O Tablet

22 de novembro de 2012


Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco
Até o Angry Birds.
E todos os arquivos
que baixar, eu vou salvar.
A casa, a montanha,
Pode pintar, sem medo.
Tudo isso com um toque do dedo...

Sou eu que vou ser seu colega
Seus problemas ajudar a resolver
Usar a Wikipédia nas provas bimestrais,
Sem ninguém ver
Serei, de você, confidente discreto
É só pôr uma senha de acesso...

Sou eu que vou ser seu amigo
Vou mostrar matérias da Capricho
Se você quiser
Quando surgirem
Seus primeiros raios de mulher
A vida, sem dúvida terá
Reviravoltas fenomenais,
E você vai postar isso nas redes sociais...

O que está escrito em mim
Ficará sempre guardado
Se lhe dá prazer
É só salvar tudo na nuvem
Você vai ver...

Só peço, à você
O favor de não ser cruel
E não me esquecer
Como se eu fosse de papel

Convite

12 de novembro de 2012

Gosto de me sentar em uma das primeiras fileiras e esperar, ansiosa, pela breve escuridão que fará com que eu me esqueça do mundo lá fora.
Gosto de chorar, ou rir, ou os dois, de sentir a emoção de cada movimento e palavra dita, de abrir minha cabeça e não duvidar de nada que vejo.
Gosto da coragem de quem se expõe.
Gosto de assistir, obviamente com os olhos, mas também com o nariz, os ouvidos e as mãos.
Gosto da proximidade com os atores, do silêncio entre a cena final e os aplausos, gosto de aplaudir de pé e, principalmente, de permanecer em silêncio após o espetáculo para que a leveza, a calma e o sorriso permaneçam também por mais tempo.
Gosto, enfim, de notar, quando as luzes se acendem e os aplausos se elevam e os atores sorriem e a plateia se emociona, que tudo é possível, e que a vida pode ser linda e simples, mesmo que apenas dentro das paredes do teatro.
E por tanto gostar dessa mágica, optei por inverter os papéis, por provar também o gostinho de estar no palco e sentir a plateia, pela chance de tentar fazer com que os outros se esqueçam do mundo e sintam que o que veem é verdade, mesmo que deixe de ser assim que as luzes se acenderem.

E é com muito orgulho que hoje, um ano depois de iniciar essa empreitada, posso dizer que espero sua ilustre presença na plateia do Teatro Escola Macunaíma, nos dias 10, 11 e 12 de dezembro, quando apresentaremos Vereda da Salvação, de Jorge Andrade.
É, acima de tudo, um convite à emoção, ao conhecimento de uma nova realidade, à mágica do teatro, e, mais especificamente, ao drama da pobreza, do fanatismo religioso e da busca pela salvação.
Reserve a data, a cadeira e prepare o coração.

O espetáculo já vai começar.


(Para mais informações, favor entrar em contato via face ou via comentários no blog)

A man and the blues

18 de outubro de 2012

Entrou em casa, tirou os sapatos, ligou um blues e se sentou no chão da sala.
Mandou às favas o fato de que não fumava havia anos, vasculhou a gaveta do armário e ali encontrou um Marlboro que nem sabia por que guardava.
Aquele blues pedia um cigarro, e o corpo, vazio de tudo, pedia alguma coisa.
Decidiu que aquela "alguma coisa" era fumaça e deu o primeiro trago.
Sentir-se vazio era estranho.
Não estava triste. Não estava alegre. Não estava nada.
E o nada, profundo daquele jeito, o angustiava mais que tudo.
A fumaça entrava e saía de seu corpo, enevoando o ambiente e deixando, de fato, alguma coisa dentro dele, mas não exatamente o que ele queria.
Abriu então um uísque que havia ganhado de um amigo anos antes. Caubói.
Aquele blues pedia um uísque, e seu corpo precisava de mais que fumaça.
Os acordes lhe enchiam os ouvidos, e a voz do cantor, tão rouca quanto sua guitarra, lhe enchiam a cabeça.
Pensava em tudo que havia acontecido, nos momentos alegres e tristes. Lembrava-se das histórias, não como se as tivesse vivido, mas como se as tivesse escutado da boca de outra pessoa.
Analisava cada momento da vida a dois como se fosse uma terceira pessoa que nada tinha a ver com as brigas e reconciliações constantes.
Não sentia nada.
Começou a mexer os pés acompanhando o ritmo e, quando viu, já dançava sozinho na sala.
Olhos fechados, meio sorriso no rosto.
Deixou que uma sensação boa tomasse conta dele, da sala, do mundo todo.
Uma sensação sem nome. Estava cansado de ter que definir tudo.
Sentiu que o corpo se elevava a cada trago, crescia a cada nota. Dançava como se fosse recheado de música e nada mais existisse. Sorria sem motivo e, ao pensar nisso, sorria mais ainda.
No auge de sua completude, de olhos fechados e peito aberto, sentiu uma dor intensa nos dedos da mão.
Voltou instantaneamente ao chão.
Havia se queimado com o cigarro.
Jogou a bituca no lixo da cozinha e, quando voltou à sala, a música também chegava ao fim. Ficou parado, esperando os acordes finais.
Sol com sétima, fá com sétima, dó com sétima.

Dó.

Silêncio.

Olhando para o nada, pôs o copo sobre a mesa, desligou o rádio, apagou as luzes e foi para o quarto, sozinho pela primeira vez em anos, jurando para si mesmo que, nem naquele momento, nem nunca, deixaria que sua vida terminasse como a música.

Your song

14 de outubro de 2012

Poderia dizer que é o sorriso que não consigo segurar quando te vejo, a vontade de te fazer surpresas, a alegria ao perceber que você faz de tudo pra me agradar, sua cara engraçadinha quando eu digo que estou com fome e não sei o que quero, mas quero algo leve. Poderia dizer que é a paz de deitar de conchinha e a risada que seguro quando você mal diz que vai virar pro outro lado e já começa a roncar, os minutos antes de levantar que fico observando você dormir, ou que é acordar ouvindo música. Poderia falar que é a lembrança do dia que a gente cozinhou junto, as pintas que te dei, as noites românticas assistindo séries de zumbis. Poderia dizer que são as milhares de vezes que me sentei em frente ao computador com a intenção de te escrever e não consegui, porque qualquer coisa que eu escrevesse seria pouco.
Mas é a falta, eu acho, que resume tudo.
A sensação de que nada tem muita graça quando você não está comigo.
É sentir que amo, pela primeira vez, não só com o coração, mas com o corpo todo.
E que minha maior felicidade é te fazer feliz.
Por isso queria te dar um presente. Assim, sem data especial nem nada.
Pensei, pensei e decidi fazer esse texto.
É simples, eu sei, mas pra quê complicar, se nosso namoro não tem nada de complicado?
Espero que você não se importe que eu tenha colocado em palavras
Como o mundo é maravilhoso quando você está por perto.
E que você tem os olhos mais doces que já vi.
Te adoro.

Ferida

27 de setembro de 2012

Quando menos esperava, a ferida se abriu.
Dolorida, fétida e incrivelmente profunda.
Revelou-se diante de todos, sangrando sob o curativo aparentemente limpo.
A princípio, olhou pasmo enquanto ela sangrava e extravasava pus, para depois, passado o susto, tentar fechá-la novamente. Cada palavra doce ardia como álcool e cada tentativa de limpeza como provocação. Empapava de sangue panos e mais panos. A dor era tanta que cogitou arrancar de uma vez o membro ferido, tirar a parte que doía, ir pelo caminho mais fácil, por mais que isso lhe custasse uma parte do corpo que, se não vital, era fundamental em suas ações.
Optou por esperar. Manteve a ferida aberta e exposta para que dela saísse tudo de ruim que havia no corpo. Quando sentiu que já era suficiente, limpou-a cuidadosamente com iodo. Sem anestesia, costurou-a. A dor insuportável lhe deu a sensação de cura. Cobriu-a com uma gaze limpa e a fechou, agarrando-se, inseguro, à esperança de que ela nunca voltasse a se abrir.

Palavrão

28 de agosto de 2012

Era o primeiro dia das férias escolares e levava os três filhos para a casa da irmã, onde poderiam brincar com as primas de idade próxima. Pensava nas compras que tinha que fazer naquele dia, na correria pra chegar a tempo no trabalho, na alegria de ter três filhos inteligentes que eram elogiados pelas professoras, no marido que voltaria do Rio de Janeiro naquele dia.
A filha mais velha estava aprendendo a ler, o filho do meio estava na fase dos "porquês" e o pequeno repetia tudo que ouvia.
Virando na rua da casa da irmã havia uma escola com paredes pichadas. A filha olhou para o muro e perguntou:
- Mãe, o que é buceta?
Brecou de susto.
- O que é isso, menina?
- Não sei, ué, tava escrito no muro.
- Buceta, buceta, buceta.
- Não repete essa palavra não, menino! Ah... Ah, bom... É... Então, isso é palavrão, é um nome feio para o que as meninas têm no meio das pernas.
- O joelho?
- Não, a... A periquita.
- Periquita, periquita, periquita!
- Deixa de ser bobo, menino, para com isso.
- Mãe, por que chamam a periquita de nome feio?
- Ah, então, filho, porque tem muita gente sem educação no mundo.
- Por que?
- Porque os pais não deram educação.
- Eu posso pichar periquita em vez de buceta?
- Você não pode pichar nada!
- Por que?
- Porque pichar já é falta de educação.
- Ah...
- Periquita, periquita, periquta.
- Para com isso, menino! Já falei que não é pra ficar falando isso!
- Mas por que você falou então?
- Eu não falei!
- Falou sim...
- Ah, chegamos! Oh, comportem-se! Eu volto pra buscar vocês à noite. Tchau, filha, tchau, filho. Tchau, filho, dá beijo na mamãe. Filha, o que você vai dizer pra tia?
- Que amanhã é para as meninas irem lá em casa.
- Isso. Filho, e você?
- Que você vai fazer bolo.
- Isso, e você, filho? Filho?
Mas o caçula já havia descido do carro e corrido para dentro da casa da tia gritando a plenos pulmões:
- Buceta, buceta, buceta.

Carta aberta à minha mãe

20 de agosto de 2012

Sempre tive dificuldades de falar sobre a minha mãe.
E não pelo fato de ela ser uma pessoa difícil, extremamente inteligente ou pegar as coisas no ar.
Também por isso.
O principal motivo é que eu não saberia falar dela sem ser injusta, em algum momento, comigo ou com ela.
Minha mãe é uma fofa. Sempre foi.
Passada aquela fase em que a criança precisa da mãe pra tudo, no entanto, eu me afastei.
Afinal, todo mundo dizia que não era bom ter a mãe sempre por perto, que mães não entendem nada da vida moderna, são velhas.
Nenhuma menina tinha interesses por meninos na época, só eu, e isso ela jamais entenderia. Ou pior, entenderia, falaria que não era amor verdadeiro e tiraria sarro. Só porque eu tinha 7 anos. Ser ridicularizada pela mãe era mais do que eu podia aguentar aos 7 anos.
Nessa toada de achar que ela jamais entenderia meus dilemas adolescentes, fui me afastando cada vez mais.
Ela, pelo contrário, continuava ali presente.
Com o passar dos anos criei uma barreira das grandes. Com 15 anos achava que ela nunca me entenderia, não aceitaria meu jeito, não falaria comigo sobre coisas que a envergonhassem e que a culpa disso era toda dela.
Na cabeça dela, acho, eu era uma menina fechada demais que não contava nada pra mãe.
Como toda adolescente guiada pela sabedoria ampla dos amigos, também adolescentes, eu me ferrei.
Me meti em situações difíceis, dolorosas, complicadas e ridículas. O que não teria acontecido com um direcionamento correto.
Mesmo assim, ela estava lá quando eu fazia bobagem e me machucava. Ela cuidava das feridas.
Quando enfim cresci um pouco e percebi que minha vida seria melhor com um bom direcionamento, decidi contar tudo a ela. Tudo mesmo.
Durante anos, parei de ter problemas. O pouco que eu batia de frente com ela não afetava em nada nossa relação e proximidade. Ela sabia, eu aprendia. Pronto.
Então eu fui pra faculdade, ampliei minha visão de mundo, conheci gente, lugares, gostos e adquiri sabedoria suficiente para saber que eu ainda tinha muito o que aprender.
Nessa fase longe de casa fiz coisas que minha mãe não gostaria que eu fizesse, mas que eu queria muito fazer. Nada ilegal ou que me fizesse mal, apenas errado na maneira dela de pensar.
Ainda assim, eu voltava pra casa e contava tudo, queria conversar... Foi quando comecei a notar que ela já não recebia as notícias como antes.
Começamos a bater mais de frente pelas mais diversas situações, até que abri o jogo sobre uma situação que ela não aceitava e que, pior, não tinha motivos ou argumentos para não aceitar.
Foi quando as coisas desmoronaram.
Passei a adolescência achando que minha mãe não sabia de nada, até constatar que ela sabia de tudo.
Então, anos depois, percebi que ela sabia sim de muita coisa, mas estava longe de ser a dona da verdade.
Eu sei que é meio injusto esperar isso de alguém, mas pra mim foi duro. Queria que ela enxergasse o que estava ali estampado na cara dela.
Brigamos.
Desde a nossa última briga mais feia, uns 2 anos atrás, tenho medido o que contar a ela.
Nossa relação voltou a ser tranquila, aparentemente não temos qualquer problema.
Mas o problema é esse, a aparência. Por dentro ainda me borbulhava a vontade de fazer com que ela aceitasse algo que pra mim era normal e que, pra ela, era extremamente anormal, errado e sujo.
Parei de machucar minha mãe com as minhas verdades pra que ela também parasse de me machucar com as dela.
Desde então, como disse no começo, tem sido difícil falar da pessoa que mais amo no mundo.
E, poxa, como sinto saudade dela.
Quando as pessoas perguntam como é a minha mãe, eu sempre digo que ela é fofa.
Mas ela é mais que isso, eu sempre soube que era, só não sabia definir.
Então pra não ser injusta com ela ou comigo, não definia.

Sabe o que eu mais gosto na vida? Nas horas em que a gente está perdido as respostas surgem dos lugares mais improváveis.
Ontem eu estava na fila do cinema com o meu irmão e o meu namorado.
Uma menininha de uns 4 anos puxou minha blusa e perguntou, "Onde está a minha mãe?"
Eu disse que não sabia e perguntei como era a mãe dela.
Ela então respondeu: "Minha mãe é grandona assim e me faz carinho quando eu me machuco".
Nisso, a mãe dela a viu e a chamou e eu fiquei lá, com cara de tacho.
A menina não disse que a mãe dela era perfeita, não descreveu a cor dos cabelos ou da pele, não apontou defeitos, não disse se era magra ou gorda. Ela descreveu o que a mãe dela tinha de mais marcante e lindo.
O tamanho e a atitude.
Foi quando eu vi que era a descrição perfeita da minha mãe, uma mulher grandona o suficiente para me proteger e me fazer carinho quando me machuco.
Imperfeita sim, mas linda em todos os sentidos.
E surgiu uma vontade imensa de dizer a ela que minha atitude violenta se deu ao fato de eu não acreditar que uma pessoa especial e inteligente como ela poderia achar errado algo tão natural. Quis dizer a ela que eu estava errada, não em achar natural, mas em ser violenta com quem sempre meu deu só carinho.
Quis dizer que eu posso não ser grande como ela, mas que meus braços também são confortáveis e que eu também posso fazer carinho quando ela se machucar.
Quis dizer, enfim, que exigir a perfeição foi algo estúpido, e que me esquecer de que ela era perfeita em tudo que podia foi mais estúpido ainda.
E que eu te amo.
Apesar de toda a complicação, é simples assim.



"Um amor puro... Não sabe a força que tem"

Deus abençoe

26 de julho de 2012

    Então, menina, ele entrou no salão pra cortar o cabelo e começou a contar da chefe. Que a moça era muito inteligente, muito estudada, mas era sem-vergonha. Ficava dando em cima, mesmo sabendo que ele era casado. Aí perguntei o que ela fazia e ele disse que ela aparecia com um decotão, ficava encostando nele o tempo todo e dizendo que a mulher dele tinha muita sorte.
Esses papos de biscate.
Aí, você não acredita, ele disse que decidiu colocar o cargo a disposição do diretor da empresa, falou pro patrão que ou tiravam ela, ou tiravam ele.
O que o diretor fez? Tirou a mulher! Tem que ter muita coragem, né?
Ele disse que amava a esposa e só isso que importava. E tem que ter muito amor, claro. Só o amor vence, só o amor de verdade prevalece. Acho tão bonito isso. Deus abençoe. É tão raro, hoje em dia, encontrar um homem que respeita a esposa.
Ele é especial. A tal da chefe tem razão numa coisa, a mulher dele tem sorte mesmo. Muita sorte. Aliás, só isso, por que não sei mais o que ele viu naquela lá. Songa monga que só, magrela, nariguda.
Vai entender.
Tanta mulher mais interessante e solteira, né?
Eu aqui sem ninguém e aquela mané com um cara tão boa pinta. Mas espera só até ele voltar no salão. Se aquela boba chamou a atenção dele, imagina o que eu posso fazer, né?
É só jogar meu charme e o gato tá no papo.
Ah, olha, o trem tá chegando. Te ligo de novo mais tarde pra perguntar da Carminha e da Nina, não vi o capítulo de ontem porque tava no culto. Tá, tá bom, fica com Deus. Beijão.

Certidão

4 de julho de 2012

Declaro que no dia 28 de maio de 1988, no hospital de Birigui - SP, nasceu Marina Cury Reis, branca, sexo feminino, corinthiana. Filha de Gilmar dos Reis, chamado "Gilmar" em homenagem ao famoso goleiro que tantas bolas defendeu milagrosamente pelo Timão, e de Elizabeth de Fátima Cury Reis, brasileira, dentista, corinthiana, sofredora e maloqueira sim senhor.
A menina nasceu com 50 centímetros, 2,5kg de corpo e 3Kg de cabelo.
Nasceu chorando os bofes. Prova, segundo o avô paterno, Pedro dos Reis, de que seria boa sofredora.
Declaro que todos os exames básicos foram realizados ainda no hospital.
Pelos exames, notou-se que a menina apresenta o coração mais forte que o normal.
O que é normal, no caso dos corinthianos.
Toda a família esteve presente para recepcioná-la portando faixas de incentivo nas quais se lia "Jogai por Nós" e "Família CURYnthians" e entoando o Hino Nacional. Segundo um dos primos, Rodrigo Cury Machi, a ideia era que ela já saísse do hospital sabendo cantar a primeira frase do hino: "Salve o Corinthians".
Diante de protestos de torcedores de outros times, que declaravam achar o cúmulo tantas pessoas pressionarem uma recém-nascida para que ela se tornasse sofredora, os padrinhos, Givaldo dos Reis e Silmara Cury Trevisan declararam que não estavam forçando nada, que ela já havia nascido daquela forma, que qualquer sofrimento valeria a alegria da vitória e que não, palmeirenses e santistas nunca entenderiam.
Referiram-se apenas aos palmeirenses e santistas porque o São Paulo havia empatado com o time do Botafogo naquele mesmo dia e não havia torcedores presentes ou ausentes, visto que sãopaulinos só são sãopaulinos quando vencem.
Quando, em tom de chacota, o único tio palmeirense, João Carlos Trevisan, questionou sobre a Taça Libertadores, a menina começou a chorar. O choro foi interpretado como desespero, pelo torcedor do palestra, e como alegria e emoção, por todo o resto da família.
Declaro apenas, diante disso, que o coração dela é forte o suficiente para suportar tanto a derrota quanto a vitória.

O referido é verdade e dou fé, muita fé, fé sempre!

O oficial de registro civil.

Nosocomefobia

25 de maio de 2012


Tem gente que demora décadas para descobrir coisas simples.
“Sou gay”, “Tenho medo de avião”, e “A vovó Mafalda era homem”, por exemplo, são só algumas dessas coisas.
Ontem, eu descobri que tenho medo de hospital.
Eu sou homeopata.
Não, isso não é feitiçaria. Nem tecnologia. É só um método de tratamento mais natural.
As "bolinhas de açúcar", como os céticos carinhosamente chamam os nossos remédios, estimulam o corpo a reagir, o que pode demorar um pouco.
Não é placebo. É um método que funciona perfeitamente.
Tão perfeitamente que não, eu nunca tinha entrado em um hospital como paciente.
Mas ontem, quando acordei, pus o pé no chão e senti um arrepio que percorreu meu corpo umas vinte vezes, deu sinais ao meu cérebro de que tinha algo muito errado com o meu pé esquerdo e que esse "algo muito errado" deveria ser interpretado como "dor lancinante". Tudo isso em meio segundo.
Gritei, sentei na cama, respirei fundo. Removi a poeira do cérebro e tentei me lembrar do que poderia ter gerado aquilo.
Lembrei.
O pé não estava inchado, não estava roxo, não estava nada além de dolorido pra burro.
Demorei meia hora para chegar ao trabalho. Um caminho que normalmente faço em cinco minutos.
Passei a tarde tentando trabalhar e ouvindo histórias de gente que quebrou partes do corpo e só foi saber que tinha quebrado semanas depois, de ossos que se esmigalharam, mas não causaram qualquer inchaço, de gente que morreu dormindo porque tinha quebrado o pé e ficou sangrando por dentro e a pessoa não viu e blá blá blá.
Eu sei, não faz o menor sentido, mas entrei em pânico.
O namorado então sugeriu que eu tirasse um raio X. Ele, todo lindo, carinhoso e gripado, me levou até a emergência de um hospital.
Foi quando começou o pesadelo.
O primeiro enfermeiro, quando me viu mancando, perguntou se eu queria uma cadeira de rodas para ir até a sala de espera.
Meu primeiro impulso foi dizer que não, claro que não, eu não queria a cadeira, moço, pelamordedeus, eu pretendia sair dali andando e sem gesso, pronta pra bater uma bolinha!
Mas respondi simplesmente “Não, obrigada“ e continuei mancando.
Quando chegamos à sala de espera, estava lotada. Só havia uma cadeira vaga bem ao lado de um cesto com uma placa na qual amigavelmente se lia “Lixo Intoxicante”.
Eu não estava aguentando parar em pé, então me sentei meio de lado, o mais longe que eu poderia ficar do lixo sem encostar no velhinho do meu outro lado, que estava tossindo os bofes.
O cheiro da sala me incomodava.
As pessoas com cara de doente me incomodavam.
A sala lotada me incomodava.
E, pra piorar, tava passando Malhação na TV.
Comecei a sentir calor, parecia que as paredes estavam se fechando, o ar começou a faltar, tudo começou a ficar escuro e então...
Chamaram meu nome.
Manquei o mais rápido que pude pra fora de lá e entrei na sala do ortopedista.
Ele então perguntou o que tinha acontecido.
Eu expliquei que o meu peito do pé tinha batido no joelho de um cara na noite anterior.
Ele disse, "Ah, então você chutou o cara?"
Eu disse que podia explicar.
Ele disse que duvidava.
Então expliquei que durante o treino de muay thai, na noite anterior, havia dado um chute para acertar a coxa do adversário. Ele levantou a perna para defender o golpe. Errei o chute e acertei o joelho do menino, em vez da coxa. Na hora, com o corpo quente, só senti um pouco de dor. Quando o corpo esfriou, já viu, né?!
Ele me examinou rapidamente, falou que ia pedir um raio X e que era para eu me controlar e não chutar o joelho do rapaz da radiologia, que era meio mala.
Para fazer o bendito raio X andei por todo o hospital. Passei por grutas, abóbadas, elevadores, salas de espera, cafés, salões de festa. Cada ala do hospital parecia um portal para realidades paralelas. Cada realidade me fazia suar frio.
Com o exame em mãos, voltei para a sala da ortopedia.
Tentei voltar, na verdade. Acabei me perdendo e fui parar na ala da maternidade, no terceiro andar.
Quando finalmente encontrei a sala do médico, entrei, sentei e olhei apreensiva enquanto ele examinava o raio X contra a luz.
“Olha, apesar da dor, seu pé tá inteirinho. Pelo menos o osso. Pode ser que haja um sangramento interno no osso (!!), mas isso é o de menos. Coloque gelo. Vai inchar, mas em cinco dias você já deve estar bem. Se não estiver, volte. ”
“É isso?”
“É, é isso. Boa noite.”
Saí de lá na maior felicidade. Quanto mais me aproximava da saída, mais meus pulmões se enchiam de ar e meu coração batia com vida.
Chegando à sala de espera chamei o namorado e saímos eu e ele, mancando e tossindo, respectivamente, para não voltar tão cedo.