Noite Estrelada

9 de maio de 2019

Nasci. Fazia frio naquela noite e não havia uma nuvem no céu. Meu choro rompeu o silêncio como se mostrasse à toda cidadezinha que uma nova vida exigia seu espaço. Corri pelas ruas e ladeiras ganhando intimidade com cada pessoa, paralelepípedo e rachadura na parede. Amava as outras crianças como se fossem os irmãos que não tive. Conhecia aquele pequeno mundo e, em minha mente, ele era enorme. Quando penso em minha infância, me lembro das ladeiras, do azul, dos balões e do céu, sempre limpo e estrelado.
Não sei exatamente quando foi que a imensidão universal da cidadezinha tornou-se ínfima. Foi de uma hora pra outra. Tudo que antes me era familiar, de repente, passou a me sufocar. Os espaços não me cabiam - ou será que era eu que não cabia nos espaços?
Certa noite, após passar horas na cama com os olhos e a mente arregalados, senti um impulso, uma vontade incontrolável de andar. Pus as pantufas e fui primeiro à sala, depois à cozinha, depois ao quintal, à praça, à igrejinha... Subi ao campanário e, de lá, vi algo ao longe que parecia se erguer na direção do céu. Com a curiosidade atiçada, caminhei até o alto do morro e, chegando lá, reparei que se tratava de uma árvore imensa. Dali, ela era maior que a igreja, que a lua, que a própria cidade, era impressionantemente maior do que eu. Me vi insignificante, e só então reparei que estava de pijama e pantufas e que o óbvio seria voltar para casa, mas o ímpeto de caminhar ainda me tomava e a perspectiva da cidade vista de longe só a tornava ainda mais minúscula.
Virei as costas e segui.
Longe da cidadezinha, descobri novos universos, todos imensos até também se tornarem minúsculos. Eu, que só sabia amar, aprendi a querer, a lutar, a cair, a levantar, a olhar pro céu e não ver nada. A bem da verdade, conforme novas preocupações surgiam, fui parando de me importar com o céu. Era como se o peso das contas, das responsabilidades, dos filhos, do mundo me curvasse as costas e me forçasse a olhar cada vez mais para o chão. Me acostumei a olhar pra baixo e a sentir um vazio constante. Julgava conhecer o mundo inteiro sem perceber que minha visão dele ficava a cada dia mais limitada. Foi então que, numa das noites de insônia que se tornavam cada vez mais frequentes, o familiar ímpeto de caminhar me tomou outra vez. Lutei contra a vontade de sair de pantufas por ter adquirido, com as durezas da vida, o medo do ridículo. Saí.
Não sei por quantos dias andei sem rumo até me dar conta de que minha caminhada tivera rumo claro desde o início. Hoje, quando cheguei à árvore no alto do morro e vi, ao longe, minha cidadezinha, eu a senti imensa. A lua clareava o breu noturno e tornava tudo azul: A cidade era azul, as montanhas eram azuis, o céu era azul e se erguia repleto de estrelas. Hoje, quando cheguei à árvore no alto do morro e vi, ao longe, minha cidadezinha, encontrei, finalmente, naquele céu e dentro e mim, a infinitude que passei a vida toda buscando.

Fragmentos

2 de agosto de 2018

Quantos anos se passaram? 2? 10? 17?
Caminho sobre este chão que já conheço.
As folhas mudaram? Parecem as mesmas. Assim como as patas-de-vaca, os santos e o nosso canto secreto.
Recolho fragmentos de memória nos quais você está presente... O primeiro dia de aula da minha vida. O primeiro amor da minha vida.
Temos quantos anos? 5? 7? 17?
Quando deixamos de nos ver todos os dias?
Engraçado, os cheiros também são os mesmos. Pinheiro, mato, merenda, sala de aula.
Não sei por que esse ímpeto de vir até aqui. Quando vi, já corria sobre as folhas mortas umedecidas pela chuva.
Não pergunto o porquê do que aconteceu - meu curto tempo nesta vida já deixou claro que de justa a vida nada tem - então, me permito sentir a tristeza pela sua ausência.
Te vejo em cada canto e guardo comigo o carinho da sua última mensagem parabenizando meu irmão.
Obrigada por ter sido meu primeiro amigo.
De você, ficou aqui dentro a luz.

Salto

4 de maio de 2017




Mãe, pai, marido, cachorro, papagaio, festa, roda, dança, canta, alegria, completude, vento, vento no rosto, vento no corpo inteiro, vento demais, falta de ar

                                          sufocando

                                                     

(INSPIRA)


Abro os olhos que ainda estão meio grudados de sono e levo longos 5 segundos para entender o que está acontecendo. O vento é tão forte que varre os sonhos da minha mente. Já não penso em nada, nem lembro do que sonhava segundos antes.

Estou
em
queda
                           L
i
                    v
r
                                                                     e.

Tento me virar para o céu e vejo o avião, que fica cada vez menor. Viro novamente o corpo para baixo e vejo os edifícios que construi, cada vez maiores.

É engraçado como esse momento de adrenalina extrema parece fazer o tempo parar.

Sinto cada centímetro do meu corpo pulsando.
Viva.
Eu estou viva.
O fato de poder me esborrachar no chão que se aproxima só deixa essa sensação ainda mais forte.
Viva.
Eu estou voando.
O barulho do vento só não é mais ensurdecedor que meu grito e que as batidas do meu coração.

A corda está na minha mão (a corda!)
    É só puxar a cordinha pro paraquedas se abrir e eu pousar em segurança (A CORDA!)

Só mais um segundo. Eu só quero mais um segundo desse descontrole. (ACORDA, CARALHO!)



Abro os olhos que ainda estão meio grudados de sono.


Viva.

Meu corpo pulsa, acordado pela primeira vez em muito tempo.

Ainda viva.

   

O espelho dos meus pais

20 de dezembro de 2016


Perdi as contas de quantas vezes encarei aquele espelho horas a fio. Ele estava na parede do quarto dos meus pais desde sempre. Era robusto, pesado, “de corpo inteiro”, e desde minha infância já tinha a trabalhada moldura de madeira escura bastante desgastada. Aprendi, ainda criança, que espelhos refletem nossa imagem e, por isso, passei a me reconhecer no que via nele quando o encarava. Aquele ser era eu. Não me agradava em nada, mas era eu.
Eu vivia no quarto dos meus pais porque era o maior cômodo da casa, tinha uma cama enorme e eles só entravam ali para dormir. Criava nele esconderijos e passagens secretas, e o usava como cenário para as histórias que inventava, nas quais podia ser Alladin, Mulan, Renato Russo, a Magali da Turma da Mônica, o mocinho, a mocinha, o bandido e o cavalo malvado do bandido. Todos, tudo, menos eu. Mas o espelho continuava ali, desafiando minha imaginação, mostrando que por mais que eu quisesse, não podia ser outra pessoa. Eu era aquilo que via nele. Sem sal, sem açúcar, sem sentido.
Nos anos que se passaram diante daquele espelho, a configuração do quarto permaneceu a mesma. O incômodo que eu sentia quando me via diante dele, no entanto, aumentou progressivamente. Eu, que antes não falava sobre isso por não saber explicar o que incomodava, vi a adolescência ir transformando a imagem à qual tinha me acostumado em outra que não reconhecia e que fazia ainda menos sentido. Um dia, passei pelo espelho e quase morri do coração ao ver ali uma pessoa completamente estranha. Segundos depois, quando me dei conta de que a pessoa era eu, senti um nó se formar em minha garganta e, na tentativa de não sufocar, acabei por soltar o grito que prendi no peito por todos aqueles anos. Chorei. As lágrimas escorriam não só pelos olhos, mas por todos os poros desse novo corpo refletido pelo espelho. Vi aquele rosto se contorcer de desespero, arranquei as roupas que não me cabiam e, vendo refletida a carne nua, senti nojo. Tentei arrancar meus cabelos, meus dentes, a pele, o sexo, tive vontade de morrer, e, num rompante de fúria, arremessei um sapato contra o velho espelho que se espatifou.
Com os olhos fixos na madeira que antes sustentava o vidro e continuava presa à parede, percebi minha respiração voltando ao normal. Aproximei-me da moldura e senti uma dor lancinante no pé. Olhei para baixo e, encarando os cacos amontoados e sujos de sangue, me reconheci, pela primeira vez, naquele ser desconstruído e repleto de olhos mareados, narizes e bochechas rosadas. Tudo aquilo era eu. Já não via ali um homem ou mulher, mas sim o alívio do “não ser”, do incógnito. Com uma leveza que me era estranha, vi todos aqueles fragmentos se contorcerem outra vez para formar, em todas as minhas bocas, o sorriso mais lindo que já dei.

Fluido

24 de novembro de 2016

Não há nada no palco além do chão, das paredes do fundo e das cortinas negras.
O público ouve o terceiro sinal do teatro e, acomodando-se nas poltronas, silencia.
Faz-se um instante de silêncio absoluto.
Dois instantes.
Três.
O silêncio chega a ficar palpável.
No momento em que as pessoas começam a se mexer e se entreolhar, desconfortáveis, uma luz ilumina o canto direito do palco. Surge então, banhado por ela, um garoto com um vestido de balé. Em um primeiro momento, o desconforto volta a surgir. Pessoas se endireitam nas poltronas e algumas trocam risadinhas. O silêncio, no entanto, volta a reinar quando o garoto caminha até o centro do palco, para, e encara a plateia com os olhos mareados.
Ninguém sabe se ele está emocionado ou triste.
Ele une os braços à frente do corpo, junta os calcanhares en dehors e fica assim, parado, até que o piano toca as primeiras notas.
O garoto leva um dos braços sobre cabeça e, mantendo-se em ponta, eleva uma das pernas. Adágio. Sem qualquer esforço aparente, ele impulsiona o corpo e gira como peão.
Ao piano juntam-se violinos.
O garoto continua sozinho.
Seus movimentos ganham um pouco mais de corpo. Plié. Demi-plié. Arabesque. No momento em que ele se estica com delicadeza, violoncelos se juntam ao piano e aos violinos.
O garoto continua sozinho.
Ele gira novamente sobre o próprio eixo. Sempre de olhos abertos. Os olhos sempre mareados. O palco parece diminuir a cada novo movimento do dançarino.
À orquestra junta-se o contrabaixo.
O garoto continua sozinho.
Ele se joga ao chão em um movimento tão fluido quanto a água e tão suave quanto a brisa. Estica os braços em direção ao público como se estivesse sedento de algo que não está ali, que não pertence ao balé. E apesar de a plateia não saber o que é, sabe claramente que o que a bailarina busca está dentro dela mesma, não fora.
Começam a soar os fagotes.
O garoto se estica no chão como se por ele quisesse ser tragado e, girando, ele se aproxima outra vez da lateral direita do palco.
Ouvem-se os oboés.
Apenas os oboés.
No teatro que, segundos antes, estava tomado pela música, apenas o agudo instrumento de sopro parece manter o garoto vivo. Ele se levanta de forma delicadamente brusca e se vira para o centro do palco, totalmente vazio.
Silêncio.
Começam a rufar, aos poucos, os tambores. Primeiro um, depois outro, depois outro. Juntam-se aos tambores todos os outros instrumentos e, num rompante que faz a plateia prender a respiração, o garoto corre, salta e paira no ar como se, naqueles segundos que se fizeram eternos, voasse.
Não há mais ninguém no palco, mas ele não está sozinho. Ele é o garoto, a bailarina, a orquestra, a plateia, o palco. Apenas um. Mas todos. E ninguém ali ousaria dizer o contrário.
Ele se vira, encara a plateia e, ao ouvir a última nota da orquestra, fecha os olhos.
Pelo seu rosto, escorre uma lágrima.

Aplausos.

Reforma

24 de abril de 2016

Eu me lembro até hoje do dia em que fui conhecer o meu apartamento.
Procurava por ele havia meses. Tinha visto muquifos custando fortunas, apartamentos que comportavam três quartos, sala de estar, sala de jantar, escritório, hall, varanda gourmet, dois banheiros e uma areazinha externa em 50m², casas ideais localizadas no fiofó do Judas, enfim, foi um alívio entrar naquele apartamento e perceber que tinha encontrado o meu cantinho.
Tudo era lindo, pintadinho, bem arrumado... Menos o banheiro. O banheiro era um horror. Enorme, mofado, com um piso chapiscado de cinza, azulejos floridos nas paredes, o armário tinha um ninho de baratas aladas e, pra fechar com chave de ouro, a privada e a pia eram roxas. Sério, roxo-beterraba. 
Desde o primeiro dia, eu queria reformar aquele banheiro. Meu sofrimento em relação a ele era físico. Dava até dor de barriga. Ainda bem que a privada, apesar de roxa, funcionava.
Mas como na vida nada é tão fácil, só quase quatro anos após a mudança eu finalmente consegui começar a tão sonhada reforma.
Meu pai foi até o apê pra fazer um projetinho e acabou por perceber que o banheiro era grande o suficiente pra virar dois. Era bom demais. Eu ganharia, além de um banheiro decente, uma suíte.
Que chique!
E de quebra ainda me livraria do lavabo do fundo, que eu não citei aqui antes, mas era bem mequetréfe.
Começaram as obras. Tiraram o armário das baratas e, com ele, a pia beterraba. Que alegria! Dali pra frente, tudo seguiu exatamente como planejado.

Por aproximadamente dois dias.

Aí, quebraram o chão de taco pra abrir a porta da suíte e descobriram que ele estava podre. Não acharia ruim trocar o taco se a casa inteira não fosse de taco. Mas tá podre, né? Fazer o quê? Troca o taco.
Poxa, mas por que ele tá podre? Ah, é por causa da umidade que vem do chão? Ah, é essa umidade que mofa as paredes? Então arruma as paredes, né? Lixa até o tijolo, passa mil produtos anti-mofo, passa impermeabilizante, passa massa e pinta todas as paredes. Todas. E aí troca o gesso, né? Porque essa moldura rococó é do tempo do onça. E essas janelas com persiana de madeira que já foram lar de 5 gerações de cupins? Aproveita e já troca. Já que tá no inferno, abraça o Bolsonaro. Então, aproveita e já transforma o lavabo mequetréfe numa lavanderia. Aí, o que era lavanderia vira cozinha e a cozinha vira copa (Quem disse que não ia ter copa?). E troca os batentes... E as portas... E as soleiras.

Enfim, a reforma ia durar só o mês de dezembro. Mas aí, especificamente em dezembro de 2015, teve aquele lance de natal, ano novo... Não deu. Ia ser entregue antes do carnaval, mas nada funciona antes do carnaval nesse país, né? Esquece. Antes da Páscoa saía com certeza. Só que a Páscoa foi cedo esse ano... Em março, é mole? Bom, o Lu faz aniversário em abril, pelo menos a festinha dele ia ser no apê e... Não, não foi. A próxima previsão é eu poder comemorar o meu aniversário em casa, no fim de maio.
Enquanto isso, vou sonhando com a minha caminha, meu sofazinho, meu Game of Thronezinho, e com a grana que preciso ganhar pra, terminado tudo isso, poder finalmente partir pra decoração, que é a parte massa.

E com os open houses, claro.

Na pior das hipóteses, a gente faz um open house junto com o natal.

Do ano que vem.

Quem sabe?

Sinta-se

2 de fevereiro de 2016


Primeiro escreveu um texto imenso sem pontuação alguma sem espaços ou qualquer sinal de parada porque não havia nada parado ali dentro apenas uma vontade incontrolável de despejar ideias negativas ruins sem nexo mas cheias de sentimento desesperado e vontade de chorar GRITAR e mandar meio mundo à merda. Não. Ninguém pode se encontrar em meio a tanto caos.

Então apagou.

Tentou de novo. Respirou fundo e foi escrevendo o que sentia. Usou pontos finais. Leu tudo depois. Viu. Que. Os. Pontos. Não. Faziam. Sentido. Sentiu-se presa entre pontos finais e sua capacidade invejável de concluir as ideias. Limitar. Os limites são um problema. Os limites são o problema.

Então apagou.

Pegou um espelhinho... Olhou-se e não se viu... Mirou os olhos vazios por horas e sentiu a queimação no estômago. Queria parar. Arrancar a gastrite com a mão. Equilibrar as barras, vírgulas, uma caralhada de travessões que a comprimiam, pontos finais que a restringiam e vontades condenáveis de ser reticente quando tudo que a obrigavam a fazer era ser exata. Seca. Pontual. Queria berrar, essa é que era a verdade. Permitir-se o inadmissível, mergulhar na escuridão na esperança de que, ao não ver mais nada e nem ninguém, conseguisse finalmente se enxergar. Mas não berrou. Não mergulhou. Não se viu. Leu o que tinha escrito e teve medo de expor o que não devia.


Então apagou.

Ao mestre, com carinho

18 de setembro de 2015

É duro.
Eu fecho os olhos aqui, depois dessa madrugada tão difícil, e só torço pra que você estivesse tranquilo no fim.
Me pediram pra rezar, coisa que não fazia havia anos.
Eu rezei.
Por você eu rezaria todos os dias, pelo resto da vida, se sentisse que isso te traria um segundo de paz que fosse.
Ontem rezei por você, pela tia e pelos meus primos.
Algumas coisas não têm explicação.
Um dia você está bem, escrevendo livros, poesias, filosofando, observando a vida daquele jeito que só você observava. No outro, não está.
Esse "não estar" é tão... Vazio... Que abre um buraco no peito, tira um pedaço que nunca vai voltar a ser preenchido.
Crescer dói por causa disso. A gente vai perdendo partes do coração que não só parecem como são fundamentais.
Nossa família é forte.
Essa família que você ajudou a construir é a mais forte que eu já vi.
Nós vamos ficar de pé, levantar a cabeça e seguir em frente matando a saudade com as lembranças mais lindas que você deixou - e que foram muitas.
Seu sorriso bonachão, bem como suas poesias, continuarão vivos na mente de todos que um dia, dentro de uma sala de aula ou não, foram seus alunos.
Obrigada por ter nos ensinado tanto!
Te amo, tio Maurílio. E vou te amar pra sempre.


"Ensinar é um exercício de imortalidade.
De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra.
O professor, assim, não morre jamais"

Vivência

30 de março de 2014

Eu vivo pelos shows que ainda não vi. Pelos beijos que não dei. Pelo sexo que não fiz. Pelas músicas que ainda não cantei repetidas e desafinadas vezes no chuveiro.
Eu vivo pela alegria que ainda não senti e pelas conquistas que ainda não tive, pelas pessoas que ainda não conheci e pelos textos que ainda são papéis em branco.
Eu acordo pelas surpresas que o dia pode ter e vou à cozinha pelas comidas que ainda não sei preparar. Saio pra trabalhar pelo futuro que ainda não chegou e estudo pra ensinar os filhos que não tive.
Sorrio porque tenho tempo. Porque, apesar da correria, tenho só 25 anos e dezenas (ou centenas, quem sabe?) de outros anos pela frente.
E choro pelo tempo que não volta, pelo amor que não volta, pelo amigo que não volta, sabendo, sempre, que choraria mais se nada daquilo tivesse existido.
Acordo para subir no palco. Para construir personagens. Para comover o público - mesmo que fora do teatro.
E caminho, sempre, com a ciência de que faz pouco tempo que aprendi a caminhar.
Levanto a cabeça e ando, corro, danço e vivo. Vomito sentimentos e engulo verdades exatas.
Corro.
Eu corro em busca de algo que ainda não tive e que não é exato.
Eu corro atrás da face louca e estúpida da plenitude sabendo que nunca, jamais, a alcançarei.
E que é melhor assim.
Mas fecho os olhos e descanso sobre a confortável cama do que já vivi.
E a cada dia me sinto 10 anos mais velha diante de tudo que já enfrentei.
Repouso a cabeça no ombro do amor que já encontrei e, mesmo assim, meu coração não sossega como o meu cérebro.
Eu estou aqui. Amanhã, quem sabe?

Eu sou aqui.

Amanhã?

Quem sabe?

O que não se diz

16 de janeiro de 2014

- Por que essa cara? Pensando em quê?
Eu... Eu preciso sentir dor.
Não que eu goste de sentir dor, é que eu preciso. Às vezes, eu tô vivendo e tá tudo bem, mas nada muda. Aí me bate uma dúvida e eu preciso me certificar de que ainda tô aqui e de que é uma decisão minha continuar a fazer o que eu faço. É isso, entende?
Quando eu soco a parede ou arranho o meu braço com a lapiseira, sinto aquela dor momentânea e incrível que prova que eu existo. E aí a necessidade passa. Eu posso voltar a viver como sempre e a fazer as coisas de sempre.
Eu me lembro da primeira vez que cortei o braço com a pontinha de ferro da lapiseira. Foi numa aula de História. Eu tava num momento bom, sem problemas, sem nada, era uma daquelas fases de calmaria da vida que irritam pra caramba. Eu odeio a inércia. Tenho o dom de encontrar a paz no caos de dentro da minha cabeça. Quando tudo fica calmo demais aqui na cachola, eu surto.
Naquele dia, eu peguei a lapiseira, encostei no braço e me arranhei. No primeiro segundo, não senti nada. Nos segundos seguintes, veio uma dor muito forte. Passei esses segundos de dor me perguntando por que tinha feito uma coisa idiota daquelas e aí, quando a dor passou, eu percebi que estava calma como nunca na vida e que a qualquer momento poderia acontecer alguma coisa que mudaria aquele estado de calmaria irritante. Eu estava viva. Eu tinha sangue nas veias e, se eu quisesse, podia chacoalhar as coisas.
É isso. Os cortes são chacoalhões.
Imagino que pular de paraquedas também seria um bom chacoalhão, mas convenhamos que dá menos trabalho se sentir viva com uma lapiseira que com um paraquedas.
Eu não tenho depressão. Eu não tô doente. Eu não sou triste. 
Eu só preciso me lembrar, com mais frequência do que as outras pessoas, talvez, de que não gosto de ir com a correnteza só por ir com a correnteza. Se eu vou com a correnteza é porque eu quero, é porque eu gosto, é porque a escolha é minha. Se eu não pulo na frente do metrô quando ele chega na estação, é porque eu não quero, eu não tenho vontade. Eu quero estar no controle do que posso estar. Mudar as coisas, movimentar a vida, aprender coisas novas, isso depende mais de mim que da vida em si.
O destino não existe. Eu faço o que eu quero com as coisas que aparecem pra mim. Eu gosto de mudar de ideia de uma hora pra outra. Eu gosto de ser o meu próprio deus.
Não, não tem nada de egoísta nisso, acho que o que tem é uma boa dose de lucidez.

- Você...? Você o quê?
Eu tava aqui pensando como deve ser bom pular de paraquedas.

Psicose

25 de novembro de 2013

Vejo-me de fora e há um breu. Só eu estou iluminada, mas por uma luz tão triste quanto eu.
Ouço vozes, sinto pessoas à minha volta, mas não vejo nada.
Busco ajuda e, quando encontro, tenho medo.
O medo me consome.
Abraço alguém que me toca de forma diferente de todos os outros. É confortável. E justamente por ser assim, não pode ser real. O conforto é uma mentira. Afasto-me porque prefiro o peso da realidade à mais uma vida de mentiras confortáveis. Braços agarram meus braços. Mexo as pernas em desespero. tento me prender a algo para que meus braços se libertem. Quando finalmente firmo os pés, outras mãos os puxam. Meu braços, no entanto, continuam presos. Meu corpo estica. Sinto minha barriga se abrir, o coração se partir e as vísceras saírem, revelando o que antes era só meu, o que eu guardava de mais feio, nojento e humano.
O silêncio toma conta do ambiente, mas minha mente grita.
Quero abrir os olhos, eu preciso abrir os olhos. Tiro a venda e fico ainda ainda mais cega.
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
A cegueira se transforma em consciência momentânea, em um instante de claridade antes da noite eterna.
Por que você acreditava em mim naquela hora e agora não?

Por favorpor favor, por favor, por favor, POR FAVOR

Abra as cortinas!


Carta aberta à Biba

14 de setembro de 2013

Eu sei que você não fugiria.
Não só porque não tinha motivo, mas também porque você passou a ter medo da rua quando tomou um chute de um lixeiro. Lembra?
Você ainda era filhote, acho que foi em 1998. Como todos os filhotes, principalmente os de vira-lata, você queria explorar o mundo e não tinha portão, grade ou dona louca desesperada correndo atrás de você que impedisse isso. Infelizmente, um dia você correu atrás do pé de um idiota e ele te deu um chute. Acho que foi a primeira vez que xinguei alguém de verdade.
Você não fugiria.
E não importa se agora, com 15 anos, você estava desorientada. Mesmo desorientada, você se desorientava só dentro de casa, onde, mesmo surda, mesmo cegueta, você sabia que estava perto da gente.
Eu sei que você não fugiu.
E não importa se, sem querer, alguém fechou o portão de casa e você ficou pra fora. Você não iria longe. Eu sei disso pelos motivos que já citei.

Já ouvi gente dizer que o cachorro vira-lata, quando fica velhinho, tenta se afastar dos donos pra morrer.

Eu sei que você pode ter feito isso. Só não acho justo, sabe?

Porque você tava comigo sempre. Você foi a primeira a saber do meu primeiro beijo, da primeira paixãozinha, você tava lá quando eu me formei no SESI e achava que não ia mais ver os meus amigos de sempre. Você tava lá quando eu passei no vestibular. Você tava lá quando eu me formei. Você tava lá quando eu viajei pra fora e tava lá também quando eu voltei. Você tava lá quando eu conheci o homem da minha vida. Você sempre esteve lá.
Eu acho injusto agora, quando você mais precisa, eu não estar perto... Eu nem saber aonde você está.

Biba, depois de sobreviver a picada de aranha, chute de lixeiro, crises de epilepsia e queda da sacada, você ganhou o apelido de Highlander. E eu sempre brincava, dizendo que você não morreria nunca. Eu não sei se você entendeu isso e resolveu se afastar pra gente não te ver sofrendo.
No meu peito, minha linda, você nunca vai morrer. Nunca.
Eu torço muito pra que você volte. E volte logo, pra gente poder cuidar um pouquinho de você, que sempre cuidou tanto da gente.
De qualquer forma, eu queria dizer que agradeço muito por ter tido a sorte de te conhecer e de me apaixonar por você logo no primeiro dia.
Eu te amo. Eu vou te amar pra sempre.
Marina

Biba Cury Reis

Estrela

7 de junho de 2013

"Meu pai disse que aqueles pontos, lá em cima, são espíritos do passado. Disse que quando a gente morre, vai lá pra cima e fica olhando pelas pessoas que estão aqui embaixo. Ajudando, sabe?! Ele falou que depois que a gente morre se transforma em luz pra guiar as pessoas que ficam. Aí eu disse que não sabia por que o pessoal daqui de baixo precisava de tanto guia. Ele explicou que eu ainda era muito pequeno pra entender algumas coisas, mas que um dia posso precisar de tanta ajuda que vou achar que faltam pontinhos lá em cima. Ele falou que quando esse dia chegar, se ele não estiver mais aqui com a gente, vai estar grudado lá naquele pano preto pra me ajudar a seguir em frente."

"Você não contou pra ele que a professora de Ciências deu uma aula sobre estrelas e constelações na semana passada?"

"E acabar com a inocência dele assim, sem mais nem menos? Eu nunca seria tão malvado."

Tempo perdido

23 de abril de 2013

Falta tempo. Essa é que é a verdade. O dia bem precisava ter umas 30 horas, 35...
Minha vida não é só trabalho, sabia? Eu estudo, resolvo um monte de pepinos da empresa, trabalho em casa depois do serviço, luto boxe e ainda durmo quatro horinhas por noite, senão a coisa não funciona. Ah, eu sei que o senhor vai falar "corta o boxe", mas, olha, sinceramente, se eu parar de socar o saco de pancadas vou acabar socando o Juninho do RH. O senhor sabe que eu não sou violento, mas o Juninho é um filho da... É um... Bom, o Juninho é cricri. Enfim, não estou dizendo que a falta de tempo é culpa do Juninho, ou do senhor, ou da empresa, mas vamos combinar que o cliente também não ajuda. Já falei que levo três dias pra entregar um projeto, mas, mesmo assim, eles me mandam o material hoje pedindo a entrega pra ontem. É humanamente impossível. Tudo bem se fosse só de vez em quando, mas eles nunca dão um prazo decente. Eu tô ficando estressado. E o senhor sabe o que acontece quando eu fico estressado. Primeiro o cérebro avisa o corpo de que precisa dormir mais, de que não quer continuar brincando. Se o corpo não respeita, já viu, o cérebro desliga e eu fico doente e perco uma semana em casa e o trabalho atrasa e... É, eu sei que o senhor vai dizer que é pra isso que serve o plano de saúde que vocês pagam, mas, senhor, acho que mereço um pouco mais de reconhecimento. Se não dá pra mudar esse esquema desumano de trabalho, pelo menos me pague um salário um pouco mais humano. Assim... Com todo o respeito.

Bom, acho que tá bom. Não posso esquecer de fazer essa cara de desesperado que fiz agora pro espelho. Espirrar pode ser uma boa ideia também, assim ele vê que eu tô doente de tanto trabalhar e fica com pena... É, ótimo, vamos lá.

Chefe?
"Hum".
Sobre o projeto de hoje...
"Hum".
Falta tempo. Essa é que é a verdade. O dia bem precisava ter umas 30 horas, 35...
"Se falta tempo, por que você está aqui me dizendo isso e não está trabalhando?"
Ah... É que...
"Detesto esse blablablá de que falta tempo pra tudo."
Mas, senhor, eu... Eu... Ah... Atchim.
"Tem remédio pra gripe no RH. Pede pro Juninho."
Mas, senhor... O que eu queria dizer era importante.
"Então diga."
Eu... Eu...
"Você o quê, rapaz?"
Eu... Sou... Alérgico a esse remédio que tem no RH. Posso ir à farmácia comprar outro?
"Pode, mas vai voando. Tempo é dinheiro, rapaz, tempo é dinheiro!"

A textura dos sonhos

3 de abril de 2013

Trabalho em equipe.
Acho que se fosse definir minha vida, seria desse jeito.
Um bom e belo trabalho em equipe.
Digo isso porque, desde que nasci, me acostumei a não fazer nada sozinha.

Só ir ao banheiro. Ao banheiro eu vou sozinha.

Mas tirando isso, seja nos momentos mais banais, seja nos mais importantes, estou sempre muito bem acompanhada e consciente de que posso contar com quem está ao meu redor.
Desta vez, não foi diferente.
É com muito orgulho, prazer e um sorriso na cara daqueles que fazem cócegas nas orelhas, que apresento a vocês o resultado do trabalho de uma grande equipe...

O PERIPÉCIAS NAS ENTRELINHAS VIROU LIVRO!

Sim, é isso mesmo.

LIVRO. Desses de papel. Desses que lemos com atenção e que nos fazem rir e chorar. Desses que damos de presente, que têm cheirinho de novo e uma capa bonita e simples que já antecipa o que será encontrado em cada página.

O Peripécias saiu do mundo virtual. Agora é real. Concreto.

É um sonho que acaba de ganhar textura de livro.

E, como já disse antes, a materialização desse sonho só foi possível com a ajuda de pessoas extremamente importantes.
Capa, contracapa, diagramação, revisão e prefácio foram feitos pelos meus irmãos. De sangue ou não. Gente de quem me orgulho muito e que vou levar sempre comigo.
Obrigada, André, Heitor e Tyler.
Acho que nunca vou ser grata o suficiente a vocês.

Agora você, leitor, já pode conferir o resultado desse belo trabalho em equipe.
Lá, você poderá conferir a capa, as primeiras páginas, as características da obra e compra-la pela internet. Para agradar a todos, o livro está disponível também na versão e-book.

Os textos foram selecionados com muito cuidado e carinho. Eles traduzem o que vejo em mim e no mundo à minha volta.
São páginas repletas.
Assim, repletas "ponto final".
Do que elas são repletas, cabe ao leitor descobrir.
Acesse, confira, comente, deixe seu pitaco aqui ou na página da editora, afinal, esse é um momento feliz demais para não ser compartilhado com os amigos.
Ainda mais com amigos tão especiais.
A todos vocês, muito, muitíssimo obrigada!

Titica na cabeça

20 de março de 2013

- Você pegou pão de alho?
- Peguei.
- Picanha?
- Que picanha o quê?! Cada um deu dez reais pro churrasco. Se a gente comprar picanha não sobra dinheiro pra cerveja.
- Tá, quanto a gente pegou de cerveja?
- Noventa reais.
- Ah... Então sobram dez reais pra carne, é isso?
- É... Não, pera aí... Ah, é, é isso mesmo.
- Bom, o jeito vai ser comprar coração de frango.
- Eca! De jeito nenhum!
- Não gosta?
- Olha, eu gostava bastante quando era criança, mas quando descobri que o "coração de frango" era coração mesmo, não consegui mais comer.
- Como assim?
- Ué, pra mim era só uma carne com um nome engraçado.
- Cara, isso não faz o menor sentido!
- Claro que faz! Pensa comigo, "patinho", por exemplo, não é carne de pato, "lagarto" não é lagarto, "cupim" graças a Deus não é cupim mesmo, por que diabos o "coração" tinha que ser coração?
- ...
- Tive uma ideia melhor, vamos pegar asinha.
- ... Você sabe o que é a asinha, não sabe?
- Claro que sei, né?!
- O problema é o mesmo do coração!
- Não é não!
- Qual é a diferença? Vai me dizer que asa do frango não bate mais forte quando ele se apaixona?
- Bom... Asa ele tem duas, coração tem um só...
- E?
- E que se a gente tirar uma asa, ele não vai morrer, só vai deixar de voar. Não é óbvio?
- É... Claro... Óbvio.

Sem pausas

21 de fevereiro de 2013

Correu como se nada mais houvesse e nada mais importasse Quase foi atropelada na correria por um carro e depois por uma moto mas nada aconteceu Nada aconteceria A cada passo sentia o coração batendo mais forte mais rápido Tinha ganhado um beijo Um beijo de verdade molhado na boca daqueles que deixam a perna bamba e a vida bamba atrás das pernas Ainda no caminho tirou a chave da bolsa e a segurou na posição certa para abrir a porta e entrar correndo e quando chegou finalmente entrou pegou o caderno dentro do armário procurou uma caneta abriu o caderno respirou e
Sorriu
Suspirou
Deixou que uma lágrima de felicidade escorresse
E rindo pôs pra fora o que lhe escorria pelos poros e enfeitou seu caderno com as mais belas palavras da língua e quando não encontrava palavras suficientes inventava adjetivos novesíssimos e lindonérrimos Deixava que a caneta dançasse já que as pernas se recusavam a parar de tremer e escreveu até que o pulso doesse e o sono batesse e o coração se acalmasse e todo o corpo ficasse
finalmente
em paz

Sobre o amor e um belo par de brincos

24 de janeiro de 2013

Eu nunca liguei pra coisas de menininha.
Brincos, colares, maquiagem, salto alto... Pra mim, isso tudo sempre foi desnecessário e chato.
Vivia rindo das meninas que perdiam horas (sim, HORAS) "se arrumando" pra sair de casa.
No auge da adolescência, tinha uma mochila, um sapato de salto, um vestido, quatro calças jeans, quatro pares de tênis e 10 camisetas.
Até aí, tudo bem, cada um com o seu estilo.
Depois de velha perdi um pouco do preconceito e comecei a usar coisas mais femininas, mas nunca fui de frescura, nunca me matei pra pagar um sapato, e nunca, repito, nunca liguei quando perdia uma bijuteria ou algo do tipo.
Porque mulheres perdem bijus, não sei se você sabe disso, mas acontece com certa frequência.
Mas aí, outro dia, você me deu um par de brincos.
Lindo, lindo como nunca achei que acharia um par de brincos.
Tive vontade de pendurar na orelha e sair mostrando pra todo mundo na rua, mas me contive e mostrei só pro pessoal de casa.
Na noite seguinte, fiz questão de usa-los pra sair com você. Me enchi de alegria quando você notou que eu estava com os brincos que você tinha me dado, e quis, naquela hora, que você me arrancasse os brincos, as roupas e me amasse ali mesmo. Mas só saímos de casa e fomos a um bar com os amigos.
Na manhã seguinte, guardei os brincos na bolsa, porque eram lindos demais e brilhantes demais pra se usar durante um dia longe de você.
E qual não foi minha surpresa quando cheguei em casa, abri a bolsa e um dos brincos não estava lá!
Revirei a bolsa, mas só encontrei um dos brincos.
De repente, o dia perdeu a graça e me deu um vazio tremendo. Uma tristeza.
Me deu vontade de chorar.
Sabe, não era só um brinco, era o brinco que você tinha me dado.
Saí correndo de casa, abri o portão e procurei desesperada pela calçada.
Pra minha sorte, ele estava lá. Provavelmente caiu quando tirei a chave da bolsa.
E então o dia voltou a ter graça porque o brinco que você tinha me dado estava ali, comigo.
Porque você estava ali comigo.
Porque entendi, enfim, que tudo que você me dá me transforma, e que eu gosto cada vez mais de mim quando estou com você.

Só no sapatinho

22 de janeiro de 2013

Leonel era um cara honesto, trabalhador, casado e respeitoso. Professor, sempre deu duro para sustentar a família que tanto amava.
Um de seus melhores amigos era Lúcio, que além de grande professor era também um grande galinha.
Cada dia da semana, um dos dois ia de carro e dava carona ao outro.
Era uma boa forma de economizar na gasolina.
Na sexta, foram com o carro do Leonel.
Ao chegar na escola, Lúcio foi informado de que seus alunos não iriam porque era sexta, era noite, o céu estava estrelado e a cerveja do bar da frente era gelada demais para ficarem dentro de uma sala de aula.
Lúcio até gostou. Tinha combinado de se encontrar com uma "delicinha" depois da aula. Não teve dúvida, pediu o carro de Leonel emprestado e foi curtir a noite.
Voltou no fim do expediente pra buscar o amigo e devolver o carro.
No dia seguinte, Leonel colocou a mulher, a sogra e as duas filhas pequenas no carro para curtir o sabadão em família. Todas entraram, Leo ajudou a colocar a filha menor na cadeirinha e se sentou no banco do motorista. Quando foi pegar o freio de mão para soltá-lo, pegou, para sua surpresa, um sapato de salto.
Gelou e tentou disfarçar o susto. Jogou o sapato para baixo do seu banco torcendo pra que a esposa não tivesse notado nada.
Como ele explicaria aquilo?
Algo lhe dizia que o velho "Eu não sei como isso veio parar aqui" não funcionaria. Ele precisava agir, precisava ser rápido e ninguém podia notar. Foi dirigindo em direção ao shopping enquanto esperava pela oportunidade perfeita.
Estava parado no semáforo quando a oportunidade surgiu. Um carro de papai noel atravessou a avenida da frente fazendo a maior farra. Ele esperou que todas olhassem para o outro lado e não teve dúvida, arremessou o sapato pela janela.
Ufa!
Assunto resolvido. Depois ele pegaria o Lúcio pelo pescoço, mas pelo menos do problema maior ele já havia se livrado.
Chegando ao shopping ele estacionou, pegou a filha e já estava se afastando do carro quando teve de segurar o riso, manter a compostura e voltar para ajudar a sogra, que, desesperada e confusa, procurava pelo pé direito de seu sapato novinho.

Branco

16 de janeiro de 2013

Poucas coisas desafiam tanto quanto uma página em branco.

Silenciosa.

Tão cheia de nada e tão aberta a tudo.

Ainda assim, vazia.

Ela que, branca, espera pacientemente que traços a enfeitem ou sujem.

E quantos desses traços não são palavras, mesmo que traduzidas em imagens?

Poucas coisas podem sujar tanto quanto as palavras erradas.

Imagino, em cada folha branca, a brancura enfrentada por Machado, Picasso, Mozart...

Penso em tudo que foram capazes de fazer com suas folhas em branco.

Esqueçam as bombas, o petróleo, o dinheiro. As maiores mudanças humanas foram feitas por pessoas que sabiam como usar folhas em branco.

Por isso, cada vez que me sento diante do computador, peço licença a essas pessoas que mudaram o mundo com suas letras e sentimentos.

Cada vez que alguém diz que chorou ou riu ao ler algum dos meus textos, muito mais que meu ego, minha consciência do valor das palavras aumenta muito.

Hoje, respeito as folhas em branco como quem respeita um deus.

O que não significa que eu não escreva bobagens. Apenas que cada bobagem escrita é pensada e repensada com carinho antes de ser publicada.

É consciente.

Também por isso, muitas vezes, fico longos períodos sem postar nada. E me desculpem.

O Peripécias está vivo, está bem e terá novidades em breve, isso eu garanto.

Que neste ano novo a rotina não interfira na criatividade, os sentimentos transbordem e enfeitem as folhas em branco e que os grandes escritores me perdoem por minhas bobagens, pois, parafraseando Cazuza - que sempre soube muito bem como preencher suas folhas em branco:

'Tem gente que recebe deus quando escreve.
Tem gente que escreve procurando deus.
Escrevo sim, com minhas pontuações mal-colocadas,
E peço a deus que me perdoe, mesmo assim.
Eu sou assim, escrevo pra me mostrar,
De besta.'