Você chegou destruindo tudo.
Barreiras, medos, e, acima de tudo, minha inocência.
Não falo de virgindade, falo de inocência mesmo, da crença que eu tinha nas pessoas.
Antes de você, eu acreditava nas pessoas.
Eu acreditava no amor.
Eu acreditava no companheirismo.
Eu acreditava na amizade.
Eu acreditava em mim.
Caramba, eu acreditava em MIM!
E você jogou minhas crenças no lixo. Me enfiou num saco preto, foi até o córrego podre da cidade e me arremessou lá dentro.
Você ria.
Ria de mim.
E quando eu pensava em sair da merda do saco, só ouvia sua risada.
Me tranquei pro mundo porque o mundo era uma mentira.
Passei anos fantasiando uma vida toda fora daquele saco, e quando começava a acreditar que podia sair, lembrava da sua risada, da sua cara, dos seus malditos olhos claros.
Você olhava nos meus olhos.
Olhava, no fundo, e mentia.
Fui enganada pela mentira de que os olhos são o espelho da alma.
São nada.
Podem até ser o espelho de algumas pessoas, mas em você não...em você eles eram o retrato de alguém que você nunca foi e que eu sempre imaginei que fosse.
Você me olhava e ria.
Maldita risada.
Tive que lutar todos os dias pra quebrar cada mentira que você me contou.
Tive que voltar a acreditar em mim, primeiro.
Passei anos pra voltar a acreditar.
Anos.
Mas consegui.
EU CON-SE-GUI.
Ainda assim, não foi o suficiente pra acabar com o ódio que eu sentia de você.
Tive que lutar mais e voltar a acreditar nos amigos. Na bondade das pessoas. Na verdade.
Mas foi só quando voltei a acreditar no Amor que você caiu do pedestal no qual eu havia te colocado. Você ficava lá em cima, como uma imagem de santo que em vez de adorar eu detestava.
Quando voltei a acreditar no Amor, você perdeu a importância.
E foi aí, só aí, que pude falar sobre o que tinha acontecido sem desmoronar. Sem morrer de novo.
Você não sabe disso, mas eu morri. E pra voltar à vida tive que deixar coisa demais pra trás.
Não tenho medo de falar que me tornei quem sou hoje por sua causa.
Porque foi exatamente isso que aconteceu.
Você moldou quem eu sou hoje. Tanto em aspectos bons quanto em aspectos ruins. Principalmente nos ruins.
Eu não sei quem eu seria se você não tivesse me matado há 6 anos.
Isso também já não importa.
Tem gente que acredita que só há um amor na vida.
Eu rezei esses seis anos pra que isso não fosse verdade.
Não seria justo uma menina ter e perder o grande amor da vida aos 17 anos. Seria maldade demais.
Hoje, eu não tenho mais 17 anos.
Não tenho mais o rosto, o corpo, a cabeça e o olhar que tinha antes.
Não foi o tempo, foi você quem me tirou tudo isso.
Tirou não, me obrigou a mudar. A crescer.
E hoje, tantos anos depois, você aparece e assume seus erros. Conversa. Derruba esse ódio absurdo que cultivei por tanto tempo.
Hoje, pela primeira vez em seis anos, tiro um peso que carregava e que já nem sentia mais, de tão acostumada que estava.
Hoje, minha gastrite nervosa não vai atacar.
Hoje, eu vou beber e rir e voltar a me sentir inteira.
Não volto a ser quem eu era, porque isso é impossível.
Mas volto plenamente à vida.
E, por hoje, só por hoje, eu gostaria de agradecer.
Esses anos foram absurdamente difíceis.
Se você estiver lendo isso, saberá o quanto.
Mas hoje, assumindo uma atitude de homem pela primeira vez, você permitiu que eu respirasse.
Do fundo do coração, garoto, obrigada.
Muito, muito obrigada.
Semelhanças
Há 6 anos