Fluido

24 de novembro de 2016

Não há nada no palco além do chão, das paredes do fundo e das cortinas negras.
O público ouve o terceiro sinal do teatro e, acomodando-se nas poltronas, silencia.
Faz-se um instante de silêncio absoluto.
Dois instantes.
Três.
O silêncio chega a ficar palpável.
No momento em que as pessoas começam a se mexer e se entreolhar, desconfortáveis, uma luz ilumina o canto direito do palco. Surge então, banhado por ela, um garoto com um vestido de balé. Em um primeiro momento, o desconforto volta a surgir. Pessoas se endireitam nas poltronas e algumas trocam risadinhas. O silêncio, no entanto, volta a reinar quando o garoto caminha até o centro do palco, para, e encara a plateia com os olhos mareados.
Ninguém sabe se ele está emocionado ou triste.
Ele une os braços à frente do corpo, junta os calcanhares en dehors e fica assim, parado, até que o piano toca as primeiras notas.
O garoto leva um dos braços sobre cabeça e, mantendo-se em ponta, eleva uma das pernas. Adágio. Sem qualquer esforço aparente, ele impulsiona o corpo e gira como peão.
Ao piano juntam-se violinos.
O garoto continua sozinho.
Seus movimentos ganham um pouco mais de corpo. Plié. Demi-plié. Arabesque. No momento em que ele se estica com delicadeza, violoncelos se juntam ao piano e aos violinos.
O garoto continua sozinho.
Ele gira novamente sobre o próprio eixo. Sempre de olhos abertos. Os olhos sempre mareados. O palco parece diminuir a cada novo movimento do dançarino.
À orquestra junta-se o contrabaixo.
O garoto continua sozinho.
Ele se joga ao chão em um movimento tão fluido quanto a água e tão suave quanto a brisa. Estica os braços em direção ao público como se estivesse sedento de algo que não está ali, que não pertence ao balé. E apesar de a plateia não saber o que é, sabe claramente que o que a bailarina busca está dentro dela mesma, não fora.
Começam a soar os fagotes.
O garoto se estica no chão como se por ele quisesse ser tragado e, girando, ele se aproxima outra vez da lateral direita do palco.
Ouvem-se os oboés.
Apenas os oboés.
No teatro que, segundos antes, estava tomado pela música, apenas o agudo instrumento de sopro parece manter o garoto vivo. Ele se levanta de forma delicadamente brusca e se vira para o centro do palco, totalmente vazio.
Silêncio.
Começam a rufar, aos poucos, os tambores. Primeiro um, depois outro, depois outro. Juntam-se aos tambores todos os outros instrumentos e, num rompante que faz a plateia prender a respiração, o garoto corre, salta e paira no ar como se, naqueles segundos que se fizeram eternos, voasse.
Não há mais ninguém no palco, mas ele não está sozinho. Ele é o garoto, a bailarina, a orquestra, a plateia, o palco. Apenas um. Mas todos. E ninguém ali ousaria dizer o contrário.
Ele se vira, encara a plateia e, ao ouvir a última nota da orquestra, fecha os olhos.
Pelo seu rosto, escorre uma lágrima.

Aplausos.

Reforma

24 de abril de 2016

Eu me lembro até hoje do dia em que fui conhecer o meu apartamento.
Procurava por ele havia meses. Tinha visto muquifos custando fortunas, apartamentos que comportavam três quartos, sala de estar, sala de jantar, escritório, hall, varanda gourmet, dois banheiros e uma areazinha externa em 50m², casas ideais localizadas no fiofó do Judas, enfim, foi um alívio entrar naquele apartamento e perceber que tinha encontrado o meu cantinho.
Tudo era lindo, pintadinho, bem arrumado... Menos o banheiro. O banheiro era um horror. Enorme, mofado, com um piso chapiscado de cinza, azulejos floridos nas paredes, o armário tinha um ninho de baratas aladas e, pra fechar com chave de ouro, a privada e a pia eram roxas. Sério, roxo-beterraba. 
Desde o primeiro dia, eu queria reformar aquele banheiro. Meu sofrimento em relação a ele era físico. Dava até dor de barriga. Ainda bem que a privada, apesar de roxa, funcionava.
Mas como na vida nada é tão fácil, só quase quatro anos após a mudança eu finalmente consegui começar a tão sonhada reforma.
Meu pai foi até o apê pra fazer um projetinho e acabou por perceber que o banheiro era grande o suficiente pra virar dois. Era bom demais. Eu ganharia, além de um banheiro decente, uma suíte.
Que chique!
E de quebra ainda me livraria do lavabo do fundo, que eu não citei aqui antes, mas era bem mequetréfe.
Começaram as obras. Tiraram o armário das baratas e, com ele, a pia beterraba. Que alegria! Dali pra frente, tudo seguiu exatamente como planejado.

Por aproximadamente dois dias.

Aí, quebraram o chão de taco pra abrir a porta da suíte e descobriram que ele estava podre. Não acharia ruim trocar o taco se a casa inteira não fosse de taco. Mas tá podre, né? Fazer o quê? Troca o taco.
Poxa, mas por que ele tá podre? Ah, é por causa da umidade que vem do chão? Ah, é essa umidade que mofa as paredes? Então arruma as paredes, né? Lixa até o tijolo, passa mil produtos anti-mofo, passa impermeabilizante, passa massa e pinta todas as paredes. Todas. E aí troca o gesso, né? Porque essa moldura rococó é do tempo do onça. E essas janelas com persiana de madeira que já foram lar de 5 gerações de cupins? Aproveita e já troca. Já que tá no inferno, abraça o Bolsonaro. Então, aproveita e já transforma o lavabo mequetréfe numa lavanderia. Aí, o que era lavanderia vira cozinha e a cozinha vira copa (Quem disse que não ia ter copa?). E troca os batentes... E as portas... E as soleiras.

Enfim, a reforma ia durar só o mês de dezembro. Mas aí, especificamente em dezembro de 2015, teve aquele lance de natal, ano novo... Não deu. Ia ser entregue antes do carnaval, mas nada funciona antes do carnaval nesse país, né? Esquece. Antes da Páscoa saía com certeza. Só que a Páscoa foi cedo esse ano... Em março, é mole? Bom, o Lu faz aniversário em abril, pelo menos a festinha dele ia ser no apê e... Não, não foi. A próxima previsão é eu poder comemorar o meu aniversário em casa, no fim de maio.
Enquanto isso, vou sonhando com a minha caminha, meu sofazinho, meu Game of Thronezinho, e com a grana que preciso ganhar pra, terminado tudo isso, poder finalmente partir pra decoração, que é a parte massa.

E com os open houses, claro.

Na pior das hipóteses, a gente faz um open house junto com o natal.

Do ano que vem.

Quem sabe?

Sinta-se

2 de fevereiro de 2016


Primeiro escreveu um texto imenso sem pontuação alguma sem espaços ou qualquer sinal de parada porque não havia nada parado ali dentro apenas uma vontade incontrolável de despejar ideias negativas ruins sem nexo mas cheias de sentimento desesperado e vontade de chorar GRITAR e mandar meio mundo à merda. Não. Ninguém pode se encontrar em meio a tanto caos.

Então apagou.

Tentou de novo. Respirou fundo e foi escrevendo o que sentia. Usou pontos finais. Leu tudo depois. Viu. Que. Os. Pontos. Não. Faziam. Sentido. Sentiu-se presa entre pontos finais e sua capacidade invejável de concluir as ideias. Limitar. Os limites são um problema. Os limites são o problema.

Então apagou.

Pegou um espelhinho... Olhou-se e não se viu... Mirou os olhos vazios por horas e sentiu a queimação no estômago. Queria parar. Arrancar a gastrite com a mão. Equilibrar as barras, vírgulas, uma caralhada de travessões que a comprimiam, pontos finais que a restringiam e vontades condenáveis de ser reticente quando tudo que a obrigavam a fazer era ser exata. Seca. Pontual. Queria berrar, essa é que era a verdade. Permitir-se o inadmissível, mergulhar na escuridão na esperança de que, ao não ver mais nada e nem ninguém, conseguisse finalmente se enxergar. Mas não berrou. Não mergulhou. Não se viu. Leu o que tinha escrito e teve medo de expor o que não devia.


Então apagou.

Ao mestre, com carinho

18 de setembro de 2015

É duro.
Eu fecho os olhos aqui, depois dessa madrugada tão difícil, e só torço pra que você estivesse tranquilo no fim.
Me pediram pra rezar, coisa que não fazia havia anos.
Eu rezei.
Por você eu rezaria todos os dias, pelo resto da vida, se sentisse que isso te traria um segundo de paz que fosse.
Ontem rezei por você, pela tia e pelos meus primos.
Algumas coisas não têm explicação.
Um dia você está bem, escrevendo livros, poesias, filosofando, observando a vida daquele jeito que só você observava. No outro, não está.
Esse "não estar" é tão... Vazio... Que abre um buraco no peito, tira um pedaço que nunca vai voltar a ser preenchido.
Crescer dói por causa disso. A gente vai perdendo partes do coração que não só parecem como são fundamentais.
Nossa família é forte.
Essa família que você ajudou a construir é a mais forte que eu já vi.
Nós vamos ficar de pé, levantar a cabeça e seguir em frente matando a saudade com as lembranças mais lindas que você deixou - e que foram muitas.
Seu sorriso bonachão, bem como suas poesias, continuarão vivos na mente de todos que um dia, dentro de uma sala de aula ou não, foram seus alunos.
Obrigada por ter nos ensinado tanto!
Te amo, tio Maurílio. E vou te amar pra sempre.


"Ensinar é um exercício de imortalidade.
De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra.
O professor, assim, não morre jamais"

Sobre o amor e outras loucuras

21 de outubro de 2014

Gratidão.

Acho que é isso que eu sinto neste momento e que mal cabe em mim.
Eu penso em tudo que aconteceu nesses últimos meses, nas viagens, nas provas de vestido, na correria, na ausência sentida, no abraço e no beijo que tiveram que ficar pra depois... Lembro das dúvidas sobre cores, flores, roupas, convite e da alegria de se chegar a um acordo sobre tudo isso pra que, no fim, fizéssemos uma festa digna do amor que seria celebrado.

A bem da verdade, a ideia inicial era fazer um churrascão.

Isso porque nosso amor não tem frescura, não exige black tie ou filé mignon ao molho madeira.
Mas a família é grande, sabem como é, e um churrascão, mesmo "ão", não comporta tanta gente assim.

Fora isso, eu sempre quis me casar de noiva.

É, eu sei, não faz o menor sentido se você me conhece, mas sempre achei linda a ideia de estar de branco e entrar de braço dado com o meu pai (os românticos se escondem sob as carapaças mais grossas, meu amigo, essa é a real).

Aos poucos, transformamos nosso churrascão numa festa enorme e linda, com uma certa frescura, sim, mas também com a nossa cara. E foi só quando cheguei lá, subi a ponte que dava pro chalé no meio do lago e vi o Luiz rodeado pelos nossos pais e irmãos, que entendi que aquele era de fato o dia mais feliz da minha vida. Quando ele olhou pra mim com aquele sorriso que chegava na orelha de tão grande, eu vi que era ali que eu queria estar e que nada poderia apagar aquele momento.

Eu sou grata. Ao Luiz, acima de tudo, por me permitir amar alguém por completo, por me fazer querer ser sempre melhor e por ser a pessoa que eu vou lutar todos os dias pra fazer feliz. Aos meus pais e sogros, que empreenderam essa jornada louca de fazer um casamento gigantesco, do tamanho da nossa família (Cury, Reis, Justini e Araujo). Aos nossos irmãos, Sandra, Rodrigo, Patrícia, Débora, André e Heitor, nossos padrinhos no casamento e na vida. Ao padre Tarcísio, que fez uma cerimônia bonita que só. À Helena, que se juntou a mais dois grandes músicos e encantou a nossa cerimônia. À tia Sirlene, que fez consultoria de moda pra metade dos convidados. Ao tio Vênio, que me levou pro casamento na nave mega-power que ele chama de carro. Aos tios Ivar e Rose que buscaram e levaram o padre pra chácara. À tia Silvana, que fez a leitura na cerimônia e emocionou todo mundo. Ao tio Manobra, que desejou à mim e ao Luiz a mesma felicidade que ele teve no casamento dele. À tia Mara, que quebrou os protocolos e me abraçou na hora que ela quis. À Luiza, que fez a mesmíssima coisa. Ao Enzo, nosso sobrinho lindo, que fez questão de levar nossas alianças. E, generalizando, mas não diminuindo, a todos os tios, tias, primos, primas, parentes distantes, grandes amigos meus, do Luiz, dos meus pais, dos meus sogros. A todos. Todos que estiveram presentes (fisicamente ou de coração) e que trabalharam duro (ou beberam todas) pra que essa festa virasse o que virou.

Obrigada!

Dizem que o casamento é a celebração da família.
Eu, sem dúvida, tenho a melhor família do mundo.

Um beijo a todos,

Ma


Vivência

30 de março de 2014

Eu vivo pelos shows que ainda não vi. Pelos beijos que não dei. Pelo sexo que não fiz. Pelas músicas que ainda não cantei repetidas e desafinadas vezes no chuveiro.
Eu vivo pela alegria que ainda não senti e pelas conquistas que ainda não tive, pelas pessoas que ainda não conheci e pelos textos que ainda são papéis em branco.
Eu acordo pelas surpresas que o dia pode ter e vou à cozinha pelas comidas que ainda não sei preparar. Saio pra trabalhar pelo futuro que ainda não chegou e estudo pra ensinar os filhos que não tive.
Sorrio porque tenho tempo. Porque, apesar da correria, tenho só 25 anos e dezenas (ou centenas, quem sabe?) de outros anos pela frente.
E choro pelo tempo que não volta, pelo amor que não volta, pelo amigo que não volta, sabendo, sempre, que choraria mais se nada daquilo tivesse existido.
Acordo para subir no palco. Para construir personagens. Para comover o público - mesmo que fora do teatro.
E caminho, sempre, com a ciência de que faz pouco tempo que aprendi a caminhar.
Levanto a cabeça e ando, corro, danço e vivo. Vomito sentimentos e engulo verdades exatas.
Corro.
Eu corro em busca de algo que ainda não tive e que não é exato.
Eu corro atrás da face louca e estúpida da plenitude sabendo que nunca, jamais, a alcançarei.
E que é melhor assim.
Mas fecho os olhos e descanso sobre a confortável cama do que já vivi.
E a cada dia me sinto 10 anos mais velha diante de tudo que já enfrentei.
Repouso a cabeça no ombro do amor que já encontrei e, mesmo assim, meu coração não sossega como o meu cérebro.
Eu estou aqui. Amanhã, quem sabe?

Eu sou aqui.

Amanhã?

Quem sabe?

O que não se diz

16 de janeiro de 2014

- Por que essa cara? Pensando em quê?
Eu... Eu preciso sentir dor.
Não que eu goste de sentir dor, é que eu preciso. Às vezes, eu tô vivendo e tá tudo bem, mas nada muda. Aí me bate uma dúvida e eu preciso me certificar de que ainda tô aqui e de que é uma decisão minha continuar a fazer o que eu faço. É isso, entende?
Quando eu soco a parede ou arranho o meu braço com a lapiseira, sinto aquela dor momentânea e incrível que prova que eu existo. E aí a necessidade passa. Eu posso voltar a viver como sempre e a fazer as coisas de sempre.
Eu me lembro da primeira vez que cortei o braço com a pontinha de ferro da lapiseira. Foi numa aula de História. Eu tava num momento bom, sem problemas, sem nada, era uma daquelas fases de calmaria da vida que irritam pra caramba. Eu odeio a inércia. Tenho o dom de encontrar a paz no caos de dentro da minha cabeça. Quando tudo fica calmo demais aqui na cachola, eu surto.
Naquele dia, eu peguei a lapiseira, encostei no braço e me arranhei. No primeiro segundo, não senti nada. Nos segundos seguintes, veio uma dor muito forte. Passei esses segundos de dor me perguntando por que tinha feito uma coisa idiota daquelas e aí, quando a dor passou, eu percebi que estava calma como nunca na vida e que a qualquer momento poderia acontecer alguma coisa que mudaria aquele estado de calmaria irritante. Eu estava viva. Eu tinha sangue nas veias e, se eu quisesse, podia chacoalhar as coisas.
É isso. Os cortes são chacoalhões.
Imagino que pular de paraquedas também seria um bom chacoalhão, mas convenhamos que dá menos trabalho se sentir viva com uma lapiseira que com um paraquedas.
Eu não tenho depressão, antes que você comece com esse papo besta de depressão. Eu não tô doente. Eu não sou triste. Eu não tive uma infância problemática.
Eu só preciso me lembrar, com mais frequência do que as outras pessoas, talvez, de que não gosto de ir com a correnteza só por ir com a correnteza. Se eu vou com a correnteza é porque eu quero, é porque eu gosto, é porque a escolha é minha. Se eu não pulo na frente do metrô quando ele chega na estação, é porque eu não quero, eu não tenho vontade. Eu quero estar no controle do que posso estar. Mudar as coisas, movimentar a vida, aprender coisas novas, isso depende mais de mim que da vida em si.
O destino não existe. Eu faço o que eu quero com as coisas que aparecem pra mim. Eu gosto de mudar de ideia de uma hora pra outra. Eu gosto de ser o meu próprio deus.
Não, não tem nada de egoísta nisso, acho que o que tem é uma boa dose de lucidez.
E falar sobre o fato de que eu me corto não é fazer apologia. Eu não acho que porque isso é bom pra mim, vai ser bom pra todo mundo.
Mas que é bom pra mim, ah, isso é. Me faz bem pra cacete.
- Você...? Você o quê?
Eu tava aqui pensando como deve ser bom pular de paraquedas.

Psicose

25 de novembro de 2013

Vejo-me de fora e há um breu. Só eu estou iluminada, mas por uma luz tão triste quanto eu.
Ouço vozes, sinto pessoas à minha volta, mas não vejo nada.
Busco ajuda e, quando encontro, tenho medo.
O medo me consome.
Abraço alguém que me toca de forma diferente de todos os outros. É confortável. E justamente por ser assim, não pode ser real. O conforto é uma mentira. Afasto-me porque prefiro o peso da realidade à mais uma vida de mentiras confortáveis. Braços agarram meus braços. Mexo as pernas em desespero. tento me prender a algo para que meus braços se libertem. Quando finalmente firmo os pés, outras mãos os puxam. Meu braços, no entanto, continuam presos. Meu corpo estica. Sinto minha barriga se abrir, o coração se partir e as vísceras saírem, revelando o que antes era só meu, o que eu guardava de mais feio, nojento e humano.
O silêncio toma conta do ambiente, mas minha mente grita.
Quero abrir os olhos, eu preciso abrir os olhos. Tiro a venda e fico ainda ainda mais cega.
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
A cegueira se transforma em consciência momentânea, em um instante de claridade antes da noite eterna.
Por que você acreditava em mim naquela hora e agora não?

Por favorpor favor, por favor, por favor, POR FAVOR

Abra as cortinas!


Carta aberta à Biba

14 de setembro de 2013

Eu sei que você não fugiria.
Não só porque não tinha motivo, mas também porque você passou a ter medo da rua quando tomou um chute de um lixeiro. Lembra?
Você ainda era filhote, acho que foi em 1998. Como todos os filhotes, principalmente os de vira-lata, você queria explorar o mundo e não tinha portão, grade ou dona louca desesperada correndo atrás de você que impedisse isso. Infelizmente, um dia você correu atrás do pé de um idiota e ele te deu um chute. Acho que foi a primeira vez que xinguei alguém de verdade.
Você não fugiria.
E não importa se agora, com 15 anos, você estava desorientada. Mesmo desorientada, você se desorientava só dentro de casa, onde, mesmo surda, mesmo cegueta, você sabia que estava perto da gente.
Eu sei que você não fugiu.
E não importa se, sem querer, alguém fechou o portão de casa e você ficou pra fora. Você não iria longe. Eu sei disso pelos motivos que já citei.

Já ouvi gente dizer que o cachorro vira-lata, quando fica velhinho, tenta se afastar dos donos pra morrer.

Eu sei que você pode ter feito isso. Só não acho justo, sabe?

Porque você tava comigo sempre. Você foi a primeira a saber do meu primeiro beijo, da primeira paixãozinha, você tava lá quando eu me formei no SESI e achava que não ia mais ver os meus amigos de sempre. Você tava lá quando eu passei no vestibular. Você tava lá quando eu me formei. Você tava lá quando eu viajei pra fora e tava lá também quando eu voltei. Você tava lá quando eu conheci o homem da minha vida. Você sempre esteve lá.
Eu acho injusto agora, quando você mais precisa, eu não estar perto... Eu nem saber aonde você está.

Biba, depois de sobreviver a picada de aranha, chute de lixeiro, crises de epilepsia e queda da sacada, você ganhou o apelido de Highlander. E eu sempre brincava, dizendo que você não morreria nunca. Eu não sei se você entendeu isso e resolveu se afastar pra gente não te ver sofrendo.
No meu peito, minha linda, você nunca vai morrer. Nunca.
Eu torço muito pra que você volte. E volte logo, pra gente poder cuidar um pouquinho de você, que sempre cuidou tanto da gente.
De qualquer forma, eu queria dizer que agradeço muito por ter tido a sorte de te conhecer e de me apaixonar por você logo no primeiro dia.
Eu te amo. Eu vou te amar pra sempre.
Marina

Biba Cury Reis

Junho de 2013

16 de junho de 2013


Depois de anos da queda dos reis da ditadura, voltamos às ruas para lutar por direitos que nos são negados. Voltamos porque todos estão cansados. Voltamos para protestar contra os roubos descarados desse país, que hoje é mais famoso por sua corrupção que por seus títulos de futebol. Voltamos porque, quando nos tornamos sede da Copa, sabíamos que muito dinheiro - que não temos - seria (mal) investido em estádios de futebol que talvez sejam usados só durante a Copa. Enquanto isso, a saúde é precária, a educação é uma piada e a violência é cada vez maior.
Voltamos às ruas porque votamos mal. Votamos sabendo que quem quer que esteja lá, fará sempre a mesma merda. Votamos sonhando com uma mudança que nunca acreditamos que realmente aconteceria. E que não acontece.
E fazemos isso há anos. A cada eleição.
Temos ideias erradas sobre a democracia. Somos egoístas. Achamos que conhecemos a realidade das pessoas financeiramente diferentes de nós, mas não conhecemos, e não ligamos. E, se ligamos, não demonstramos qualquer indignação.
Voltamos às ruas por 20 centavos de aumento nas passagens de ônibus. Sim. Porque todos que já tiveram a necessidade de entrar em um ônibus/trem/metrô lotado em horário de pico sabem o quanto esse valor é abusivo em relação ao péssimo serviço prestado. E muitos que não foram às ruas pelo aumento das passagens, agora vão, porque se indignaram ao ver tantos policiais militares atacarem a população que tentava protestar, sem violência, por seus direitos. Essa mesma polícia que estranhamente se manteve omissa na Virada Cultural. Essa mesma polícia que, sob ordens do Estado, deveria manter nossa segurança.
Pagamos um absurdo em impostos e temos medo de sair de casa, de assalto, de estupro, de assassinatos, temos medo de passar mal e não ter um hospital que nos atenda. Temos dó de quem se forma professor e precisa trabalhar em escolas públicas. Temos medo de ter filhos e não ter dinheiro para pagar uma escola particular. Temos medo da polícia. E enquanto lutamos todos os dias para ter uma vida decente, os políticos que deveriam nos representar votam leis como a do nascituro, colocam Feliciano na CDH, ou simplesmente não se manifestam contra atrocidades porque precisam evitar a quebra de laços políticos.
Nós somos muitos.
E já não importa se o protesto que originou toda essa movimentação foi contra o aumento das passagens, ou pelos direitos dos homossexuais, ou contra a falta de respeito com os professores. Hoje, a manifestação é contra tudo isso que nos oprime como povo e que nos definia como "conformados".
Definia. Já não define mais.
Hoje, os reis sabem que, se baixarem a passagem, estarão mostrando ao povo que o povo tem poder.
O que eles não percebem é que o povo já sabe disso. Demorou, mas, hoje, o povo sabe.
Por isso, vamos aproveitar que a liberdade ainda é maior que na época da ditadura e pôr a cara na rua.
Proteja-se sim, mas, ao contrário do que diz a música que abre esse post (escrita nos anos de ferro da ditadura militar), ande nos bares, abrace os amigos, pare nas praças, ponha o dedo nas feridas. Tenha paciência sim, mas movimente-se. Coloque panos brancos nas janelas e, se puder, vá às manifestações. Não quebre nada e não aja com violência, pois além de desmoralizar todo o protesto, é isso que a mídia quer mostrar. Se vir alguém depredando algo, peça que pare. O protesto é maior do que isso. É maior do que o interesse individual. É histórico.
É pelo todo.
É por uma mudança que pode, finalmente, acontecer.


"Já está escrito
Já está previsto...
Tá tudo nas cartas
Em todas as estrelas

Cai o rei de espada
Cai o rei de ouro
Cai o rei de paus
Cai, não fica nada"