Junho de 2013

16 de junho de 2013


Depois de anos da queda dos reis da ditadura, voltamos às ruas para lutar por direitos que nos são negados. Voltamos porque todos estão cansados. Voltamos para protestar contra os roubos descarados desse país, que hoje é mais famoso por sua corrupção que por seus títulos de futebol. Voltamos porque, quando nos tornamos sede da Copa, sabíamos que muito dinheiro - que não temos - seria (mal) investido em estádios de futebol que talvez sejam usados só durante a Copa. Enquanto isso, a saúde é precária, a educação é uma piada e a violência é cada vez maior.
Voltamos às ruas porque votamos mal. Votamos sabendo que quem quer que esteja lá, fará sempre a mesma merda. Votamos sonhando com uma mudança que nunca acreditamos que realmente aconteceria. E que não acontece.
E fazemos isso há anos. A cada eleição.
Temos ideias erradas sobre a democracia. Somos egoístas. Achamos que conhecemos a realidade das pessoas financeiramente diferentes de nós, mas não conhecemos, e não ligamos. E, se ligamos, não demonstramos qualquer indignação.
Voltamos às ruas por 20 centavos de aumento nas passagens de ônibus. Sim. Porque todos que já tiveram a necessidade de entrar em um ônibus/trem/metrô lotado em horário de pico sabem o quanto esse valor é abusivo em relação ao péssimo serviço prestado. E muitos que não foram às ruas pelo aumento das passagens, agora vão, porque se indignaram ao ver tantos policiais militares atacarem a população que tentava protestar, sem violência, por seus direitos. Essa mesma polícia que estranhamente se manteve omissa na Virada Cultural. Essa mesma polícia que, sob ordens do Estado, deveria manter nossa segurança.
Pagamos um absurdo em impostos e temos medo de sair de casa, de assalto, de estupro, de assassinatos, temos medo de passar mal e não ter um hospital que nos atenda. Temos dó de quem se forma professor e precisa trabalhar em escolas públicas. Temos medo de ter filhos e não ter dinheiro para pagar uma escola particular. Temos medo da polícia. E enquanto lutamos todos os dias para ter uma vida decente, os políticos que deveriam nos representar votam leis como a do nascituro, colocam Feliciano na CDH, ou simplesmente não se manifestam contra atrocidades porque precisam evitar a quebra de laços políticos.
Nós somos muitos.
E já não importa se o protesto que originou toda essa movimentação foi contra o aumento das passagens, ou pelos direitos dos homossexuais, ou contra a falta de respeito com os professores. Hoje, a manifestação é contra tudo isso que nos oprime como povo e que nos definia como "conformados".
Definia. Já não define mais.
Hoje, os reis sabem que, se baixarem a passagem, estarão mostrando ao povo que o povo tem poder.
O que eles não percebem é que o povo já sabe disso. Demorou, mas, hoje, o povo sabe.
Por isso, vamos aproveitar que a liberdade ainda é maior que na época da ditadura e pôr a cara na rua.
Proteja-se sim, mas, ao contrário do que diz a música que abre esse post (escrita nos anos de ferro da ditadura militar), ande nos bares, abrace os amigos, pare nas praças, ponha o dedo nas feridas. Tenha paciência sim, mas movimente-se. Coloque panos brancos nas janelas e, se puder, vá às manifestações. Não quebre nada e não aja com violência, pois além de desmoralizar todo o protesto, é isso que a mídia quer mostrar. Se vir alguém depredando algo, peça que pare. O protesto é maior do que isso. É maior do que o interesse individual. É histórico.
É pelo todo.
É por uma mudança que pode, finalmente, acontecer.


"Já está escrito
Já está previsto...
Tá tudo nas cartas
Em todas as estrelas

Cai o rei de espada
Cai o rei de ouro
Cai o rei de paus
Cai, não fica nada"

Estrela

7 de junho de 2013

"Meu pai disse que aqueles pontos, lá em cima, são espíritos do passado. Disse que quando a gente morre, vai lá pra cima e fica olhando pelas pessoas que estão aqui embaixo. Ajudando, sabe?! Ele falou que depois que a gente morre se transforma em luz pra guiar as pessoas que ficam. Aí eu disse que não sabia por que o pessoal daqui de baixo precisava de tanto guia. Ele explicou que eu ainda era muito pequeno pra entender algumas coisas, mas que um dia posso precisar de tanta ajuda que vou achar que faltam pontinhos lá em cima. Ele falou que quando esse dia chegar, se ele não estiver mais aqui com a gente, vai estar grudado lá naquele pano preto pra me ajudar a seguir em frente."

"Você não contou pra ele que a professora de Ciências deu uma aula sobre estrelas e constelações na semana passada?"

"E acabar com a inocência dele assim, sem mais nem menos? Eu nunca seria tão malvado."