Mini-Cérbero

14 de março de 2012

"Na mitologia grega, Cérbero era um monstruoso cão de múltiplas cabeças e cobras ao redor do pescoço que guardava a entrada do Hades, o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por  se aventurassem".


Ok, legal, guarda a informação.

Você tem irmãos?
Isso, irmãos! Aqueles seres que não têm nada a ver com você, mas que todos dizem que são a sua cara.
Bom, eu tenho dois. Três, se for contar minha irmã de criação, a Sandra. Quatro, se for contar com a Biba.
De sangue mesmo tenho dois, o André e o Heitor.
Eles aparecem aqui no blog vez ou outra, normalmente citados como "pirralhos" por um motivo óbvio: é isso que eles são.
Um pirralho de 22 e outro de 20 anos.
Mas vamos começar do começo.
Eu era uma criança feliz e mimada de um ano e oito meses quando minha mãe foi pro hospital e voltou mais magra e com aquele chato nos braços. O chato recebeu o nome de André.
Não, eu não me lembro da chegada dele, mas fotos comprovam a violência com que ele chegou ao mundo para acabar com a minha paz.

André, violento desde tenra idade 

Ele era uma peste. Chorava por tudo! Eu não podia nem encher o menino de beliscões que ele abria o bocão no mundo. Um mala.
E não adiantava reclamar, tudo era culpa minha, ele chorava, a culpa era minha, ele puxava meu cabelo, a culpa era minha, eu rabiscava a cara dele com caneta, a culpa era minha.
Vamos admitir que o mundo não é lá muito justo com os primogênitos.
As coisas eram complicadas, mas dava pra manejar a situação. Quando comecei a ter tudo sob controle, minha mãe saiu, foi pro hospital e voltou novamente mais magra e com outro moleque no colo.
Na minha cabeça, ela trocava gordura por moleques. Uma troca que eu até acharia justa, se não me afetasse diretamente.
Mais um irmão. Mais um pirralho. Bom, é claro que as coisas saíram dos eixos. As atenções, que antes eram minhas e eu tive que aprender a dividir com o André, agora teriam que ser divididas entre os três.
Com a desculpa esfarrapada de que meu irmão mais novo não conseguia nem sentar de tão molenga, meus pais destinavam mais atenção a ele. Eu fiquei lá, jogada às traças, sem meu lugar - antes cativo - no colo do meu pai. 

Eu, após a chegada do pirralho, totalmente deslocada  

Sabe o que é mais complicado dos irmãos? Eles obrigam a gente a dividir as coisas.
A atenção dos meus pais foi a primeira coisa que me obrigaram a compartilhar. Depois veio o quarto, os brinquedos, os doces, o colo da avó...
O tempo foi passando e as coisas só complicaram.
As brigas viraram treinos de luta livre.
Até os dois ficarem maiores do que eu, a coisa funcionava assim: eu batia nos dois, o Heitor batia no André, o André apanhava dos dois e meu pai batia nos três, inclusive no André, pra ele parar de ser besta e reagir.
A gente se gostava, é bom deixar isso claro. Apanhávamos juntos, mas também brincávamos juntos. A gente dividia a atenção, o amor, mas também dividia as tarefas domésticas, dividia o chocolate, mas também dividia a tristeza na hora de comer legumes.
É o tipo de relação que não dá pra ter com amigos, por exemplo.
Os amigos sempre caem fora na hora dos legumes.
Apesar de os três terem saído da mesma barriga as ideias não poderiam ser mais diferentes. Eu virei tradutora, o André, engenheiro químico, e o Heitor, designer, ilustrador, folgado, algo do tipo.
Um gosta de esportes, outro de culinária, outro de séries americanas, é o samba do crioulo doido.
Mesmo assim, a gente se parece muito.
Houve um tempo em que eu ficava brava quando alguém dizia que meus irmãos eram parecidos comigo. Hoje eu sinto um orgulho tremendo disso.
Mais que parecidos, eu diria, somos um só.

Muito bem, era aí que eu queria chegar, volta no Cérbero.
No auge da nossa infância, meados dos anos 90, alguém tirou uma foto de nós três. É uma foto tão bonita e importante que a gente tenta reproduzir todos os anos, com as mesmas posições e feições.
Meu irmãozinho designer decidiu fazer uma ilustração baseada na foto e optou, não por acaso, em nos desenhar como Cérbero.
Não tanto pela monstruosidade ou pela proximidade do bicho com o inferno, acho que mais pelo fato de as três cabeças serem, na verdade, parte de um único ser.

Ma, Toti e Dé
Mini-Cérbero


É o que eu acho né, pode ser que ele estivesse pensando apenas nos portões do submundo.
Fato é que esse Cérbero engraçadinho e inocente, como a gente na foto, mostra um laço lindo.
Na alegria ou na tristeza, no chocolate ou no legume, esses moleques vão ser sempre parte de mim.
Não a parte mais bonita, é claro, mas sem dúvida nenhuma a mais importante.

Quem disse que cabelo não sente?

24 de fevereiro de 2012

Algumas coisas são difíceis de encontrar: trevos de quatro folhas, dinheiro esquecido no bolso da calça, entrevistador do IBOPE...
Já outras são tão difíceis, mas tão difíceis, que quando a gente encontra não abandona nunca.
Uma cabeleireira de confiança, por exemplo.
Dizem que o cabelo é a moldura do rosto. Na boa, todo mundo sabe que um quadro lindo pode ser estragado por uma moldura brega.
O lance é garantir pelo menos a moldura.
Até os 15 anos, eu ia ao cabeleireiro com a minha mãe.
Um dia, uma tia de uma amiga de uma vizinha da minha prima descobriu a Solange, uma moça que tinha um salãozinho em Itatiba.
Minha mãe decidiu conferir e descobriu que a moça era das boas. Durante um ano ela foi a nossa cabeleireira. Eu nunca ia ao salão sozinha e nem mudava o corte "mãe d'água" (como alguns amigos carinhosamente apelidaram quando viram minha foto do RG).
Um dia, no entanto, minha mãe tinha um compromisso e me deixou sozinha no salão, entregue às mãos e às tesouras da Solange.
Não tinha mais nenhuma cliente além de mim. Estávamos eu, ela, a Ju (assistente), e a manicure.
Sentei na cadeira e disse pra tirar 2 dedinhos. Ela pegou as tesouras, colocou umas presilhas no meu cabelo e começou a chorar.
É, não errei na hora de digitar não, ela não começou a cortar, começou a chorar.
Bom, a cortar também, o que me fez entrar em desespero junto com ela.
Ela chorava e cortava dois dedinhos, falava dos problemas pra assistente e repicava meu cabelo, soluçava e cortava mais cinco dedinhos. 
Eu me segurei firme na cadeira na esperança de que aquilo impedisse a ação da tesoura, mas não impediu.
Ela terminou, fez uma escova e foi ao banheiro pra lavar o rosto.
Eu me vi lá, parada, olhando boquiaberta pro espelho.
Meu cabelo estava lindo de morrer.
Depois disso ela me ganhou, é claro.
Lembro que uma vez eu cheguei ao salão com o cabelo preso e disse a ela que tinha vontade cortar curto. Ela perguntou, "Tem certeza?", eu disse que não sabia bem, sabe, talvez, mas que... Então ela pegou a tesoura, cortou fora o rabo-de-cavalo e disse, "Pronto, agora você tem certeza".
Doida?
Sim, doida de pedra!
Mas, pra variar, ela fez um corte incrível.
Com o tempo, a Solange passou a ser minha confidente, a amiga que dava pitaco nos meus namoros, que me receitava shampoos, cremes, roupas, religiões e remédios tarja preta, e o Solange's Fashion Hair virou um lugar pra relaxar e passar engraçadas tardes de sábado.
Faço visitas a ela a cada 3 meses pra dar uma retocada na juba e explico o que quero fazer de uma maneira que só ela, doida que é, consegue entender.
- Como você vai querer?
- Então... Eu gosto desse corte. Quero manter o corte, mas quero que as pessoas percebam que eu cortei o cabelo. Não é pra ficar curto, tá bonito assim, compridão. Dá uma repicada sem repicar muito, entendeu?
- Hum, você quer ficar diferente sem que eu mude o corte, diminua o comprimento ou repique mais, é isso?
- É.
- Deixa comigo!

E não é que ela consegue?

6 de fevereiro de 2012

Soltou um suspiro e se virou de lado, parte inconformada, parte decepcionada.
Não acreditava em como tinha sido ruim.
Como era possível?
Antes da cama, havia química, humor, carinho, atenção, tesão. Amor não, isso nem interessava a ela naquele momento, mas tinha todo o resto.
E agora...
Agora nada.
Horas antes, havia dito a ele - com carinha de safada - que estaria livre naquela noite.
Ele respondeu um "Ah, ok" que poderia ter servido de aviso do que iria acontecer.
Mas ela preferiu fingir que via alguma empolgação nos olhos dele, ali, escondidinha atrás do cansaço e da indiferença. Agora tinha a impressão de que, na tentativa de parecer sensual, tinha se oferecido demais.
Não dava pra saber o que dava mais raiva, se a decepção da experiência ou a insegurança em relação a si mesma.
Em sua cabeça, uma frase de desenho animado ecoava: "Eles vêm, comem e vão embora. Eles vêm, comem e vão embora". Não se lembrava nem do desenho, nem do contexto de onde isso havia saído - assistia muitos desenhos com o sobrinho de dois anos - mas se lembrava de uma formiga repetindo a frase como um mantra, encolhida de pavor.
Eles chegaram na casa dele, beberam uma taça de vinho, meio sem jeito se beijaram e se empurraram até  a cama, atrapalharam-se na hora de tirar as roupas e pá, pá, pá.
Ele gozou e foi correndo pra sala pra atender o telefone que insistentemente tocou durante os cinco minutos de sexo.
Ela ficou lá. Semi-nua e com frio.
Suspirou e se virou de lado. Sentindo que ia chorar se levantou, pôs a roupa e ficou esperando ele voltar da sala.
Ele vem, come e vai embora.
E ela?
Ela fica sozinha.



Inspirado na música Sexo (Zélia Duncan)

Sobre o ano que passou

20 de janeiro de 2012

Eu queria falar sobre o ano que passou.
Ensaiei, pensei, escrevi, apaguei, escrevi de novo, apaguei de novo...
Foi quando percebi que palavras não seriam suficientes pra mostrar o que eu queria.
Então decidi mostrar literalmente.


O ano que passou foi inesquecível porque...







... Porque eu amei intensamente todos os dias.


:)


"Este ano peço ao céu
a saúde do anterior.
Não preciso de dinheiro,
sou rico de amor.
Vou caminhando pela vida.
Sem pausa, mas sem pressa.
Procurando não fazer barulho,
vestido com um sorriso.
Sem complexos nem temores,
canto rumbas coloridas,
E chorar não me machuca
desde que você não chore"
(Melendí)

Bum-das Imobiliárias

16 de janeiro de 2012

Se um dia você estiver se sentindo sozinho, precisando conversar com alguém educado, atencioso e engraçado, esqueça a CVV, esqueça o namorado.
Ligue para um corretor.
É, isso mesmo, de imóveis.
Aliás, nem ligue, mande um e-mail dizendo que está interessado no apartamento X.
Ele vai te ligar de volta com milhares de propostas interessantes, oportunidades imperdíveis e comentários brilhantes.
Duvida?

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- Alô, gostaria de falar com a Senhora Marina.
- É ela.
- Ah, oi, senhora Marina. Posso te chamar de Marina?
- Pode, claro.
- Marina, vi que você se interessou pelo nosso apartamento na Mooca, é isso mesmo?
- Na verdade eu me interessei pelo preço dele, mas queria alguma coisa mais perto do centro.
- Ah, perto do centro é difícil, é tudo velho, tudo feio, tudo caro, só conheço apartamentos nojentos no centro. Onde você mora?
- No centro.
- Ah... Sempre há exceções, eu imagino, eu acho, eu espero, eu... Onde do centro você mora?
- Na Santa Cecília.
- Ah, também! É Santa Cecília, né?! Quase Higienópolis!
- E quase Arouche, quase República.
- Ah, bom, então, a gente só trabalha com Zona Leste. Mas posso garantir que é um bom negócio. Talvez não tão próximo do metrô, não tão próximo de Higienópolis, não tão grande quanto os apartamentos do centro. Ainda assim, um bom negócio.

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- Oi, tudo bem? Meu nome é Marina, queria perguntar a respeito da casa X, na Lapa.
- Ah, essa casa precisa de muita reforma, você está interessada em casas que precisam de reforma?
- Dependendo do preço eu estou sim.
- Bom, essa casa precisa de bastante reforma, tanto na parte externa quanto na fiação e no sistema hidráulico.
- É, eu reparei. Quanto custa?
- Quinhentos.
- Oi?
- Quinhentos.
- Quinhentos mil reais brasileiros?
- Isso.
- ...
- Alô.
- Moça, você me disse que uma casa que precisa de reforma completa custa MEIO MILHÃO DE REAIS?
- É, veja bem, são dois terrenos. A casa tem cem metros quadrados.
- São 5 mil reais por metro quadrado. Numa região de difícil acesso na Lapa.
- Sim, uma oportunidade e tanto não? Você pode derrubar a casa atual e fazer uma nova com o seu estilo.
- ...

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- Alô, Marina?
- Isso.
- Foi você quem demonstrou interesse no nosso apartamento de dois quartos com cozinha, sala pra dois ambientes, varanda, banheiro, vaga de garagem, lazer completo, ao lado do metrô Liberdade, reformado, no valor de 230 mil reais?
- Isso, eu mesma.
- Sinto muito, já foi vendido.

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- Alô, Marina?
- Isso.
- Clariberta Roberta da Imobiliária Mi Casa, Su Casa (Nome obviamente fictício. O da imobiliária.), tudo bem?
- Tudo.
- Vi que você se interessou pelo nosso apartamento de 300 mil na Ponte Rasa e...
- TREZENTOS MIL? NA PONTE RASA? Não, moça, acho que mandei um e-mail de interesse pro apartamento errado. Eu tô procurando alguma coisa mais barata e mais próxima da cidade de São Paulo.
- Bom, tudo bem, o que você está procurando? Talvez eu possa ajudar.
- Apartamento de dois quartos, com vaga, próximo a um metrô, de preferência próximo ao centro, que aceite financiamento e custe menos de 250 mil.
- Ah, só você, né?
- Como?
- Esquece.
- Ah... Como?
- Quer uma dica? Esquece, você não vai encontrar nada, sinto muito. Teve um BUM de preços no último ano, está tudo caro. Pode tirar o cavalinho da chuva.
- Bom, então obrigada.
- Talvez na Baixa Casa Verde. Mas lá alaga.
- Não, moça, agradeço a atenção.
- Nada, boa sorte.

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Sorte.


Ta aí. No fim das contas é disso mesmo que eu vou precisar, já que bom senso está longe de ser uma opção.

Oração

13 de dezembro de 2011

Queria falar, mas minhas palavras eram de ódio.
Ódio de Deus, da medicina falha, do próprio corpo humano.
Então chorei.
Chorei rios e mares. A água saía de mim e me ensopava por fora na tentativa de desafogar o que transbordava por dentro.
Ódio.
Ódio que de tão palpável poderia até ser sólido.
Mas não era sólido, era líquido.
Líquido, denso, cinzento. E me afogava.
Tive vontade de sair na rua e gritar por justiça. Berrar perguntando o Por Que. Por que com ela? Por que?
Mas achei melhor rezar baixinho.
Uma reza que escorresse dos olhos e, humilde, implorasse piedade e cura se essa fosse a Sua vontade.
Queria xingar a maldita doença.
Mas nem isso fiz, com medo.
Após o ataque de choro, o medo me consumiu e acabou por tomar o lugar do ódio.
Tornei-me só medo. Medo inteira.
Maldito medo que, apesar de exalado por todos os poros, não escorre, não desafoga, não alivia.
Quando olhei pra ela, decidi respirar fundo, entreabrir espaço no peito apertado, caçar ali dentro um sorriso perdido e me prender a ele com todas as forças.
Restavam poucas, é verdade, mas suficientes para manter o sorriso diante dela.
Maldita doença que faz o corpo se virar contra ele mesmo.
Ela sabe o quanto terá de lutar. Ela sabe o quanto corre riscos. Ela, melhor que ninguém, sabe que pode não sobreviver.
Ela não precisa de alguém que a lembre disso a cada minuto.
Por isso, não terei pena. De mim ela terá todo o amor do mundo, terá sempre luz, fé, reza e braços fortes.
Se nesse momento os braços são mais fortes que o coração, que sejam eles o apoio então.

É com você que eu estou falando.
Você aí que sempre me ouve quando rezo a noite para agradecer e pedir proteção.
Por favor, ouça esse pedido.
Que eu seja instrumento de luta e superação.
Que eu seja fortaleza pra ela se esconder nos meus braços.
Que eu seja mais que uma menina frágil diante de um obstáculo grande demais.
Que eu seja, enfim, o que ela precisar.
Hoje e sempre.

Bailes da Vida

2 de dezembro de 2011

Histeria. Choro. Sorriso besta. Falta de palavras. Garganta seca.
Quem nunca imaginou como se sentiria quando se encontrasse com seu ídolo?
Quem nunca sonhou que jantava com aquele ator?
Quem nunca quis trombar na rua com aquele cara que cantava músicas perfeitas para cada momento de sua vida?
Quem nunca?


Pois é, eu nunca.


Não que não tenha ídolos, tenho muitos, mas meus herois morreram de overdose, ou, em alguns casos, como no da citação, de aids. Ou estão velhos e provavelmente não frequentam os mesmos lugares que eu - o que impede um esbarrão acidental.
Por esses motivos, principalmente, nunca tive muito desses faniquitos de fãs.
E, bom, nunca ter pensado nisso se tornou um problema quando, por ironia do destino, acabei trombando com um dos meus ídolos na empresa onde trabalho.
Um ídolo velho, não um ídolo morto. Melhor deixar isso bem claro.
Pra quem não sabe, trabalho numa empresa de edição de audio, tradução e dublagem. Vira e mexe aparecem atores famosos, mas nenhum que inspire ataques de tietagem da minha parte - tirando o Dr. Abobrinha, claro, que tá sempre por aqui e... Ah, qual é?! É o Dr. Abobrinha, poxa vida! O maior vilão da minha infância! Merece admiração.
Enfim, no começo do ano a empresa pegou um trabalho grande de dublagem e o cliente exigiu que a voz do narrador fosse feita por ninguém mais, ninguém menos que Milton Nascimento.


Uau!


Quando soube disso, fiquei estranha.
Se misturar tudo o que citei na primeira linha do texto dá pra ter ideia do que senti quando mencionaram esse nome. Um frio engraçado na barriga. A mesma coisa que senti quando Paul McCartney cantou Eleanor Rigby no Engenhão. Não dá pra explicar.
A ordem do chefe foi clara: Ninguém fala com o Milton.
A não ser que ele falasse com alguém, mas como o cara é tímido isso obviamente não aconteceria.
Bom, falar não podia, mas ver podia, certo? Ninguém falou nada sobre ver.
Então me posicionei estrategicamente no corredor por onde ele ia passar, com um café, como se meu trabalho fosse ficar lá parada.
E, bom, ele passou. Passou em câmera lenta. A princípio pensei que fosse efeito da minha admiração, depois vi que ele andava devagar mesmo, com certa dificuldade.
A patroa passou por mim e riu, claro, porque ela, ao contrário do Milton, sabia que meu trabalho não era ficar tomando café ali no corredor com cara de paisagem. Então, sem mais nem menos, ela quebrou a regra do chefe.


- Ei, vem cá!
- Ah... Eu?
- É, vem cá. Milton, essa é a nossa tradutora mais jovem. Ela é sua fã.
(Milton não fala nada)
(Eu não falo nada)
(Patrão resolve falar) - Marina, Milton. Milton, Marina.
(Milton não fala nada)
(Eu não falo nada)
(Patrão resolve falar de novo) - Pode cumprimentar.
(Milton não fala nada)
(Eu quero falar que meus pais colocavam as músicas dele pra eu dormir, que pra mim ele era a melhor voz da música brasileira, que minha vontade era me jogar aos pés dele e agradecer por Bola de Meia, Bola de Gude, por Coração de Estudante e pela interpretação dele de Cálice. Mas só abro a boca e não falo nada)
(Patrão, desconcertado, fala de novo) - Marina, ele não morde.
(Então digo algo admirável, algo que qualquer fã pensaria em dizer ao seu ídolo)
- Não me morda, Milton.


Todos riem e eu vou embora. Só na escada paro pra pensar no que falei e tenho um ataque de riso que dura 20 minutos. Meu primeiro pensamento é: "Nunca vou contar isso pra ninguém". Mas, depois, pensando bem, é ridículo demais pra não ser compartilhado.


Se trombasse na rua com seu maior ídolo e só pudesse dizer uma coisa a ele, o que diria?
Imagino que algo diferente de "Não me morda".


Bom, pelo menos ele não me mordeu.

A - Vozes

22 de novembro de 2011


Vó Josephina

- Tia, por favor, faz bolinho de chuva, por favor, por favor, por favor.
- Mas, gente, tá o maior sol lá fora.
- Mas a gente quer, tia, faz bolinho de chuva por favor, por favor, faz, faz, faz.
- Pelo amor de Deus, esse bolinho é só fritura com açúcar e essas crianças não saem do meu pé. Não, gente. Sem chuva, sem bolinho.
- Por que?
- Porque... Bom... Porque... Por que vocês não vão brincar, hein?
- Crianças.
- Oi, vó?
- Por que vocês acham que o bolinho chama "bolinho de chuva"?
- Ah... Bom... Sei lá.
- Porque o ingrediente principal é a água da chuva. Não pode ser feito com qualquer água, só com a da chuva. Agora, pipoca não precisa de água nenhuma. Posso fazer pipoca pra vocês?
- Ah... Tá, pode ser então.



Vô David

- Vó! A senhora pode dar dinheiro pra gente comprar bala no Pedro?
- Não tenho dinheiro não.
- Ah, vó, por favor! Dá dinheiro.
- Já pediram pros pais de vocês?
- Já! Mandaram a gente falar com a senhora.
- Sério?
- ... Não, só disseram que não tinham dinheiro.
- Bom, eu também não tenho. Falaram com o seu avô?
- Vô! O senhor tem dinheiro pra gente comprar bala?
- Vocês vão parar de encher o saco da sua avó se eu der o dinheiro?
- Vamos!
- Então espera aí.
Ele entra num quartinho de tralhas e sai com uma caixa cheia de dinheiro. Os olhos das crianças brilham com algo que transparece "Esqueçam as balas, vamos comprar todos doces do bar do Pedro, aliás, vamos é comprar logo o bar inteiro".
As crianças saem pulando de alegria e voltam chateadas com uma bala cada uma, graciosamente dadas pelo Pedro do bar em troca da caixa de velhos cruzados do seu David.


Vô Pedro


- Filha, por que você tá rodando feito uma tonta?
- É legal, mãe. Tudo fica girando depois.
- Para com isso, você pode se machucar.
- Machucar nada! É engraçado.
- Marina, para agora!
- Não vou parar não.
- Faz o que quiser então.
- Marina.
- Oi, vô.
- É melhor ouvir a sua mãe. Girando assim você pode ficar tonta demais e acabar tropeçando no tapete, batendo a cabeça na estante e quebrando o pescoço ou algo parecido. Vai ser sangue pra todo lado, só vai dar trabalho pra gente.

Nunca mais brincou de girar.

Vó Leny


(Primeiro ano da faculdade)
- Vó, vou sair.
- Tá bom, leva a chave.
- ... Ah... Tá... Ah, vó, um amigo meu vem me buscar, a gente vai pra um bar, eu não devo beber muito porque amanhã tem aula, até umas 3h eu tô de volta, prometo. Já deixei tudo arrumado no quarto pra não acordar a senhora quando voltar. E meus pais estão sabendo que vou sair. Tô levando o celular pra senhora me ligar caso aconteça alguma coisa. Tudo bem?
- Hum... Tá bom, leva a chave.


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Agora, se você me conhece, pense bem... Isso explica muita coisa, não explica?

Terapia

10 de novembro de 2011

Oi... Meu nome é Marina e estou sem café há 2 meses.

Ooooooi, Mariiiiiiiina

Estar aqui já é uma grande conquista, sem dúvida.
Essa é a primeira vez que tenho coragem de procurar ajuda. Sempre achei que não precisava, que tomava café feito louca porque era gostoso e quentinho e tinha aquele aroma maravilhoso e... Vou parar por aqui porque tô ficando com água na boca.
Enfim, vocês vão se espantar com o que vou dizer, mas comecei a tomar café ainda criança.
Não, meus pais não deixavam. Diziam que não era coisa pra criança, que tirava o sono, mas tomavam com tanto gosto que não pude conter a curiosidade.
Provei uma vez.
Como dizem, às vezes uma vez já é o suficiente pra viciar.
Pra mim, foi.
E de fato perdi o sono. Não dormia a noite e ficava com sono de dia, o que me obrigava a tomar café pra não dormir. De tanto café pra não dormir na escola, não dormia durante a noite... Criei, aos 10 anos, um ciclo vicioso.
Até o ciclo era vicioso.
Minha mãe fez vista grossa a princípio, não queria acreditar, mas depois, quando comecei a oferecer trabalhos domésticos aos vizinhos em troca de uma xícara de café, resolveu interferir.
Sabendo que seria inútil me proibir de tomar café, já que ao lado da escola havia uma padaria com o melhor pingado da história, ela decidiu controlar meu vício.
Um café pela manhã. Um café às seis da tarde.
Só.
Ela mesma cortou o cafézinho que tomava depois do jantar pra me ajudar.
Durante alguns anos, funcionou. Até que entrei na faculdade.
Eu saí da casa dos meus pais e precisei passar noites em claro para entregar os trabalhos e estudar para as provas. Quando vi, estava tomando de quatro a cinco cafés por dia.
Com o tempo, o café parou de me tirar o sono, o que me permitia tomar a noite inteira e ainda ter um sono tranquilo.
Ao longo dos cinco anos da faculdade, convivi com uma gastrite que por muito pouco não se transformou em úlcera.
Fiz de tudo pra não morrer de dor de estômago: cortei refrigerante, gordura, cerveja... Cheguei até a tomar batata crua batida com água. É, eu sei, nojento. Fiz de tudo, menos cortar o café.
O café era sagrado.
Depois da faculdade então, tudo saiu dos eixos de vez.
Onde eu trabalho tem uma garrafa de café que fica cheinha o dia inteiro. A moça do café faz um novo a cada 3 horas.
É o diabo.
Às vezes tô fechada na minha sala, na maior inocência, e vem aquele cheiro delicioso de café sendo feito. 
Eu surto. Não consigo trabalhar enquanto não pego um copo e tomo de goladas.
Tem uma técnica pra tomar café fervendo de goladas, o tempo certo de espera, a força do sopro, a posição da boca. São técnicas que a gente aprende com o tempo.
São técnicas que quero esquecer.
Este ano fiquei doente. Uma doença que não quero revelar, basta vocês saberem que o remédio me impedia de ingerir cafeína.
Tentei tomar café sem cafeína, mas descobri que é pior que cerveja sem álcool.
Foram as três semanas mais difíceis da minha vida.
Passei noites em claro, chorei de desespero, dormi em momentos inoportunos, tive dor de cabeça, ataques de raiva, quase fui presa ao invadir um velório em busca de um copinho que fosse de café frio, cheguei a sonhar que era jogada numa xícara de café gigante e morria queimada. Acordei com febre.
Foi quando percebi que talvez aquilo não fosse normal.
Procurei ajuda na internet e descobri esse grupo.
Hoje, cortei relações com a moça do café. Carrego um vidrinho de acetona na bolsa pra cheirar toda vez que ela faz um café novo. Cada segundo é uma luta, cada gole de água é uma decepção.
Sei que tenho que viver um dia de cada vez. Cada dia um novo desafio.
Mas eu vou conseguir.
Obrigada.

Clap clap clap clap clap clap clap clap clap

Obrigado por compartilhar, Marina. Agora faremos uma pausa para um café. Voltamos em 20 minutos.

Cicatriz

4 de novembro de 2011

- No meu sonho, eu tinha tudo de volta.
- Tudo o que?
- Tudo tudo. Tudo que já tive e não tenho mais.
- Como o que?
- Como roupas, amigos, a casa onde eu morava.
- Algumas coisas de que você se lembrou?
- Não, algumas coisas não. Todas. Absolutamente todas, mas demorou um tempo pra eu perceber porque estava triste diante de tudo. Durante um tempo pareceram apenas... Sei lá... Coisas.
- E o que fez você perceber que essas coisas eram todo o seu passado?
- Percebi no momento que entrei na faculdade e dei de cara com ela.
- Vixi! Ela?
- É, ela. Ela veio e me beijou como se fizesse isso todos os dias. Como fez, de fato, no passado. Quando ela abriu aquele sorriso e falou que estava com saudade, eu olhei pra mim, pra minha roupa, pra faculdade, pra antiga casa, pra tudo, e...
- E?
- Saí correndo, me vi subindo as escadas do prédio onde moro e chegando ao telhado.
- Pra quê?
- Pra me jogar.
- Credo. Não teve medo de não ser um sonho? Sempre tenho esse medo durante sonhos esquisitos.
- Eu torci pra não ser um sonho, na verdade.
- Não entendi.
- Quando a gente perde as coisas, o tempo ajuda a apagar a dor. Seja uma coisa banal, como uma roupa, ou algo realmente importante, como um amigo. Doeu muito ver todas aquelas coisas que deixei pra trás. Mas olhar pra ela era mais do que eu podia suportar. Uma dor sobre-humana. A mesma que senti daquela vez.
- Nossa! Aí você pulou e acordou?
- Quando fui pular alguém me segurou.
- Quem?
- Acordei pensando nisso. "Quem, meu Deus, quem?"
- E aí?
- Aí olhei pro lado e vi que tava de mãos dadas com uma pessoa maravilhosa. Ela abriu os olhos com sono, sorriu e me abraçou. Então a dor foi sumindo até voltar a não ter sentido, a ser apenas uma cicatriz fechadinha.