Metamorforse

14 de março de 2011

Morar sozinha não é fácil. Morar com três homens também não.
Ainda mais quando você passa a depender da própria comida, ou da deles, pra sobreviver.
Eu não cozinho mal. Minha Pasta Carbonara é de comer de joelhos (tá bom que pouca coisa não fica boa com bacon e creme de leite, né?).
Mas como os meninos da Rep Jaraguá não costumam comer em casa, fico com preguiça de cozinhar só pra mim.
Foi por causa da preguiça que descobri as sopas Vono.
Uma beleza, você adiciona água quente a um pozinho e, de repente, vê surgirem pedaços de carne, frango desfiado e croutons, milagrosamente crocantes e provavelmente cancerígenos. Tudo tem o mesmo gosto, é óbvio, de maneira que minha felicidade pela maravilhosa descoberta não durou mais que uma semana.
Minha mãe, famosa na  família Cury Reis pelo humilde título de Melhor Cozinheira do Mundo, vendo que a pobre filhinha estava emagrecendo e chegando ao cúmulo de agradecer pelo chuchu refogado do qual nunca havia gostado, decidiu que iria salvar a pátria, pelo menos naquela semana.
Ela fez quibe, carneiro recheado, frango com laranja, pão recheado... Com a desculpa de não deixar meu pai comer muito e ficar barrigudo, distribuiu essas gostosuras entre os filhos queridos, que moram longe da asa dela.
A minha parte da herança do final de semana resumia-se a 16 quibes grandes, um pão recheado inteiro, 5 sobrecoxas de frango com laranja e metade de um carneiro de 50Kg. Tá, talvez não tivesse tanto carneiro assim, mas foi difícil de carregar, de qualquer maneira.
Ela realmente estava me achando magra demais.
Coloquei tudo na geladeira e fui consumindo aos poucos, pedindo encarecidamente que os meninos - 3 homens de quase 30 anos, solteiros e famintos - me ajudassem com tudo aquilo.
Mas é impressionante como tinha comida!
Depois de 2 semanas, comecei a ficar com receio de comer os restos do carneiro e do frango. Em 3 semanas, matei os quibes e o pão recheado, e comecei a empurrar os Tupperware (vulgo "tapauér") com carne para o fundo da geladeira, inconscientemente.

Me esqueci deles.

Mentira, a cada dia eles me incomodavam mais, e eu forçava mais o meu inconsciente a empurrá-los para o fundo da geladeira.
Voltei a comprar sopas Vono, pra não pensar no que poderia ter se transformado aquela comida preciosa da mamãe.
A cada dia crescia o medo de jogar tudo no lixo. No mínimo, estaria fedendo muito. No máximo, uma subespécie formada pela união de cerca de 15 tipos de fungos diferentes me atacaria, assim que eu retirasse aquela tampa hermética azul.
Hoje, no entanto, quando abri a geladeira, tive a impressão de ver a tampa do frango se abrindo lentamente. Pensei comigo: "Estão ganhando vida, antes que aprendam a construir armas, vou me livrar deles".
Tive que me segurar muito pra não jogar a comida com Tuppeware e tudo na lixeira.
Só de pensar em lavar aquilo depois, meu Deus!
Mas se tem uma coisa que enfurece a Senhora Cury Reis é que os filhinhos sumam com os Tuppeware(s) dela. Ela fica doida. Então achei melhor enfrentar meus medos, colocar um prendedor no nariz e me direcionar até a lixeira do prédio.
Coloquei a cabeça pra fora da porta. Não queria ser acusada pelos vizinhos de ter criado um monstro na geladeira. Mesmo sendo a mais pura verdade.
Foram os 2 minutos mais demorados da minha vida.
Abri as cumbuquinhas, joguei o conteúdo na lixeira, tampei as cumbuquinhas rapidamente, entrei em casa rapidamente, tranquei a porta mais rapidamente ainda e lavei tudo.
Ouvia os fungos se contorcendo e empurrando a tampa da lixeira pra cima. Os do Carneiro peleando com os do frango, que, a essa altura, já haviam desenvolvido bazucas com os ossinhos e a cartilagem.
Foram momentos de tensão, meu coração batia forte e comecei a ficar preocupada com a possibilidade de algum vizinho ser pego de surpresa no corredor enquanto esperava pelo elevador, que demora uma vida pra chegar ao terceiro andar.

Quando terminei de lavar os Tuppeware minha respiração foi diminuindo. Apurei os ouvidos e não escutei nada, nem na casa, nem no corredor. Fui até a porta, olhei pelo olho mágico, a lixeira estava ali. Parada. Inocente. Não havia sangue no corredor.
Foi quando tomei consciência de que estava apreensiva, atrás de uma porta trancada, esperando que minha comida atacasse alguém.

Que cena ridícula.

Comecei a rir sozinha feito uma idiota, destranquei a porta e deitei no sofá.
Estava quase pegando no sono quando a vizinha deu um grito estridente no corredor.

Tranquei a porta e me escondi embaixo da cama.

10 pitacos:

Tiago disse...

Gostei muito! Muito mesmo! Lembra aqueles contos que vinham em coleções que, pelo menos eu, adorava ler quando era pequeno.

Carolina disse...

ÓÓÓTIMO, Má!! Adorei!

Leo disse...

Porra...eu ia comentar o ultimo post e ja tem novo????Manoooo eu ri pra cacete....vc é doida Má isso sim! DEMAIS!

ladyjesus disse...

HAHAAHAH ADOREI, Má! Consegui imaginar a cena direitinho...
Meu irmão morou comigo ano passado e quando foi pra casa no Natal, deixou a geladeira cheia de carne no freezer... desligada! Hahaha... a carne cria vida! Que nojo!
Beijoo

Rob Gordon disse...

"...você adiciona água quente a um pozinho e, de repente, vê surgirem pedaços de carne, frango desfiado e croutons, milagrosamente crocantes e provavelmente cancerígenos."

Rindo alto aqui.

Bonaldi disse...

SUUUPER esperando pelo menos uma briga entre os seres das tuperwares!! HEHEHEH nem preciso falar que me identifiquei!

Amanda Borba disse...

adorei

rodrigo disse...

É por isso que todo os dias eu agradeço de coração à minha mãe por cada refeição que ela faz. Quando tivermos que nos separar, que eu espero e não espero que seja em breve, vou sofrer pra caramba.

Muito legal o texto Má! Me deu água na boca, pena, medo e me fez rir à beça. = ))

Beijos!

Núbia disse...

Adorei Má! Muito bom! uhsauahs beijão!

Tyler Bazz disse...

Podia ser pior......... podia ser frango.