Sobre o dia em que o mundo acabou

19 de abril de 2010

Dirigia tranquilamente na Marginal Tie...não, peraí, vamos deixar esse texto mais verídico.
Estava há horas parado tranquilamente no familiar congestionamento das seis horas da tarde na Marginal Tietê, vidros fechados, blindados, retrovisor direito virado para dentro pra evitar que fosse arrancado pelos motoqueiros, como tinha acontecido com o esquerdo, quando gritos mais altos do que as buzinas o tiraram do transe gerado pela música que tocava no rádio. Olhou pra frente e viu as pessoas saindo do carro, olhando pra cima e correndo pra todas as direções.
Primeiro achou que fosse um arrastão, mas então viu que ninguém tentava roubar os carros que estavam sendo abandonados.
Abriu a porta, olhou pra cima e quase caiu duro pra trás.
O céu estava cor-de-rosa, bem diferente da típica e natural cor vermelha do céu noturno paulistano.
Um raio azul, seguido de um trovão ensurdecedor, cortou o céu, dando início a uma chuva incessante, não de água ou de fogo, como descrito no Apocalipse, mas de canivetes.
Era, de fato, o fim do mundo.
Entrou de novo no carro, em partes por não saber o que fazer, em partes para fugir dos canivetes.
O grande momento, tão profetizado, havia chegado. E ele estava ali, no trânsito. Não sabia quanto tempo de vida ainda tinha e decidiu pensar no que fazer naquele momento tão decisivo.
Pegou o celular pra ligar para esposa, para a sogra, para o cunhado. Percebeu que não queria falar com ninguém naquele momento. E nem que quisesse, não havia sinal pra ligar pra ninguém.
Ele podia sair correndo, dando risada como um louco e fugindo como desse dos canivetes, que agora caiam com tanta força que começavam a perfurar a lataria do carro.
Podia procurar uma igreja, havia tantas, com certeza encontraria alguma ali perto. Mas ele nunca tinha sido religioso e, colocando-se no lugar de Deus, se ele existisse mesmo, não daria bola pra um sujeito que só acreditava nele na última hora.
Pensou em pular no rio Tietê, dar uma nadadinha, improvisar um borboleta, como fazia quando era garoto pra impressionar as meninas, mas percebeu que aquilo seria mais mortal do que ficar deitado no chão com a chuva de canivetes.
Podia também fechar os olhos e esperar. O que, convenhamos, não teria a menor graça.
A cabeça estava a mil e demorou um tempo pra que ele percebesse que a chuva de canivetes havia parado. Olhou para o céu e viu que estava negro e cheio de estrelas, saiu do carro louco de felicidade, subiu no capô e gritou pra comemorar a vida. A partir daquele momento ele ia cuidar melhor da família se a família ainda existisse, ia diminuir o ritmo de trabalho, beber menos, parar de fumar, ia até fazer exercícios e trocar o açúcar por adoçante, isso ele prometia, prometia com uma fé que nunca havia tido, pra Deus, pra esposa que talvez estivesse viva, pra ele mesmo, prometia até para os canivetes.
Foi nesse auge de extrema alegria que “PUF”
O mundo explodiu.

7 pitacos:

Tyler Bazz disse...

WOW!!!

Adorei isso! \o/

Apple Republic disse...

É fato!...Lei de Smurf! Gostei do final...Alguma razão por ser canivetes? rsrsr (curiosidade)

disse...

Haha, nao sabia que os smurfs tinham leis, mas gostei da ideia, de qq forma =)
Há muitas razões para serem canivetes, claro...mas deixe a imaginação aberta e vc criará suas próprias razões para que chovam canivetes, não àgua, fogo ou vacas (?)
Beijo!

Will disse...

Caramba, sensacional o texto Má, adorei o.. "Foi nesse auge de estrema alegria que PUF. O mundo explodiu" Pelo menos ele morreu feliz e despreocupado!!!
ahahahahaa....

Apple Republic disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...Moh sono mór qd eu comentei...rsrrsrs
corrigindo Lei de Murph...q q eu coloquei "Smurf"???!!! rsrsr Abstrai!

Heitor C.R. disse...

Observando aquele homem bem vestido, certamente rico a se desesperar de ver o céu cor de rosa e canivetes chovendo deste, o mendigo catou um exemplar furador de latarias de carro e foi abrir uma lata de picles que tinha caído de um motociclista acidentado no meio da bagunça.

Na prisão, os dois maiores assassinos que conviviam juntos a mais de trinta anos e juravam, dia após dia, o ódio recíproco e eterno viraram praticamente irmãos.
Com poucos lugares para se esconder e vendo o amor entre os presos, os corruptos resolveram dar a liberdade aos detentos, que , ao deixar a cadeia foram esfaqueados pela chuva.
Os corruptos então, tinham seu lugar para dormir. Com as mãos sujas de sangue.

O hipócrita, começou a amar quem antes ele tinha asco e tinha vergonha de admitir seu amor. Quem ele tinha "pena" e achava o máximo.Quem ele queria ser, e vendo a sociedade não dando a mínima para o que ele sentia naquele momento, deixou acontecer.

O sábio, viu que nada sabia. pois todo seu estudo e erudição não explicava o reflexo róseo nas lâminas cadentes, e decidiu se matar antes de aceitar sua derrota para uma força que ele nunca acreditara que poderia existir.

A tempestade parou. o mendigo sem notar enchia a boca com mais um enlatado que havia encontrado e aberto com seu novo canivete. Apesar de não terem tocado nos canivetes que assassinaram os dois assassinos, sangue jorrava das pontas dos dedos dos corruptos, AGORA MAIS DO QUE ANTES. O hipócrita voltou a ser como era antes pois as pessoas vieram lhe perguntar se ele estava bem depois daquele sustão ein!!!
O sábio estava pendurado pelo pescoço no meio da ponte estaiada junto com mais umas duzentas pessoas que queriam chamar atenção junto com ele.

nem deu tempo de falar olha: Os bons sobrevi...PUFFFFF O mundo explodiu

Bruno disse...

Nossa Ma, adorei este texto, as pessoas só nao gostariam q vc fosse roteirista de cinema hsuahusa sairia todo mundo p da vida pq no fim o mundo acabou =p. Mas realmente esse texto mostra a realidade da vida, quando achamos q tudo tera sentido e sera bom as coisas podem mudar pra pior (ou melhor)