resultado do trabalho de uma grande equipe...

O PERIPÉCIAS NAS ENTRELINHAS VIROU LIVRO!

Sim, é isso mesmo.

LIVRO. Desses de papel. Desses que lemos com atenção e que nos fazem rir e chorar. Desses que damos de presente, que têm cheirinho de novo e uma capa bonita e simples que já antecipa o que será encontrado em cada página.

O Peripécias saiu do mundo virtual. Agora é real. Concreto.

É um sonho que acaba de ganhar textura de livro.

E, como já disse antes, a materialização desse sonho só foi possível com a ajuda de pessoas extremamente importantes.
Capa, contracapa, diagramação, revisão e prefácio foram feitos pelos meus irmãos. De sangue ou não. Gente de quem me orgulho muito e que vou levar sempre comigo.
Obrigada, André, Heitor e Tyler.
Acho que nunca vou ser grata o suficiente a vocês.

Agora você, leitor, já pode conferir o resultado desse belo trabalho em equipe.
Lá, você poderá conferir a capa, as primeiras páginas, as características da obra e compra-la pela internet. Para agradar a todos, o livro está disponível também na versão e-book.

Os textos foram selecionados com muito cuidado e carinho. Eles traduzem o que vejo em mim e no mundo à minha volta.
São páginas repletas.
Assim, repletas "ponto final".
Do que elas são repletas, cabe ao leitor descobrir.
Acesse, confira, comente, deixe seu pitaco aqui ou na página da editora, afinal, esse é um momento feliz demais para não ser compartilhado com os amigos.
Ainda mais com amigos tão especiais.
A todos vocês, muito, muitíssimo obrigada!

Branco

16 de janeiro de 2013

Poucas coisas desafiam tanto quanto uma página em branco.

Silenciosa.

Tão cheia de nada e tão aberta a tudo.

Ainda assim, vazia.

Ela que, branca, espera pacientemente que traços a enfeitem ou sujem.

E quantos desses traços não são palavras, mesmo que traduzidas em imagens?

Poucas coisas podem sujar tanto quanto as palavras erradas.

Imagino, em cada folha branca, a brancura enfrentada por Machado, Picasso, Mozart...

Penso em tudo que foram capazes de fazer com suas folhas em branco.

Esqueçam as bombas, o petróleo, o dinheiro. As maiores mudanças humanas foram feitas por pessoas que sabiam como usar folhas em branco.

Por isso, cada vez que me sento diante do computador, peço licença a essas pessoas que mudaram o mundo com suas letras e sentimentos.

Cada vez que alguém diz que chorou ou riu ao ler algum dos meus textos, muito mais que meu ego, minha consciência do valor das palavras aumenta muito.

Hoje, respeito as folhas em branco como quem respeita um deus.

O que não significa que eu não escreva bobagens. Apenas que cada bobagem escrita é pensada e repensada com carinho antes de ser publicada.

É consciente.

Também por isso, muitas vezes, fico longos períodos sem postar nada. E me desculpem.

O Peripécias está vivo, está bem e terá novidades em breve, isso eu garanto.

Que neste ano novo a rotina não interfira na criatividade, os sentimentos transbordem e enfeitem as folhas em branco e que os grandes escritores me perdoem por minhas bobagens, pois, parafraseando Cazuza - que sempre soube muito bem como preencher suas folhas em branco:

'Tem gente que recebe deus quando escreve.
Tem gente que escreve procurando deus.
Escrevo sim, com minhas pontuações mal-colocadas,
E peço a deus que me perdoe, mesmo assim.
Eu sou assim, escrevo pra me mostrar,
De besta.'

A man and the blues

18 de outubro de 2012

Entrou em casa, tirou os sapatos, ligou um blues e se sentou no chão da sala.
Mandou às favas o fato de que não fumava havia anos, vasculhou a gaveta do armário e ali encontrou um Marlboro que nem sabia por que guardava.
Aquele blues pedia um cigarro, e o corpo, vazio de tudo, pedia alguma coisa.
Decidiu que aquela "alguma coisa" era fumaça e deu o primeiro trago.
Sentir-se vazio era estranho.
Não estava triste. Não estava alegre. Não estava nada.
E o nada, profundo daquele jeito, o angustiava mais que tudo.
A fumaça entrava e saía de seu corpo, enevoando o ambiente e deixando, de fato, alguma coisa dentro dele, mas não exatamente o que ele queria.
Abriu então um uísque que havia ganhado de um amigo anos antes. Caubói.
Aquele blues pedia um uísque, e seu corpo precisava de mais que fumaça.
Os acordes lhe enchiam os ouvidos, e a voz do cantor, tão rouca quanto sua guitarra, lhe enchiam a cabeça.
Pensava em tudo que havia acontecido, nos momentos alegres e tristes. Lembrava-se das histórias, não como se as tivesse vivido, mas como se as tivesse escutado da boca de outra pessoa.
Analisava cada momento da vida a dois como se fosse uma terceira pessoa que nada tinha a ver com as brigas e reconciliações constantes.
Não sentia nada.
Começou a mexer os pés acompanhando o ritmo e, quando viu, já dançava sozinho na sala.
Olhos fechados, meio sorriso no rosto.
Deixou que uma sensação boa tomasse conta dele, da sala, do mundo todo.
Uma sensação sem nome. Estava cansado de ter que definir tudo.
Sentiu que o corpo se elevava a cada trago, crescia a cada nota. Dançava como se fosse recheado de música e nada mais existisse. Sorria sem motivo e, ao pensar nisso, sorria mais ainda.
No auge de sua completude, de olhos fechados e peito aberto, sentiu uma dor intensa nos dedos da mão.
Voltou instantaneamente ao chão.
Havia se queimado com o cigarro.
Jogou a bituca no lixo da cozinha e, quando voltou à sala, a música também chegava ao fim. Ficou parado, esperando os acordes finais.
Sol com sétima, fá com sétima, dó com sétima.

Dó.

Silêncio.

Olhando para o nada, pôs o copo sobre a mesa, desligou o rádio, apagou as luzes e foi para o quarto, sozinho pela primeira vez em anos, jurando para si mesmo que, nem naquele momento, nem nunca, deixaria que sua vida terminasse como a música.

6 de fevereiro de 2012

Soltou um suspiro e se virou de lado, parte inconformada, parte decepcionada.
Não acreditava em como tinha sido ruim.
Como era possível?
Antes da cama, havia química, humor, carinho, atenção, tesão. Amor não, isso nem interessava a ela naquele momento, mas tinha todo o resto.
E agora...
Agora nada.
Horas antes, havia dito a ele - com carinha de safada - que estaria livre naquela noite.
Ele respondeu um "Ah, ok" que poderia ter servido de aviso do que iria acontecer.
Mas ela preferiu fingir que via alguma empolgação nos olhos dele, ali, escondidinha atrás do cansaço e da indiferença. Agora tinha a impressão de que, na tentativa de parecer sensual, tinha se oferecido demais.
Não dava pra saber o que dava mais raiva, se a decepção da experiência ou a insegurança em relação a si mesma.
Em sua cabeça, uma frase de desenho animado ecoava: "Eles vêm, comem e vão embora. Eles vêm, comem e vão embora". Não se lembrava nem do desenho, nem do contexto de onde isso havia saído - assistia muitos desenhos com o sobrinho de dois anos - mas se lembrava de uma formiga repetindo a frase como um mantra, encolhida de pavor.
Eles chegaram na casa dele, beberam uma taça de vinho, meio sem jeito se beijaram e se empurraram até  a cama, atrapalharam-se na hora de tirar as roupas e pá, pá, pá.
Ele gozou e foi correndo pra sala pra atender o telefone que insistentemente tocou durante os cinco minutos de sexo.
Ela ficou lá. Semi-nua e com frio.
Suspirou e se virou de lado. Sentindo que ia chorar se levantou, pôs a roupa e ficou esperando ele voltar da sala.
Ele vem, come e vai embora.
E ela?
Ela fica sozinha.



Inspirado na música Sexo (Zélia Duncan)

Agora falando sério

31 de agosto de 2011

Ontem tropecei num homem.
Um mendigo.
Ele não pulou na minha frente pedindo dinheiro, como muitos fazem.
Não.
Ele estava lá. Deitado.
Dormindo no chão gelado, coberto por um pano imundo, moscas e bolinhas de isopor.
Alguém provavelmente cortou isopor ali perto e o vento carregou as bolinhas pra cima do mendigo.
Mas eu não reparei em nada disso até tropeçar nele.
Lembro-me bem de que, quando cheguei a São Paulo, me assustava com os mendigos a cada esquina que virava. Aliás, não precisava virar esquina nenhuma, eu moro no Largo Santa Cecília, há mendigos por todos os lados pedindo dinheiro pra quem sai do metrô.
Crianças. As crianças eram as que mais me impressionavam.
Imundas, fedorentas, drogadas, largadas no chão.
E as pessoas passavam por elas como se não existissem.
Quando cheguei, tinha ódio desses paulistanos sem coração. Ódio.
Como podiam não notar que havia uma criança jogada no chão?
Como podiam não sentir o cheiro, passar indiferentes diante de tanto sofrimento?
Ontem eu tropecei num mendigo.
Saindo do trabalho, preocupada demais com o que ia beber à noite, distraída demais com a música que ouvia, avoada demais com tantas coisas tão importantes.
Tão importantes que fecharam meus olhos pra um homem que dormia no meu caminho.
Quem mora nessa terra doida que é São Paulo sabe que se for se comover com todos os mendigos que encontra, vai passar todos os segundos da vida comovido.
O paulistano precisa de certa indiferença pra sair de casa.
Mas não pode ser totalmente indiferente.
Ontem eu TROPECEI num mendigo.
Ele não acordou.
Mas eu sim.
E me peguei parada olhando pro teto, horas depois, morrendo de vergonha, lembrando do pano imundo, das moscas e das bolinhas de isopor e me perguntando em que momento exatamente meu coração interiorano tinha endurecido tanto.

Em Paz

2 de maio de 2011

Quando me encontrei com ele, descobri que o que doía não era a falta dele, era a falta do que ele me fazia sentir.
Tinha saudade não de um corpo, ou de um rosto, ou de um toque.
A saudade era do peso do corpo que se encaixava como eu queria, do toque que me fazia arrepiar, do frio na espinha a cada palavra sussurrada no ouvido, do olhar que me enxergava.
Durante muito tempo sonhei com o rosto dele, pra agora descobrir que meu peito só precisava de um rosto.
Só isso. Não necessariamente do dele, mas do de alguém que representasse a minha entrega.
Quando olhei pra ele e não vi nada, percebi que só o rosto não me valia.
Instantaneamente, assumiu seu lugar no meu peito um Não-Rosto. Um vazio.
Vazio que eu já conhecia.
Quando me afastei, senti um nó na garganta. Chorei de dor. Dor mesmo. Porque esse vazio, esse nada, dói pra caramba.
Ele arrombou uma porta que eu sempre mantenho trancada. Nem bateu. Chegou chutando, mas com delicadeza, e me encontrou escondida lá dentro, sentada no chão, abraçada com meus joelhos.
Ver a luz de fora pra quem está há tanto tempo no escuro não é fácil. Se sentir sozinha na hora de enfrentar essa luz, também não.
Era disso que eu me escondia, acho. Dessa solidão em meio a tanta gente que eu sinto agora.
No entanto, descobrir que não devo essa solidão a um rosto, mas ao que posso sentir por alguém, saber que posso encontrar em outros rostos o sorriso que resumia tudo o que eu buscava no mundo e, mais que isso, saber que não quero voltar pro escuro mesmo sentindo um impulso enorme de fazer isso, me deixou aliviada.
E esse alívio sobrepôs qualquer vazio.
Esse alívio me deixou em paz.

Passos em Direção à Luz

1 de abril de 2011

Próxima estação, Luz. Acesso gratuito aos trens da CPTM. Os assentos preferenciais...

Levantou os braços. Num movimento leve e medido.
Uniu sobre a cabeça as pontas dos dedos, fechou os olhos e sorriu.
Contrária aos movimentos bruscos do trem, apoiou as costas na barra de segurança e, calmamente, ficou na ponta dos pés.
Com delicadeza, dobrou uma das pernas e fez um passo ensaiado, difícil, mas que para ela parecia tão simples quanto respirar.
Vestida de rosa dos pés à cabeça, postura ereta, esticou os braços para frente, trocou a perna de apoio e girou. Dançava.
A música tocava apenas em sua cabeça, mas percebi que, apenas por observar, eu mesma já ouvia cada nota, sentia cada vibração.
Alheia ao trem que agora chegava à estação, alheia ao barulho a sua volta, alheia aos perigos do mundo lá fora, alheia até mesmo ao meu olhar atento, a bailarina, no auge de seus cinco anos, sonhava.


Créditos de título a Tyler Bazz, que vira e mexe me salva de situações complicadas :)

TNT

11 de março de 2011

Ingredientes:

- 1 peça grande de lagarto
- 2 Cenouras
- Bacon (a gosto)
- Brócolis
- Óleo de girassol
- Um dente de alho
- Uma cebola grande
- Caldo de carne (de preferência, natural)
- 5 Tomates pelados
- Cheiro verde
- Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo:

Com uma faca grande e bem afiada, abra a peça de lagarto em manta.

Tempere com sal e pimenta a gosto.

Corte as cenouras em tirinhas, faça o mesmo com o bacon.

Coloque o bacon, a cenoura e o brócolis sobre toda a manta e vá, cuidadosamente, enrolando a carne, como um rocambole.

Usando uma linha de pesca ou um barbante, amarre a carne para evitar que ela se abra durante o cozimento.

Numa panela de pressão grande, coloque óleo, alho e cebola picados e refogue.

Quando a cebola estiver dourada, coloque o rolo de carne na panela.

Vire o rocambole a cada 10 minutos. Todos os lados precisam ficar bem corados.

Adicione o caldo de carne. Se necessário, complete com água até cobrir toda a peça.

Pique os tomates, o cheiro verde e reserve.

Depois de 15 minutos, tire a pressão da panela, adicione os tomates e coloque novamente na pressão.

Espere mais meia hora, tire novamente a pressão, adicione o cheiro verde e coloque novamente na pressão.

Após 5 minutos, tire a pressão, adicione um filé de merluza e um chili vermelho com as sementes.

Você também pode colocar fatias de pão de fôrma.

Mais dois minutos de pressão.

Coloque a panela na água para que a pressão saia rapidamente.

Adicione coentro (a gosto), alecrim, três folhinhas de hortelã, um rolo de barbante, a faca com a qual cortou a carne, um computar com Windows, de preferência o Vista, um celular, mais cebola, mais alho e coloque novamente na pressão.

Chame alguém de quem você gosta muito pra saborear o prato, mas não apague o fogo.

Com a indicação de que o fogo não deve ser apagado e de que você volta num segundo, deixe a pessoa cuidando da panela de pressão enquanto você sai e vai passear no shopping.

Volte 2 horas depois e, SE possível, limpe toda a sujeira.


Agora, me diga. Se ingredientes inesperados entrassem aos poucos no meio da pressão do dia-a-dia e você precisasse fazer algo parecido para se sentir melhor, sinceramente, faria?

À Mostra

1 de março de 2011

Já se sentiu nu?

Você obviamente já ficou nu, mas já se sentiu assim?

Experimente tirar a roupa num local atingido por uma corrente de vento.

Não faça isso em público, pode gerar problemas.

Procure algum canto da sua casa por onde passe uma corrente de ar, tire a roupa, feche os olhos.

A primeira coisa que se sente é o corpo arrepiado, os pêlos levantando. Independentemente de estar calor ou frio, você vai se arrepiar (Tá, se você estiver em Rio Preto talvez não se arrepie, escolha um dia quente, não um dia extremamente quente, como todos entre agosto e abril).

Em seguida, vai sentir o vento nas partes úmidas do corpo. Cada um tem suas umidades particulares, já não cabe a mim definir nada nesse sentido.

E então você se sente indefeso.

O ser humano dificilmente para pra pensar nisso, porque praticamente já nasce vestido, mas a roupa, ao proteger do frio, da chuva, dos olhos tarados, cria a sensação de ser uma armadura que, via de regra, protege de tudo.

É nesse sentido que pergunto. Já se sentiu nu, mesmo vestido?

Alguém já te olhou e, só com os olhos, conseguiu te arrepiar, te fazer sentir as partes úmidas?

Alguém já te deixou indefeso?

Cuidado.

Despir-se do peso da armadura pode deixar o corpo tão leve que se torne difícil manter os pés no chão. E aí você flutuará nu, onde todos poderão te ver por inteiro.

Se você estiver se sentindo assim, no entanto, acredite: vai querer ser visto por apenas uma pessoa.

Um punhado de ar

25 de fevereiro de 2011

Triiiiim, acorda, pulAdaCama. Vai, desperta, o dia começou. A n d a - n o - m e i o - d o - p o v o, corre, pega o metrô. Chegaatrasadaesenta.  Ufa!  Levanta, pega café, senta de volta, trabalha, trabalha,trblaha, trlabaha.
- Oi.
- Oi(trabalha,trblaha, trlabaha)
- Como você é?

- Ah... Eu?
- É.
- Que pergunta estranha... Ah...sou assim, assado. Nada demais.
- Defina "Nada demais".
- Nada interessante.
- Defina "interessante".
- Nada que chame a atenção.
- Chamou a minha.
- Por que? Eu só trabalho, você mal me conhece.
- O seu sorriso.
- É frouxo.
- Seu papo.
- É velho.
- Seus olhos.
- Tá, os olhos... Talvez dos olhos você tenha razão. Esses olhos já viram coisa demais, muitas vezes diferentes do que o cérebro podia processar. Muitas vezes coisas feias, más. Mas também coisas boas. Muitas coisas boas. Meus olhos são de uma mulher de 80 anos, não só pela miopia. Pela vivência. Mais ativos que meus olhos, só meus braços. Que tentam sempre abraçar o mundo e pouco conseguem além de um punhado de ar.
- Do que você precisa?
- De tanta coisa.
- Mas o que é imprescindível?
- Posso ser sincera?
- Claro.
- Ocupa o lugar desse punhado de ar entre os meus braços. Não preciso de mais nada.

Foi DEZ!

24 de dezembro de 2010

2010 começou com um fardo bastante grande: ser um ano ao menos comparável com o de 2009. Em 2009 fiz o intercâmbio, morei em Santiago de Compostela, conheci milhares de pessoas que vou levar para sempre no coração. Foi, no mínimo, um ano brilhante. Confesso que não esperava muito desse ano que agora está terminando, apesar de ele ter começado de forma maravilhosa


Já contei como ele começou?

Estava em Compostela com um grupo de uns 10 brasileiros. Tínhamos duas garrafas de champanha, 12 uvas pra cada um, uma calcinha roxa (que eu estava usando por baixo de muita roupa, no caso), o bucho cheio de escondidinho da ceia e muita pressa pra chegar na frente da catedral onde aconteceria a festa...bom, eu, pelo menos, estava com bastante pressa. No final das contas uma parte do grupo ficou esperando outra, outra parte se perdeu, alguns correram porque estava chovendo e, quando deu meia noite, estávamos só eu, o Tyler e uma das duas garrafas de champanha, na frente da catedral, emocionados com os fogos e ensopados por causa da chuva. Foi lindo! Eu falei isso pro Tyler na hora e repito agora. Melhor impossível!

 Fogos sobre a catedral de Santiago de Compostela

Eu gorda, o Tyler magro e os dois ensopados na virada de ano 2009/2010

 

Depois da virada do ano comecei a contar os dias para voltar pra casa. Adorei a Europa, mas tava morrendo de saudade da minha família, do Brasil, dos morros de Itatiba e dos travestis de Rio Preto. Foi nesse momento de contagem regressiva que, simplesmente, me apaixonei. Assim, do nada, por alguém que havia acabado de chegar lá no estrangeiro. Eu, Marina, o coração de pedra que gosta de todo mundo mas não se apaixona por ninguém. Eu me apaixonei de verdade. Como diria o Zagallo: “Aí sim...”

É ÓBVIO que eu voltei pra casa e tive que esperar seis meses pra investir nesse sentimento. Afinal, sou eu. O que realmente importa nesse caso é que voltei a acreditar no amor e, garanto, isso já seria o suficiente pra tornar o ano de 2010 um dos mais importantes da minha vida.

Aí vem a pergunta, essa pessoa foi a mais importante da minha vida nesse ano? Não. Mesmo que eu ainda estivesse namorando, não seria. É claro que foi muito importante, mas a mais importante, sem dúvida, foi o meu pai.

Quando eu tinha 9 anos participei de um concurso de poesia na escola e acabei ganhando o terceiro prêmio. O tema era “O Heroi dos meus Sonhos”. Não lembro de toda a poesia, mas lembro da estrofe final:


“Meu pai, o herói dos meus sonhos

Que dos meus sonhos risonhos vem

Protegendo toda a família

E as outras pessoas também”

Tá, não é lá muito complexo, mas posso dizer que “Heroi dos meus Sonhos” é o título perfeito para o meu pai, porque num dia muito especial desse ano ele olhou nos meus olhos e disse que eu teria o apoio dele para tudo o que eu decidisse fazer da minha vida, independentemente do que o resto do mundo pensasse. Uma atitude que me fez chorar feito louca, de alívio e felicidade. Resumindo bem: o bigodão é foda!

O heroi dos meus sonhos


Tendo o apoio dele, uma aceitação em andamento da minha mãe e a certeza de que não estava fazendo mal pra ninguém, ergui a cabeça, arregacei as mangas e fui a luta para concluir o último ano de faculdade com a consciência tranquila e 100% de aproveitamento.

Estou falando, é claro, do que realmente importa na faculdade. Os amigos, as bebedeiras, as festas. Pra ter 100% de aproveitamento nas disciplinas eu teria que começar tudo de novo e, não, brigada, eu prefiro qualidade de vida.

Se os outros anos tinham sido repletos de farra, esse último, sem dúvida, entrou pra história! Os treinos de futsal viraram reuniões de família: sempre repletos de xingamentos carinhosos e concluídos com uma boa e gelada cerveja no Chalé. Aliás, se fosse pra dizer qual foi meu lugar preferido de 2010 ficaria em dúvida entre o Chalé, o Portuga e o Vila Dionísio. Não pelos lugares em si...pelas companhias, sempre! Poderia citar vários nomes que fizeram a diferença nesse ano, mas como minha memória é uma merda e sempre esqueço alguém extremamente importante, prefiro apenas agradecer a todos vocês que, em maior ou menor proporção, transformaram esse ano num período tão especial!

TRADUTORES 2010

 Churrasco dos Formandos

Time de Futsal feminino - IBILCE 2010
 No final das contas, o ano que prometia ser a ressaca de 2009 está acabando de forma espetacular! Ganhei uma amiga-companheira-irmã que vai passar o natal comigo, concluí a faculdade com uma boa média, fiz amigos pra vida toda, estou com o emprego garantido para o ano que vem, já tenho onde morar em São Paulo e, quando achei que o ano já não reservava mais nenhuma surpresa, descobri o quão prazeroso pode ser limpar o ouvido com um cotonete...isso soou meio estranho, mas tentem, é ótimo!

Obrigada a todos que caminharam comigo e boa sorte a quem, como eu, começa agora a enfrentar o mundo de outra forma. Feliz Natal desde Clementina. Feliz Ano Novo desde Santa Fé do Sul! Que essa virada de ano seja tão maravilhosa quanto a do ano anterior! O guarda-chuva já está a postos, a champanha já está na mão e a calcinha nova já está comprada...mas, dessa vez, ela é amarela.



Adulta

18 de outubro de 2010

   Foi assim, de repente, esperando bagunça, uma casa destruída, cerveja saindo pelas torneiras, churrasco só com o cheiro da carne, música brega, pessoas bêbadas correndo por todos os lados, beijos e abraços em desconhecidos, que percebi como as coisas estavam diferentes.

   Foi quando entrei naquela casa linda e me ofereceram carne, cerveja, vinho – seco – ou suco, vinagrete e mandioca cozida, quando vi crianças correndo pelo quintal e pessoas mais velhas conversando e rindo moderadamente, foi quando te vi com um chapeuzinho de festa na frente do bolo de aniversário que percebi, minha amiga, que algo havia mudado.

   Você estava mais linda do que nunca, com o sorriso incrível de todos os dias, o carinho absurdo de anos e a amizade que sempre tivemos...mas estava diferente.

Foi assim, num momento de surpresa, em uma noite de festa, que percebi que você havia crescido.

   Era como se tivesse perdido uma pessoa que amava muito e estivesse conhecendo outra, que amava também antes mesmo de conhecer.

Adulta, como dizem...adulta.

   E eu me senti pequena vendo sua felicidade. E me senti grande por ter sido convidada pra estar ali. E me senti criança perto de você. E senti orgulho de estar ao seu lado.

   E me lembrei dos nossos planos “Peter Pan”, das nossas preocupações com prova, da dificuldade de juntar dinheiro pra viajar com os amigos, dos sonhos tão bonitos, tão distantes, tão infantis, e percebi que ainda sonhava os mesmos sonhos enquanto você já realizava os seus.

   Olhando pra você com uma criança no colo e a família do lado só me restou sorrir, e enquanto todos a parabenizavam pelo aniversário, eu a parabenizava pelo crescimento.

Que "Littlemarininha" que nada! Que moleca que nada!
Quando crescer quero ser como você.