Biba & Eu

10 de abril de 2011

Eu a conheci num dia da semana, à tarde, na saída da escola.
Não esperava que aquele fosse um dia especial, muito menos que fosse um dos mais especiais da minha vida.
Se acreditasse em destino, diria que foi ele que fez com que ela chegasse até mim. Principalmente pelo jeito besta como aconteceu:

- Marina, segura esse cachorro um pouquinho? Já volto.

A menina nunca mais voltou e eu fiquei com o cachorro no colo. Segurando sem jeito, já prevendo a reação da minha mãe.

- TIRA ESSE BICHO DAQUI!
- Não tenho onde deixar, mãe.
- DEVOLVE ONDE PEGOU!
- Não peguei, a menina pediu pra eu segurar um pouquinho e não voltou mais.
- ELA PEGOU EM ALGUM LUGAR, DEVOLVE!
- Ela pegou numa caixa, mãe! Tava numa caixa. Você quer que eu coloque o cachorrinho na caixa e abandone aí de novo?
- Droga, não. Entra nesse carro! Vamos levar esse bicho pra algum lugar que aceite ele.
- Mãe... a gente não pode...
- NÃO!
- Mas, mãe, ele é lindo.
- Parece um rato. E mesmo que fosse o cachorro mais lindo do mundo, eu não deixaria! ENE, A, Ó, TIL - NÃO!
- Mas...
- Seu pai não pode nem sonhar que isso aconteceu! Não pode nem ver esse bicho.

Comecei a chorar. Não de tristeza, mas de medo do meu pai.
Só explicando pra quem conhece o seu Gilmar, - moço alegre, sorridente, festeiro, baixinho, de bigodão - meu pai não era exatamente esse doce que é hoje.
Ele era bravo.
Muito.
Raramente via um sorriso no rosto dele e sim, tinha medo do meu pai. Medo de que ele me colocasse de castigo e machucasse o cachorrinho.
Só quando cheguei em casa, depois de rodar toda a cidade e não encontrar um lugar que aceitasse o animal, percebi que estava errada quanto ao motivo de minha mãe não querer chegar em casa com um cachorro.

Ela sabia que se o cachorro entrasse não sairia mais.

- Pai (snif), eu...peguei...na...escola...desculpa...eu...
- Ahhhh, que coisinha mais bonitinha!!!! Deixa eu ver esse cachorro! Vem cá, cachorro!
- Ah...pai?
- Que coisinha mais linda! Como ele chama?
- Não sei.
- Tá sujinho esse bicho lindo, pensa num nome enquanto eu dou um banho nele. Vamos pro chuveiro, seu fofo? Vamos?
- NÃO VAI LAVAR ESSE BICHO NO MEU CHUVEIRO.

Caso não tenha percebido, esse grito histérico foi da minha mãe.

Naquela noite, meu pai deu banho no cachorro (Não sabíamos que os cachorros só podiam tomar banho depois de alguns meses. Descobrimos no dia seguinte), deu duas tigelas de leite pro cachorro (Não sabíamos que leite deixava o cocô mole. Descobrimos - urgh! - no dia seguinte), e deu o nome de Woody pro cachorro (Não sabíamos que era fêmea. Descobrimos no dia seguinte).

Aí você se pergunta, "Como, diabos, vocês não perceberam que o cachorro era fêmea?".

Eu tinha 10 anos, morria de medo da maioria dos cachorros e nunca tinha levantado a perninha dos que não tinha medo para saber como era.
Minha noção de sexualidade era básica: macho tem um negocinho pendurado pra fora, fêmea não.
-- Ah, como a vida é simples quando se é criança!
Minha mãe não chegava perto de cachorros desde pequena.
Meu pai era louco pra ter cachorro, mas não entendia muito do assunto.
Viramos o bicho de barriga pra cima e tinha um negocinho pra fora. Macho. E chamava Woody.

No dia seguinte - o dia das grandes descobertas - fomos ao veterinário. A família toda. Meu pai com um sorriso de orelha a orelha, meus irmãozinhos, minha mãe contrariada e o Woody no meu colo.
Não demorou muito pra descobrirmos que seria preciso escolher um nome novo.

- O que vocês acham de "Biba"?
- Igual a do Castelo Rá-Tim-Bum, mãe?
- É.
- Gostei!

Depois de perceber que a cachorra ia ficar em casa MESMO, minha mãe resolveu parar de reclamar e participar da brincadeira.
Ela não tinha nada contra animais, como vim a descobrir depois, mas sofreu muito, ainda criança, quando perdeu um cachorrinho. Ela não queria que a gente passasse pela mesma coisa.

E foi assim que o Woody virou Biba!

Esclarecendo algo importante, "Biba" só foi se tornar sinônimo de Homossexual uns 5 anos depois. O mundo é injusto, fazer o que? Não dá pra prever tudo. Tenho certeza de que muito "Bráulio" por aí sabe do que eu estou falando.
Ela é uma cachorrinha que nunca quis cruzar e que levanta a pata pra fazer xixi, mas isso não tem nada a ver com o nome. Se chamasse "Princesa" e gostasse de cachorrinhas nós respeitaríamos também, oras. O negócio é ser feliz.

E ela ficou do meu lado.

Estava do meu lado quando fiquei de recuperação de matemática pela primeira vez. Ela foi a primeira a saber do meu primeiro beijo e da minha primeira vez. Foi com ela que rolei pela varanda, brincando de jiu jitsu. Ela me atacou quando mexi na comida dela. Ela ficou do meu lado, com cara de dó, quando viu minha mão sangrando por causa da mordida. Ela foi a primeira a saber que eu tinha passado no vestibular.

E eu fiquei do lado dela.

Corri atrás dela quando ela fugiu pra rua, e xinguei o lixeiro que deu um coice nela, na minha frente. E chorei quando ela teve o primeiro ataque epilético. E ri quando a gente mudou de casa e ela parecia literalmente um cachorro em dia de mudança. Me desesperei quando ela tomou uma picada de aranha e ficou com a cara inchada. Rezei, quando fui pra Europa, pra que ela estivesse bem quando eu voltasse. E dei um beijo nela quando voltei. E chorei escondida quando ela quase morreu no final do ano passado.

E hoje minha melhor amiga já tem 13 anos. Esteve presente na maior parte da minha vida.
Me lembro disso quando ela me olha com carinha de cansada. Olhos esfumaçados pelo princípio de catarata.
E tiro sarro quando esse cansaço milagrosamente some na hora do jantar, momento em que ela volta a ter o mesmo pique que tinha com 2 anos e fica pulando do lado da mesa, pedindo comida.

Pilantra, é isso que ela é.

A pilantra que, desde 1998, escreve comigo uma das histórias de amor mais lindas do mundo.


Biba Cury Reis


"O tempo vai passar
Os anos vão confirmar
As três palavras que eu proferi
Amigo estou aqui"
(Toy Story)

8 pitacos:

renata disse...

Adoreiii a história!!! A Biba é conhecida aqi em casa tbm a tia sandra sempre fala deala qdo veem aqii... beeijo

Iuri disse...

Que linda, Marina! Eu acho que lembro o dia que você pegou ela na escola... Gostei mais de saber que ela ainda está bem. Pelo tom emotivo do post, esperava que você dissesse que ela tinha morrido. Beijo pra vocês!

bor disse...

menina, uma história de amor só é completa (ou só se completa, mesmo se ainda está incompleta) quando somos capazes de contá-la, quando a história de fatos vira história de palavras. e que palavras lindas as suas! que sorte a da biba! e a sua! e como toda boa história de amor, a sua também me fez chorar... grande beijo!

Fattori disse...

Só uma descrição tão sincera e bem escrita para ressaltar ainda mais o quão adorável é a Biba!
História pra guardar até o fim da vida, menina!

Lembranças da Mentirinha!

Marina disse...

Eu não posso ler histórias de cachorro. Como a sua mãe, acho que vou demorar muito a querer sofrer a perda de um de novo

Carolina disse...

Marina sempre surpreendendo com seu jeito meigo e sincero de escrever as coisas mais simples da vida. Linda sua história, Má. Adorei!

Bonaldi disse...

Q fofas!

**Amanda mazzei** disse...

Esse foi o texto mais lindo que eu já vi...
Nem sonhava que era história real..
Muito, muito bom mesmo Marina!