Em Paz

2 de maio de 2011

Quando me encontrei com ele, descobri que o que doía não era a falta dele, era a falta do que ele me fazia sentir.
Tinha saudade não de um corpo, ou de um rosto, ou de um toque.
A saudade era do peso do corpo que se encaixava como eu queria, do toque que me fazia arrepiar, do frio na espinha a cada palavra sussurrada no ouvido, do olhar que me enxergava.
Durante muito tempo sonhei com o rosto dele, pra agora descobrir que meu peito só precisava de um rosto.
Só isso. Não necessariamente do dele, mas do de alguém que representasse a minha entrega.
Quando olhei pra ele e não vi nada, percebi que só o rosto não me valia.
Instantaneamente, assumiu seu lugar no meu peito um Não-Rosto. Um vazio.
Vazio que eu já conhecia.
Quando me afastei, senti um nó na garganta. Chorei de dor. Dor mesmo. Porque esse vazio, esse nada, dói pra caramba.
Ele arrombou uma porta que eu sempre mantenho trancada. Nem bateu. Chegou chutando, mas com delicadeza, e me encontrou escondida lá dentro, sentada no chão, abraçada com meus joelhos.
Ver a luz de fora pra quem está há tanto tempo no escuro não é fácil. Se sentir sozinha na hora de enfrentar essa luz, também não.
Era disso que eu me escondia, acho. Dessa solidão em meio a tanta gente que eu sinto agora.
No entanto, descobrir que não devo essa solidão a um rosto, mas ao que posso sentir por alguém, saber que posso encontrar em outros rostos o sorriso que resumia tudo o que eu buscava no mundo e, mais que isso, saber que não quero voltar pro escuro mesmo sentindo um impulso enorme de fazer isso, me deixou aliviada.
E esse alívio sobrepôs qualquer vazio.
Esse alívio me deixou em paz.

8 pitacos:

Ana ó disse...

ahazou, linda ;*

ladyjesus disse...

É exatamente isso: o alívio de descobrir que não falta um alguém mas, simplesmente, alguém. Adoro os textos, sempre a sua cara.

Beijos!

Anônimo disse...

Muito bom! Parabens!

Marina disse...

Não sinto mais esse alívio. O vazio começou a doer demais.

Jullia A. disse...

As vezes prefiro sentar no meu escurinho. Mas talvez no fundo uma esperança de ele abrir, e eu perceber que é só um rosto. E quem sabe sentir alívio.

Arruda disse...

Noos, bom demais Marina! Bom mesmo!! Você escreve bem demais!

Quanto ao texto... é bem assim que eu fiquei nos últimos tempos...tenho idéia do que seja isso

Willowbark disse...

É amar o amor, como acontece sempre... Até que um dia el chega, com um rosto e um corpo, infinito enquanto dura.

patricia disse...

Má,exageradamente visceral.Adorei!!!