O que não se diz

16 de janeiro de 2014

- Por que essa cara? Pensando em quê?
Eu... Eu preciso sentir dor.
Não que eu goste de sentir dor, é que eu preciso. Às vezes, eu tô vivendo e tá tudo bem, mas nada muda. Aí me bate uma dúvida e eu preciso me certificar de que ainda tô aqui e de que é uma decisão minha continuar a fazer o que eu faço. É isso, entende?
Quando eu soco a parede ou arranho o meu braço com a lapiseira, sinto aquela dor momentânea e incrível que prova que eu existo. E aí a necessidade passa. Eu posso voltar a viver como sempre e a fazer as coisas de sempre.
Eu me lembro da primeira vez que cortei o braço com a pontinha de ferro da lapiseira. Foi numa aula de História. Eu tava num momento bom, sem problemas, sem nada, era uma daquelas fases de calmaria da vida que irritam pra caramba. Eu odeio a inércia. Tenho o dom de encontrar a paz no caos de dentro da minha cabeça. Quando tudo fica calmo demais aqui na cachola, eu surto.
Naquele dia, eu peguei a lapiseira, encostei no braço e me arranhei. No primeiro segundo, não senti nada. Nos segundos seguintes, veio uma dor muito forte. Passei esses segundos de dor me perguntando por que tinha feito uma coisa idiota daquelas e aí, quando a dor passou, eu percebi que estava calma como nunca na vida e que a qualquer momento poderia acontecer alguma coisa que mudaria aquele estado de calmaria irritante. Eu estava viva. Eu tinha sangue nas veias e, se eu quisesse, podia chacoalhar as coisas.
É isso. Os cortes são chacoalhões.
Imagino que pular de paraquedas também seria um bom chacoalhão, mas convenhamos que dá menos trabalho se sentir viva com uma lapiseira que com um paraquedas.
Eu não tenho depressão, antes que você comece com esse papo besta de depressão. Eu não tô doente. Eu não sou triste. Eu não tive uma infância problemática.
Eu só preciso me lembrar, com mais frequência do que as outras pessoas, talvez, de que não gosto de ir com a correnteza só por ir com a correnteza. Se eu vou com a correnteza é porque eu quero, é porque eu gosto, é porque a escolha é minha. Se eu não pulo na frente do metrô quando ele chega na estação, é porque eu não quero, eu não tenho vontade. Eu quero estar no controle do que posso estar. Mudar as coisas, movimentar a vida, aprender coisas novas, isso depende mais de mim que da vida em si.
O destino não existe. Eu faço o que eu quero com as coisas que aparecem pra mim. Eu gosto de mudar de ideia de uma hora pra outra. Eu gosto de ser o meu próprio deus.
Não, não tem nada de egoísta nisso, acho que o que tem é uma boa dose de lucidez.
E falar sobre o fato de que eu me corto não é fazer apologia. Eu não acho que porque isso é bom pra mim, vai ser bom pra todo mundo.
Mas que é bom pra mim, ah, isso é. Me faz bem pra cacete.
- Você...? Você o quê?
Eu tava aqui pensando como deve ser bom pular de paraquedas.

1 pitacos:

Marina disse...

Ela deve se divertir muito indo ao dentista. Eu ia adorar ser dentista dela.